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Os 781 nomes na lista do Kasato Maru
18 de junho de 1908, manhã de quinta-feira: o Kasato Maru encosta no cais 14 de Santos e a lista de bordo decide quem desce, quando e para onde.
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Cais 14, porto de Santos, 18 de junho de 1908
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Kobe, 28 de abril de 1908, fim de tarde. Um vapor de 6.167 toneladas solta as amarras com 781 lavradores japoneses a bordo, contratados para colher café no interior de São Paulo. Pela frente, 12 mil milhas náuticas de oceano.
O navio já tinha vivido outras duas vidas. Saiu de um estaleiro inglês em 1900 com o nome de Potosi, foi vendido à Rússia e virou o Kazan, navio-hospital da guerra contra o Japão. Capturado em Ryojun, voltou ao mar com bandeira japonesa e nome novo, Kasato Maru.
A travessia levou 52 dias, com escala em Singapura e na Cidade do Cabo antes de cruzar o Atlântico. A bordo iam intérpretes, médico e o próprio Ryu Mizuno, da Companhia Imperial de Imigração, que manteve diário da viagem.
A viagem existia por causa de um contrato assinado em novembro de 1907. De um lado Mizuno, de Tóquio. Do outro Carlos Botelho, secretário da Agricultura de São Paulo, atrás de braço para o café depois que a emigração subsidiada da Itália foi barrada em 1902.
O contrato tinha uma cláusula que desenhou a lista inteira: só entrava família, de três a dez pessoas, todas acima de doze anos. Quem viajava sozinho não servia, e quem tinha filho pequeno demais precisava de mais gente no grupo para fechar a conta.
Foi assim que apareceram as famílias montadas no papel, com parentes distantes e vizinhos reunidos sob um sobrenome só para caber na exigência. A lista de bordo registrava parentesco, idade, profissão, religião, grau de instrução, procedência e destino, linha por linha, à mão.
Esse papel não era formalidade de porto. Ele definia quem descia, em que ordem, para qual estação de trem e para qual fazenda, e é o documento que diz hoje o que aconteceu com cada uma daquelas 781 pessoas no primeiro dia delas no país.
E o primeiro dia não correu como a data comemorada faz supor.
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I O Episódio do Dia
A quinta-feira que terminou a bordo
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O navio encostou de manhã no maior porto do país, e mesmo assim os 781 passaram a primeira noite no Brasil dentro dele.
Quinta-feira, 18 de junho de 1908, porto de Santos, nove e meia da manhã. O Kasato Maru encostou no cais do armazém 14 depois de 52 dias de mar, com 781 lavradores japoneses a bordo.
No cais havia autoridade do porto, gente do Serviço Sanitário, fotógrafo e curioso. Era a primeira leva japonesa contratada para o café paulista, e a cidade vinha lendo sobre ela nos jornais das semanas anteriores.
Ninguém desceu naquele dia.
A conferência da bagagem começou antes do desembarque e tomou quase dois dias. Eram 1.100 malas, a maior parte de vime branco, algumas de lona pintada, e a alfândega abriu peça por peça atrás de objeto sujeito a imposto. Não achou nenhum.
Enquanto o armazém trabalhava, os passageiros ficaram onde estavam. Comeram a bordo, dormiram nos mesmos beliches da travessia e passaram a primeira noite no Brasil dentro de um navio parado, amarrado no cais, a poucos metros do país onde iam viver.
O primeiro dia dos 781 no Brasil terminou onde tinha começado, dentro do Kasato Maru atracado no cais 14, com a bagagem ainda aberta em terra.
O desembarque veio na sexta-feira, 19 de junho. Homens e mulheres saíram do navio vestidos à europeia, eles de chapéu ou boné, elas de saia e camiseta presa por cinto, roupa comprada no Japão para a chegada.
Da doca o grupo seguiu para a estação, onde esperava um trem especial da São Paulo Railway. A subida da serra até a capital levou quatro horas.
O destino era a Hospedaria de Imigrantes do Brás, prédio da Secretaria da Agricultura onde o Estado registrava, alimentava e distribuía quem chegava. O inspetor J. Amândio Sobral acompanhou o grupo e escreveu o relato mais detalhado do episódio.
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Chegaram dia 18 pelo vapor Kassato Maru, depois de 52 dias de viagem do Japão a Santos. Vieram para S. Paulo no dia 19, desembarcando nesse mesmo dia do vapor que os trouxe.
J. Amândio Sobral, inspetor da Secretaria da Agricultura, Correio Paulistano, 26 de junho de 1908
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Duas frases resolvem a data que ainda hoje se conta errada. O navio chegou no dia 18 e o desembarque ficou para o dia 19, escrito por quem estava na doca e no trem.
No fim daquela sexta-feira os 781 estavam no Brás, dentro de um prédio de tijolo aparente que recebia milhares de pessoas por vez, com nome, idade e destino já anotados no livro da casa.
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II Neste Dia no Brasil
Do cais 14 às seis fazendas de café
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Dos 781, apenas 37 viajavam avulsos. O resto vinha em 161 famílias, com média de quatro pessoas e meia cada, muitas montadas para caber na cláusula do contrato.
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A conta de Sobral separa a leva por idade. Oito crianças com menos de três anos, quatro de três a sete, quatro de sete a doze e 765 pessoas acima dos doze, a faixa que o contrato exigia.
Mais da metade sabia ler e escrever. Foram 532 alfabetizados em 781, 68 por cento, número que a Secretaria da Agricultura fez questão de registrar no relatório.
Eles vinham de onze províncias. Okinawa, Kagoshima e Yamaguchi mandaram a maioria, e o resto se dividia entre Tóquio, Kumamoto, Fukushima, Ehime, Hiroshima, Kochi, Niigata e Yamanashi.
No Brás o grupo foi separado por destino. Seis fazendas de café tinham comprado aquela mão de obra, cada uma numa linha de trem diferente.
Dumont e Canaã ficavam na Mogiana, Guatapará e São Martinho na Paulista, Floresta na Ituana e Sobrado na Sorocabana. A Dumont, perto de Ribeirão Preto, levou o maior lote, cerca de 210 pessoas.
Numa das famílias embarcadas ia uma criança de um ano e oito meses. Tomi Nishimura, nascida em 15 de outubro de 1906, viajou com os pais, Mitsuji e Kiyo, e duas irmãs, e desceu o portaló no colo.
Ela virou Tomi Nakagawa, passou a vida em sítios e fazendas do interior e foi a última passageira viva do Kasato Maru. Completou 100 anos em outubro de 2006.
O acerto de contas com o café começou cedo. O salário prometido não fechava: pela conta dos próprios imigrantes o dia rendia oitocentos réis, e na Dumont uma família de três dificilmente juntava 1.500 réis por jornada.
As greves começaram em julho e apertaram em setembro. Em todas as seis fazendas houve saída de gente durante a noite, sem aviso ao administrador e sem acerto da dívida no armazém.
Sete meses depois do cais 14, restavam 359 nas fazendas originais, ou 439 contando os que foram remanejados para outras propriedades.
Mizuno voltou à mesa em novembro de 1908 e conseguiu do governo paulista mudanças no contrato. A leva seguinte veio com regra nova, e o texto passou a exigir família de verdade, sem grupo montado no papel.
O fluxo não parou por causa do estrago da primeira viagem. Nos sete primeiros anos entraram 3.434 famílias, e o 18 de junho virou o Dia Nacional da Imigração Japonesa, fixado pela Lei 11.142, de julho de 2005.
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