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Quariterê, 1770: a tropa que queimou o quilombo de Teresa de Benguela

Vale do Guaporé, 1770: soldados de Vila Bela cercam o quilombo, prendem a rainha e registram cabanas, armas e presos num auto.

Tropa colonial diante das cabanas em chamas do quilombo do Quariterê, 1770.

Quariterê, 1770: o quilombo de Teresa em chamas

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O Diário Oficial da União publicou em 3 de junho de 2014, no texto da Lei 12.987: “Fica instituído o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, a ser celebrado, anualmente, em 25 de julho”. A mulher homenageada pela lei viveu no século 18 e só aparece por escrito num punhado de páginas de cronistas coloniais.

Teresa de Benguela governou o quilombo do Quariterê (comunidade de pessoas que fugiram da escravidão), também chamado quilombo do Piolho, no vale do rio Guaporé, em Mato Grosso. O sobrenome vem de Benguela, porto de Angola de onde saíam navios carregados de africanos escravizados.

O Mato Grosso de 1770 era fronteira de ouro. A capitania (unidade administrativa da colônia) tinha sido criada em 1748, e a capital, Vila Bela da Santíssima Trindade, nasceu em 1752 na margem do Guaporé, de frente para as missões espanholas.

As lavras (minas de ouro a céu aberto) dependiam de braço escravizado. Quem fugia das lavras tinha mata fechada, rios e serras por perto, e muitos subiam o rio Quariterê, afluente do Guaporé, até um ponto onde a tropa demorava semanas para chegar.

O quilombo cresceu ali desde a década de 1730. O primeiro chefe conhecido foi José Piolho, escravizado da herança de um proprietário chamado Antônio Pacheco de Morais, e o apelido dele batizou o lugar.

Quando José Piolho saiu de cena, a viúva assumiu. Os cronistas de Vila Bela não registraram a data nem a causa da morte dele, e nenhum papel posterior preenche a lacuna.

Teresa manteve roças de milho, feijão, mandioca e algodão, um tear que fazia pano e uma forja (oficina de ferreiro) que transformava ferro velho em enxada e faca. Nas mesmas terras viviam indígenas, alguns fugidos dos aldeamentos e outros capturados pelos quilombolas.

Para os senhores de lavra, cada pessoa que chegava ao Quariterê era braço a menos na mina. O governador Luís Pinto de Sousa Coutinho decidiu acabar com o refúgio.

O Episódio do Dia conta a diligência (expedição oficial de captura) que saiu de Vila Bela e o que ela registrou no caminho de volta.

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I  O Episódio do Dia

A diligência que subiu o Quariterê

Vila Bela, primeiro semestre de 1770. O governador Luís Pinto de Sousa Coutinho, que chegara à capitania em 1769, mandou montar uma bandeira (tropa armada que entrava no sertão) contra o quilombo do Quariterê. O comando ficou com o capitão João Leme do Prado.

A tropa juntou soldados, homens livres pagos pela Câmara e guias que conheciam os rios. Saiu da capital em canoas, desceu o Guaporé e entrou pelo Quariterê acima, com mantimento para semanas.

Os quilombolas tinham vigias. O quilombo ficava longe da margem, cercado de mata, e a roça se espalhava em clareiras. A chegada de uma tropa no rio costumava ser percebida com dias de antecedência.

Desta vez, o cerco chegou antes do aviso. Os soldados entraram nas clareiras, puseram fogo nas casas e prenderam quem não conseguiu correr para a mata. Teresa de Benguela estava entre os capturados.

O quilombo que resistira por mais de 30 anos caiu num único ataque da tropa de Vila Bela.

O fogo destruiu as casas de palha, o tear e os paióis (depósitos de grão). As roças ficaram para trás, e parte da colheita foi levada como mantimento da volta.

A tropa recolheu armas: espingardas tomadas em fugas e assaltos, arcos, flechas e ferramentas de ferro saídas da forja do quilombo. O registro oficial tratou as enxadas como prova de que o lugar funcionava como povoado.

Os presos subiram nas canoas amarrados. Entre eles havia africanos, crioulos (negros nascidos no Brasil), indígenas e filhos de africanos com indígenas, que os papéis chamam de cabores.

Teresa chegou a Vila Bela presa. Os relatos do século 18 dizem que ela recusou comida e não resistiu muitos dias. A cabeça dela foi cortada e exposta num poste no meio do quilombo arrasado, como aviso a quem pensasse em voltar.

Os outros presos tiveram destino conhecido só em parte. Os que tinham senhor registrado foram devolvidos às lavras. Os demais foram marcados a ferro com a letra F, de fugido, castigo previsto para escravizados recapturados, e vendidos ou postos a serviço da Coroa.

Os indígenas capturados foram mandados para aldeamentos. Os papéis da diligência não dizem quantos sobreviveram à viagem nem para qual aldeia cada um seguiu.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

Junho de 1770: a rainha presa em Vila Bela

A queda do Quariterê aparece nos Anais de Vila Bela, a crônica oficial que a Câmara da capital escrevia ano a ano. A sequência, pelos Anais e pelos estudos de historiadores de Mato Grosso:

• 1748: a Coroa cria a capitania de Mato Grosso, separada de São Paulo

• 1752: fundação de Vila Bela da Santíssima Trindade, às margens do Guaporé

• Década de 1730 a 1750: surge o quilombo do Piolho no rio Quariterê, sob José Piolho

• Data incerta: Teresa de Benguela assume o governo do quilombo depois da morte do marido

• 1769: Luís Pinto de Sousa Coutinho toma posse como governador

• Junho de 1770: a bandeira de João Leme do Prado destrói o quilombo e prende Teresa

• 1791: nova expedição encontra o lugar ocupado por remanescentes e seus filhos

• 2014: a Lei 12.987 cria o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra

A data exata do ataque varia. Os Anais registram a expedição em 1770, e as transcrições modernas citam fins de junho; nenhuma cópia consultada para esta edição traz o dia fechado com certeza.

O número de presos também chegou por um papel só. Os Anais falam em 79 negros e 30 indígenas capturados, contagem repetida pela historiadora Luiza Rios Ricci Volpato no livro "Cativos do sertão", de 1993.

O Quariterê voltou a existir 21 anos depois da queima: a mata guardou quem escapou do cerco.

Em 1791, uma nova bandeira mandada por Vila Bela encontrou o quilombo reocupado. Moravam lá fugitivos de 1770 e filhos que eles tinham tido na mata. A tropa os levou para a capital, e o governo tentou instalá-los numa aldeia oficial, chamada Carlota.

A aldeia Carlota não durou. Os moradores foram se dispersando, e os registros da capitania perdem a pista deles nos anos seguintes.

Vila Bela também perdeu força. O ouro do Guaporé rareou nos últimos anos do século 18, e em 1835 a capital de Mato Grosso foi transferida para Cuiabá. A cidade antiga ficou com população majoritariamente negra, descendente de quem trabalhou nas lavras.

Teresa de Benguela demorou dois séculos para sair dos Anais. O movimento de mulheres negras dos anos 1990 resgatou o nome dela, e a data de 25 de julho, já marcada como Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha desde um encontro de ativistas em Santo Domingo, em 1992, ganhou o nome da rainha na lei de 2014.

 

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III  O Documento na Íntegra

Os Anais de Vila Bela e o conselho da rainha

O que se sabe do governo de Teresa vem quase inteiro de uma fonte: o Anal de Vila Bela do ano de 1770, texto lançado no livro da Câmara pelos escrivães da capital.

Nos "Anais de Vila Bela da Santíssima Trindade", 1734 a 1789: a Câmara registrava fatos do ano, chegadas de governador, epidemias e expedições. O livro foi transcrito e publicado pela Universidade Federal de Mato Grosso em 2006, com organização de Janaína Amado e Leny Caselli Anzai.

No relato do ano de 1770: o escrivão descreve o quilombo com espanto e algum desdém. É dali que sai o trecho mais citado sobre a organização do Quariterê.

“Governava esse quilombo a modo de parlamento, tendo para o conselho uma casa destinada, para a qual, em dias assinalados de todas as semanas, entravam os deputados”, registra o Anal de Vila Bela de 1770, na transcrição da UFMT.

O mesmo trecho diz que o conselho obedecia à rainha, que presidia as reuniões e cujas ordens se cumpriam “sem apelação nem agravo” (sem recurso a instância nenhuma, na linguagem jurídica da época). O escrivão usou palavras da Câmara portuguesa para descrever o governo de um quilombo.

Na divergência: os Anais chamam Teresa de rainha e descrevem castigos duros contra quem desobedecia, e parte dos historiadores lê o trecho como exagero de quem queria justificar o ataque. A causa da morte dela também se discute: os cronistas falam em recusa de comida e abatimento, e nenhum documento independente confirma.

O auto da diligência (relatório assinado pelo comandante ao fim da expedição) listava cabanas, armas, mantimentos e presos. Ele serviu de base para o escrivão dos Anais, e trechos dele foram copiados no livro da Câmara.

As fontes concordam no ataque de 1770, na prisão de Teresa, na existência do conselho, da forja e do tear e no retorno de remanescentes em 1791. Discordam no tom: para a Câmara, o quilombo era ameaça; para os historiadores de hoje, era um povoado com governo próprio.

Uma rainha, um conselho semanal e uma forja de ferro: Vila Bela registrou o governo do Quariterê no mesmo papel em que contou como o destruiu.

“Quem escreveu a história de Teresa de Benguela foi a Câmara que mandou a tropa. O que se perdeu sem o relato do próprio quilombo?”

Em 25 de julho de 2027, o Dia Nacional de Tereza de Benguela completa 13 anos de lei. Nessa data, reconfira no Arquivo Público de Mato Grosso, em Cuiabá, e na edição dos Anais de Vila Bela publicada pela EdUFMT o relato de 1770 antes de citar a rainha do Quariterê.

 
 
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