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Os três minutos do Baependi
15 de agosto de 1942, noite de sábado na costa de Sergipe: dois torpedos do U-507 e um diário de bordo alemão que crava a hora exata.
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Costa de Sergipe, noite de 15 de agosto de 1942
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Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 1942. Na III Reunião de Consulta dos Chanceleres Americanos, o Brasil rompe relações diplomáticas com Alemanha, Itália e Japão. Romper relações não é declarar guerra, e o país passou os sete meses seguintes nessa faixa estreita: sem embaixador em Berlim, sem tropa em campo e sem um único documento que dissesse em que situação estava.
A conta, mesmo assim, começou a ser cobrada longe de casa. Em fevereiro e março, o Buarque, o Olinda, o Arabutã e o Cairú foram a pique na costa dos Estados Unidos.
Em 18 de maio, o submarino italiano Barbarigo acertou o petroleiro Comandante Lira a cerca de duzentas milhas do Rio Grande do Norte. O navio aguentou, foi rebocado até Fortaleza e voltou a navegar meses depois.
Enquanto o país esperava uma definição, a linha de cabotagem seguia rodando no horário de sempre. Os paquetes do Lloyd Brasileiro faziam Rio, Santos, Salvador, Maceió e Recife com passageiro civil, tropa em transferência, família de militar e carga miúda no mesmo convés.
Havia uma regra em disputa sobre o que um navio de país neutro devia mostrar à noite. Berlim exigia bandeira pintada no costado e luzes acesas, para que o periscópio identificasse o neutro à distância.
O governo brasileiro e as companhias mandavam o contrário: navegar às escuras, sem marcação, justamente para não virar alvo iluminado no meio do mar.
Ninguém arbitrou a contradição. Cada capitão resolvia no convés e cada comandante de submarino resolvia no periscópio.
Desde o fim de julho, um submarino alemão descia a costa brasileira com ordem de operar entre a Bahia e o Rio Grande do Norte, sem ter atacado nada até ali.
O que aconteceu num sábado de agosto, a poucas milhas da foz do rio Real, entrou para a memória brasileira pela contagem de vítimas. Mas a hora, a distância e o número dos tubos disparados só existem escritos num lugar, e não é num arquivo brasileiro.
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I O Episódio do Dia
A noite de sábado ao largo do rio Real
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Um navio de 43 anos sumiu do mar antes de a maioria chegar ao convés.
Sábado, 15 de agosto de 1942, fim de tarde, quadrado naval FJ 8523, ao largo da foz do rio Real, na divisa da Bahia com Sergipe. O submarino alemão U-507, do tipo IXC, avista um vapor a nove milhas, na marcação 288 graus, no último claro do crepúsculo.
No comando estava o capitão de corveta Harro Schacht, 34 anos, na terceira patrulha do barco. O diário de bordo registra o avistamento às 22h48 e anota duas coisas sobre o alvo: nenhuma marcação de neutralidade visível e luzes de navegação acesas.
O vapor era o Baependi: casco de 1899, saído do estaleiro Blohm & Voss, em Hamburgo, com o nome de Tijuca, depois incorporado à frota do Lloyd Brasileiro, com 4.801 toneladas.
Tinha deixado Salvador na manhã daquele sábado, com destino a Maceió, sob o comando do capitão de longo curso João Soares da Silva. A contagem mais repetida põe 306 pessoas a bordo: 73 tripulantes e 233 passageiros.
Entre os passageiros ia o 7º Grupo de Artilharia de Dorso, sob o major Landerico de Albuquerque Lima, em transferência para o Nordeste, com famílias de militares junto.
O diário do U-507 marca as horas em hora alemã de verão, cinco horas à frente do relógio de Sergipe. O disparo que o documento data de 00h12 do dia 16 é o mesmo instante que a costa registrou como 19h12 do dia 15.
Às 00h12, o comandante mandou disparar os tubos II e IV. O diário anota dois acertos, um no porão de proa e outro na praça de máquinas, e diz que o navio adernou e sumiu em quatro minutos.
O intervalo entre um torpedo e outro foi curto demais para render o convés. Uma única baleeira desceu à água, com 28 dos 36 sobreviventes. Os outros se seguraram em destroços até o amanhecer.
Os primeiros náufragos chegaram a Estância na manhã de domingo, 16 de agosto. O Baependi terminou com 270 mortos.
O submarino não parou ali. Às 02h03 pegou o Araraquara, com 131 mortos, e às 09h13 do dia 16 pegou o Aníbal Benévolo, com 150.
No dia 17, às 15h49, foi a vez do Itagiba, com 36 mortos. Às 18h03 caiu o Arará, que tinha parado para recolher náufragos do Itagiba, com mais 20. O sexto alvo foi o pequeno veleiro Jacira. Em três dias, 607 nomes.
A notícia só chegou ao público em 18 de agosto, retida pela censura do Estado Novo. Rio, Salvador, Aracaju e Porto Alegre tiveram passeata e depredação de comércio de súdito do Eixo.
Em 22 de agosto, um sábado, o governo reconheceu o estado de beligerância com Alemanha e Itália. Nove dias depois veio o texto que fechou a moldura jurídica.
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Declara o estado de guerra em todo o território nacional.
Ementa do Decreto nº 10.358, de 31 de agosto de 1942, Coleção das Leis do Brasil
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Schacht nunca foi interrogado. Em 13 de janeiro de 1943, o U-507 foi afundado no litoral do Nordeste por um Catalina do esquadrão VP-83 da Marinha americana, com o comandante e os 53 tripulantes a bordo. Do lado alemão, sobrou o caderno da patrulha.
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II Neste Dia no Brasil
Do blefe de Grenfell ao sobrado de Piedade
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O 15 de agosto já tinha três marcas no calendário brasileiro antes de ganhar a quarta no mar de Sergipe: a última província a aderir à independência, em 1823, o nascimento de um romancista mineiro, em 1825, e o dia final do autor de Os Sertões, em 1909.
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A camada mais antiga é militar e diplomática ao mesmo tempo. Em agosto de 1823, o Grão-Pará era a única província que ainda não tinha aderido ao Império, quase um ano depois do 7 de setembro.
Quem foi resolver a pendência chegou sozinho. O primeiro tenente John Pascoe Grenfell, inglês a serviço da Marinha brasileira sob Lorde Cochrane, entrou em Belém no brigue Maranhão e mandou avisar a Junta que uma esquadra o esperava perto da Baía do Sol, pronta para tomar a cidade.
Não havia esquadra nenhuma. Era blefe, e funcionou: em 15 de agosto de 1823, uma sexta-feira, as autoridades da província assinaram o termo de adesão no palácio do governo, hoje Palácio Lauro Sodré.
O Pará transformou a data em feriado estadual em 1996, e o 15 de agosto virou a data magna do estado.
A segunda camada é literária. Em 15 de agosto de 1825 nascia em Ouro Preto Bernardo Joaquim da Silva Guimarães, que seria juiz municipal em Catalão, no interior de Goiás, e escreveria O Seminarista, de 1872, e A Escrava Isaura, de 1875.
O romance de 1875 saltou para a televisão em 1976, na novela que a Rede Globo vendeu para dezenas de países, inclusive a China.
A terceira camada é a mais áspera. Em 15 de agosto de 1909, um domingo, Euclides da Cunha, 43 anos, autor de Os Sertões, foi até uma casa em Piedade, subúrbio do Rio, onde vivia o cadete Dilermando de Assis.
Euclides entrou atirando. Saiu de lá baleado e não resistiu aos ferimentos. Dilermando foi a júri e acabou absolvido por legítima defesa, em decisão que a família do escritor contestou pelas décadas seguintes.
O caso rendeu autos, memórias do lado do cadete e uma bibliografia inteira de contestação, e segue sendo o episódio da vida do autor que menos se confere.
As três primeiras marcas foram decididas por gente que estava no lugar: uma assinatura num palácio de Belém, um parto em Ouro Preto e um domingo numa casa de subúrbio. A quarta foi decidida a vinte milhas da costa, por quem via o litoral pelo periscópio.
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