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A prova mais forte da noite foi a que ninguém sabia ler.
Domingo, 25 de janeiro de 1835, uma hora da madrugada, Ladeira da Praça número 2, freguesia da Sé, Salvador. Os juízes de paz arrombam a porta da loja do sobrado e encontram dezenas de africanos armados, à espera do amanhecer.
A loja do andar de baixo estava alugada ao alfaiate Domingos Marinho de Sá, e nela moravam dois libertos nagôs, Manoel Calafate e Aprígio.
A porta não foi arrombada por acaso. Na tarde de sábado, o liberto Domingos Fortunato ouviu comentários sobre um levante, e por volta das nove da noite sua companheira, Guilhermina Rosa de Souza, repassou o aviso à comadre Sabina da Cruz.
Sabina já estranhava a ausência do companheiro, Vitório Sule. Saiu atrás dele e voltou com a confirmação. Guilhermina procurou o vizinho branco André Pinto da Silveira. Dele o recado subiu ao juiz de paz e ao chefe de polícia, Francisco Gonçalves Martins. Antes da meia-noite havia patrulha na rua.
A data não tinha sido sorteada. O dia 25 caía num domingo de festa de Nossa Senhora da Guia, quando boa parte da cidade subia para a igreja do Bonfim e o centro ficava vazio.
No calendário dos malês, o mesmo dia caía no fim do Ramadã, perto da Noite do Destino, e só uma das duas festas estava no almanaque do governo.
A denúncia não impediu o levante, mudou a hora dele: o ataque estava marcado para a manhã de domingo, com a tropa dispersa na festa, e começou na madrugada, com a tropa de pé e avisada.
Cercados na loja, os africanos romperam para a rua e a luta começou ali mesmo. O grupo subiu à Praça do Palácio e tentou invadir a cadeia do Tribunal da Relação para tirar Pacífico Licutan, mestre malê preso desde novembro de 1834.
Não conseguiram. Passaram pelo quartel dos Guardas Permanentes, cruzaram as Mercês, a Barroquinha e o Terreiro de Jesus e recolheram gente pelo caminho.
Perto do amanhecer, a coluna desceu para Água de Meninos, onde ficava o quartel de cavalaria, e a tropa montada a desfez. A contagem mais repetida põe cerca de 70 africanos mortos, a maioria ali, e nove do outro lado.
Encerrado o combate, o chefe de polícia mandou revistar casa de africano em toda a cidade. As buscas renderam livros, papéis em árabe, tábuas de escrever e rosários sem cruz.
Dos corpos e dos presos vieram os patuás: bolsinhas de couro com papel dobrado dentro, cada uma virando item numerado de processo.
Na mesa do tribunal, o papel era a prova mais forte e a mais muda. Ninguém ali lia árabe, e a justiça imperial passou a depender de traduções feitas por outros cativos, que também respondiam a processo.
Os processos correram ao longo de 1835 e somaram centenas de réus, entre eles catorze mulheres. Quatro homens foram fuzilados no Campo da Pólvora em 14 de maio, entre eles Jorge da Cruz Barbosa.
Outros pegaram até 1.200 açoites, galés perpétuas ou deportação. Em novembro, cerca de 200 pessoas foram embarcadas de volta para a África no navio Maria Damiana.
Cinco meses depois, o parlamento fechou a moldura no país.
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Determina as penas com que devem ser punidos os escravos, que matarem, ferirem ou commetterem outra qualquer offensa physica contra seus senhores, e outras pessoas, e estabelece regras para o processo.
Ementa da Lei de 10 de junho de 1835, Coleção das Leis do Império do Brasil
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A repressão fechou as salas de aula de árabe, proibiu reunião de africano depois do toque e encheu o arquivo. Além dos autos, deixou um maço de papel que o processo não conseguia ler.
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