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São Luís, 1684: o armazém que levou Manuel Beckman à forca
Fevereiro de 1684: colonos tomam o depósito da Companhia de Comércio, expulsam os jesuítas e governam a cidade por um ano.
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São Luís, 1684: o armazém lacrado pelos colonos
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E ntre 1852 e 1858, o Jornal de Timon, folha que o jornalista maranhense João Francisco Lisboa publicava em São Luís, registrou a frase atribuída a Manuel Beckman diante da forca: “Morro pelo povo do Maranhão”. O autor escrevia mais de 160 anos depois do fato e tratou a frase como tradição da cidade, sem papel que a provasse.
O homem da frase era senhor de engenho no vale do rio Mearim. Nascido em Lisboa, filho de pai alemão e mãe portuguesa, vivia no Maranhão havia décadas, tinha cadeira na Câmara de São Luís e fama de briguento com governadores.
O Maranhão do século 17 era uma colônia à parte. O Estado do Maranhão, criado pela Coroa portuguesa em 1621, respondia direto a Lisboa e não ao governo-geral de Salvador. Tinha poucos colonos, pouca moeda e uma economia de açúcar, tabaco, cacau e drogas do sertão (cravo, canela e outras especiarias colhidas na floresta).
Quem plantava dependia de braço indígena. Os jesuítas, que controlavam os aldeamentos (aldeias de indígenas administradas pelos padres), disputavam com os colonos o direito de usar esse trabalho. Em 1680, uma lei do rei Pedro II de Portugal proibiu de vez a escravização de indígenas no Estado.
A Coroa ofereceu um remédio em 1682: a Companhia de Comércio do Maranhão. A empresa recebeu o estanco (monopólio, o direito exclusivo de vender e comprar) por 20 anos. Prometia trazer africanos escravizados, tecidos, ferramentas e farinha de trigo, e comprar a produção local a preço tabelado.
A promessa não chegou ao porto. Os navios atrasavam, desembarcavam carga curta e cobravam caro. Os colonos acusavam a Companhia de usar pesos falsos na balança e de pagar pouco pelo que eles produziam.
O governador Francisco de Sá de Meneses passava longas temporadas em Belém, e São Luís ficava entregue a um capitão-mor (comandante militar da cidade).
O Episódio do Dia conta a madrugada em que a cidade tomou o armazém da Companhia e o ano que veio depois.
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I O Episódio do Dia
A madrugada em que São Luís fechou o estanco
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São Luís, noite de 24 de fevereiro de 1684. Manuel Beckman reuniu senhores de engenho, comerciantes e moradores no convento de Santo Antônio, dos frades franciscanos. Com ele estavam o irmão, Tomás Beckman, e o proprietário Jorge de Sampaio. A cidade vivia os dias das procissões da Quaresma, e o movimento nas ruas escondia a reunião.
Na madrugada de 25 de fevereiro, o grupo saiu armado. Prendeu o capitão-mor Baltasar Fernandes, que comandava a cidade na ausência do governador, e ocupou o armazém da Companhia de Comércio. As portas foram lacradas, e o estanco foi declarado extinto.
No dia seguinte, os revoltosos formaram uma junta de governo, com representantes do clero, da nobreza e do povo da cidade. A Câmara de São Luís aprovou as decisões. Beckman não tomou título de governador, mas era quem mandava.
A segunda medida mirou os jesuítas. Os padres da Companhia de Jesus foram reunidos, postos em embarcações e mandados para fora do Maranhão. Os colonos queriam os aldeamentos sem os padres no comando.
Por um ano, São Luís foi governada pelos homens que tinham tomado o armazém da Coroa.
A revolta não se espalhou. Belém, sede do governador, ficou fiel a Lisboa, e as vilas do interior assistiram de longe. Sem a Companhia, nenhum navio regular trazia mercadoria, e a escassez que motivou a revolta piorou.
A junta despachou Tomás Beckman para Lisboa, encarregado de explicar ao rei que a cidade se levantara contra a Companhia e seguia fiel à Coroa. Tomás foi preso ao desembarcar e mandado de volta ao Maranhão como réu.
Em maio de 1685, chegou a São Luís o novo governador, Gomes Freire de Andrade, com tropa vinda de Portugal. A cidade não resistiu. Os aliados de Beckman se dispersaram, e ele fugiu para o engenho no Mearim.
Quem o entregou foi o afilhado, Lázaro de Melo, que guiou os soldados até o esconderijo. A tradição maranhense diz que ele esperava um posto de capitão como prêmio e nunca o recebeu; nenhum documento da Coroa confirma a promessa nem a recompensa.
Manuel Beckman e Jorge de Sampaio foram julgados e enforcados em 2 de novembro de 1685. Outros participantes receberam degredo (exílio forçado em outra colônia) ou prisão. Os bens de Beckman foram a leilão. Gomes Freire os arrematou e devolveu à viúva e às filhas.
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II Neste Dia no Brasil
Dia de Finados, 1685: a forca de São Luís
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A forca de Manuel Beckman foi levantada no Dia de Finados. A sequência, pelos registros de Bernardo Pereira de Berredo e de João Francisco Lisboa: |
| · 1621: a Coroa cria o Estado do Maranhão, separado do Estado do Brasil | | · 1653: o padre Antônio Vieira chega ao Maranhão e passa a defender os aldeamentos | | · 1661: colonos expulsam os jesuítas de São Luís pela primeira vez, Vieira incluído | | · 01/04/1680: lei de Pedro II proíbe a escravização de indígenas no Estado | | · 12/02/1682: a Coroa cria a Companhia de Comércio do Maranhão, com estanco de 20 anos | | · 25/02/1684: os revoltosos tomam o armazém da Companhia e prendem o capitão-mor | | · 05/1685: Gomes Freire de Andrade desembarca em São Luís com tropa | | · 02/11/1685: Manuel Beckman e Jorge de Sampaio sobem à forca | | · 1755: o marquês de Pombal cria a Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão |
A data da execução pesou na memória da cidade. Em São Luís, Finados era dia de missa pelos mortos e visita às igrejas, e a forca ficou associada a ele nas crônicas do século 19.
O governador fez questão da cerimônia pública. Os enforcamentos serviam de aviso aos moradores que tinham apoiado a junta, e Gomes Freire evitou novas execuções depois daquela manhã.
O mesmo governador desmontou o que tinha causado a revolta. A Coroa extinguiu a Companhia de Comércio do Maranhão ainda em 1685, antes de completar 4 dos 20 anos de estanco.
A revolta perdeu na forca e ganhou no papel: a Companhia acabou no ano da execução.
Os jesuítas voltaram a São Luís e retomaram os aldeamentos. Em 1686, o Regimento das Missões (o conjunto de regras da Coroa para as aldeias) devolveu aos padres o governo temporal dos indígenas aldeados.
O monopólio voltou 70 anos depois, com outro desenho. A Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão, criada por Pombal em 1755, trouxe africanos escravizados em escala e durou até 1778.
Beckman virou herói local no século 19. O município de Bequimão, no litoral do Maranhão, leva a grafia portuguesa do sobrenome, e a revolta entrou nos livros escolares como uma das primeiras contra o domínio comercial de Lisboa.
Tomás Beckman escapou da forca. Recebeu pena de degredo e saiu do Maranhão; o destino exato e o ano em que morreu não aparecem nas crônicas consultadas para esta edição, e nenhuma delas cita documento sobre o fim dele.
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