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Seca de 1877: os 100 mil retirantes de Fortaleza

Ceará, 1877 a 1879: a estiagem esvazia o sertão, a capital vira abrigo de retirantes e a varíola chega aos abarracamentos.

Retirantes cearenses em fila diante de barracas de palha em Fortaleza, 1878.

Fortaleza, 1878: abarracamento de retirantes

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A Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, publicou em 1878 uma série de reportagens de José do Patrocínio com um título seco: "Viagem ao Norte". O jornalista tinha embarcado para o Ceará para ver de perto o que as cartas da província descreviam, e mandou para a Corte relatos de estrada, de porto e de acampamento.

O que ele encontrou em Fortaleza tinha começado no sertão, um ano antes. As chuvas de 1877 não vieram. O inverno cearense (a estação das chuvas, que no Nordeste cai no primeiro semestre) passou em branco, e o milho e o feijão plantados em janeiro secaram no pé.

Sem colheita, o gado foi o próximo a cair. Os açudes particulares baixaram até a lama, as cacimbas (poços rasos cavados no leito dos rios) deixaram de dar água, e as fazendas começaram a soltar os vaqueiros e os moradores.

A saída de quem ficava sem nada era a estrada. Famílias inteiras desceram a pé para o litoral, levando o que cabia nas costas, em busca de comida e de um navio. O nome que a província deu a essa gente foi retirante.

Fortaleza era uma capital pequena, de ruas de areia, com um porto sem cais onde os navios ancoravam longe e a carga vinha em jangadas. A cidade não tinha onde guardar tanta gente.

Os retirantes ocuparam praças, calçadas e terrenos baldios. O governo provincial passou a erguer abarracamentos (acampamentos de barracas de palha e madeira nas bordas da cidade) e a distribuir farinha e carne-seca em troca de trabalho.

Rodolfo Teófilo, farmacêutico que viveu a crise na capital, contou mais tarde esses movimentos num livro de mais de 400 páginas. É dele a conta que os historiadores ainda usam para medir o tamanho da onda humana que chegou a Fortaleza.

O Episódio do Dia abre nessa conta, e no ano em que a varíola entrou nos abarracamentos.

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I  O Episódio do Dia

A cidade que dobrou de tamanho

Fortaleza, 1877 a 1879. A Seca de 1877 no Ceará, a Grande Seca dos livros escolares, empurrou para a capital mais de 100 mil retirantes, pela conta de Rodolfo Teófilo em "História da Seca do Ceará (1877 a 1880)", publicada em 1883.

Para ter a escala, basta abrir o Recenseamento Geral do Império de 1872, o primeiro censo nacional do Brasil. Ele registrou pouco mais de 40 mil habitantes em todo o município de Fortaleza, contando a zona rural. Em dois anos, a população flutuante superou a da cidade inteira.

O governo da província reagiu com obras. A lógica da época dizia que dar comida sem trabalho viciava o pobre. A ajuda, então, vinha amarrada a uma frente de obra (um canteiro público onde o retirante trabalhava em troca de ração).

Os retirantes calçaram ruas, abriram estradas, ergueram prédios públicos e trabalharam no prolongamento da Estrada de Ferro de Baturité, a linha que ligava Fortaleza ao sertão. A ração do dia era medida em litros de farinha e em pedaços de carne-seca.

Os abarracamentos cresceram nas bordas da capital. Eram fileiras de choupanas cobertas de palha de carnaúba, sem esgoto e com pouca água, onde dormiam famílias que já chegavam fracas da estrada.

Havia também a porta do mar. O governo imperial pagou passagens para retirantes seguirem de navio para o Pará, o Amazonas e as províncias do Sul. Muitos cearenses que embarcaram nesses anos foram trabalhar nos seringais (as matas de extração de borracha) da Amazônia.

Em 1878, a varíola chegou aos abarracamentos, e a cidade que já tinha fome passou a ter epidemia.

A doença se espalhava pelo contato e pelas roupas, e as barracas coladas umas nas outras ofereciam o terreno ideal. A vacina existia, mas faltavam doses e vacinadores para tanta gente.

Rodolfo Teófilo anotou os sepultamentos no cemitério da Lagoa Funda, aberto às pressas para receber os corpos. Pela conta dele, em 10 de dezembro de 1878 foram enterradas mais de mil pessoas num único dia, data que Fortaleza guardou como o dia dos mil mortos.

As chuvas voltaram em 1880. Os que sobreviveram começaram a voltar ao sertão, e os abarracamentos foram desmontados. O número total de vítimas da seca, da fome e da varíola não tem conta oficial fechada: os registros da época se perderam em parte, e as estimativas variam conforme o autor.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

Três anos de estiagem em datas

A crise durou três anos e mudou a política do Império para o Nordeste. A sequência, pelos relatórios dos presidentes da província e pelo livro de Rodolfo Teófilo:

·  Início de 1877: as chuvas não vêm e as roças do sertão cearense se perdem
·  Meados de 1877: as primeiras levas de retirantes chegam a Fortaleza
·  1877: o governo provincial abre frentes de obra pagas em ração
·  1878: José do Patrocínio viaja ao Ceará e publica "Viagem ao Norte" na Gazeta de Notícias
·  1878: a varíola se espalha pelos abarracamentos da capital
·  10/12/1878: o cemitério da Lagoa Funda recebe mais de mil corpos, segundo Teófilo
·  1879: Patrocínio publica o romance "Os Retirantes", baseado no que viu
·  1880: as chuvas voltam e os retirantes começam a regressar ao interior
·  1883: sai "História da Seca do Ceará", de Rodolfo Teófilo

Quem governava a província nesses anos assinava os relatórios anuais à Assembleia Provincial. Esses papéis listam as frentes abertas, o gasto com ração e o número de pessoas socorridas em cada abarracamento.

O dinheiro vinha da Corte. O Tesouro imperial mandou créditos extraordinários para o Ceará, e a administração dos socorros virou alvo de denúncia: jornais da oposição acusaram fornecedores de vender farinha podre e comissões de inflar listas de socorridos.

Uma frase atribuída a dom Pedro II circula até hoje: a de que venderia a última joia da Coroa para que nenhum cearense passasse fome. Nenhum documento assinado pelo imperador com essas palavras foi localizado, e historiadores tratam a frase como tradição oral.

O que o Império fez de concreto veio depois. Em 1881, uma comissão de engenheiros estudou a construção de açudes no Ceará, e em 1884 começaram as obras do Açude do Cedro, em Quixadá, a primeira grande barragem pública contra a seca no Brasil.

O Açude do Cedro só ficou pronto em 1906, 22 anos depois do início das obras e quase três décadas depois da seca que o motivou.

A seca deixou ainda um vocabulário. A palavra retirante entrou nos dicionários com o sentido de quem foge da seca, e a expressão "flagelado" passou a nomear, nos jornais do Norte, a vítima da estiagem.

A Grande Seca também mudou o mapa do país. Os cearenses que embarcaram para a Amazônia formaram a base da mão de obra do ciclo da borracha, que ocupou o Acre nas décadas seguintes.

 

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III  O Documento na Íntegra

O livro de Rodolfo Teófilo

A história da seca de 1877 se confere em seis acervos: o livro de quem viveu a crise, os relatórios oficiais, um romance, a imprensa da Corte, o censo e a obra pública que nasceu dela.

Em "História da Seca do Ceará (1877 a 1880)", de Rodolfo Teófilo, 1883: estão a conta de mais de 100 mil retirantes em Fortaleza, a descrição dos abarracamentos e o registro diário dos sepultamentos na Lagoa Funda. É a fonte de quase todos os números citados até hoje.

Nos relatórios dos presidentes da província do Ceará, 1877 a 1880: os documentos enviados à Assembleia Provincial trazem as frentes de obra, os gastos com socorros e as listas de abarracamentos. Parte deles está digitalizada no acervo de relatórios provinciais da Universidade de Chicago.

No romance "Os Retirantes", de José do Patrocínio, 1879: a ficção reaproveita cenas que o jornalista viu na viagem ao Ceará, e serve para comparar o relato da reportagem com a versão literária.

Na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional: a Gazeta de Notícias de 1878 guarda a série "Viagem ao Norte", de José do Patrocínio, e os jornais cearenses da época registram as denúncias contra os fornecedores de ração.

No Recenseamento Geral do Império de 1872: o censo, publicado pela Diretoria Geral de Estatística, dá a população de Fortaleza antes da seca e permite medir o tamanho do choque.

No Açude do Cedro, em Quixadá: a barragem de pedra continua de pé e é tombada pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). É o documento de pedra da resposta que o Império deu à seca.

Na divergência: o total de vítimas varia muito entre os autores. Teófilo contou sepultamentos na capital, e nenhum registro cobre com precisão os que ficaram pela estrada ou no sertão. Qualquer número para a província inteira é estimativa sem base oficial fechada.

As fontes concordam nas datas, na escala da migração para Fortaleza e na chegada da varíola em 1878. Discordam no balanço final e na parte de responsabilidade dos administradores dos socorros.

Três anos sem chuva, uma capital de barracas e um farmacêutico que contou os mortos: foi assim que o Ceará de 1877 entrou nos arquivos.

"Quantos retirantes cabiam numa cidade de areia?"

Em 10/12/2026, o dia dos mil mortos completa 148 anos. Nessa data, reconfira na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional a série de Patrocínio e, no livro de Rodolfo Teófilo de 1883, os números antes de citar a Grande Seca.

 
 
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No dia dos mil mortos, 10 de dezembro de 1878, qual cemitério de Fortaleza recebeu mais de mil corpos num único dia, segundo o registro de Rodolfo Teófilo?

ACemitério São Casimiro
BCemitério do Bom Jardim
CCemitério da Lagoa Funda
DCemitério São João Batista

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