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Um lavrador de 23 anos saiu da mesa com o coração de outro homem.
Domingo, 26 de maio de 1968, madrugada, Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, São Paulo. O centro cirúrgico trabalhava com duas equipes ao mesmo tempo, uma sobre o doador e outra sobre o receptor.
O doador se chamava Luís Ferreira de Barros, alagoano, levado ao hospital depois de um atropelamento. Chegou com trauma de crânio, perda de massa encefálica pela ferida e traqueostomia.
A confirmação não ficou com quem ia operar. Um neurologista de fora do time atestou a morte encefálica com eletroencefalograma, e a família assinou a autorização.
Do outro lado esperava João Ferreira da Cunha, 23 anos, lavrador do Mato Grosso, internado com doença do miocárdio e insuficiência cardíaca em estágio sem retorno. A imprensa o rebatizou de João Boiadeiro, e foi esse o nome que ficou nos arquivos.
A operação mobilizou 41 pessoas. Zerbini comandou a parte cirúrgica, e o professor Luiz Venere Décourt respondeu pela clínica médica, o lado que decide se o paciente aguenta a mesa.
A equipe brasileira mudou um detalhe do roteiro sul-africano. Em vez de resfriar o coração doado, manteve o órgão em temperatura normal, irrigado por máquina de perfusão ligada a uma cânula na artéria inominada.
A cirurgia atravessou a madrugada e terminou às 7h53 da manhã. O coração novo bateu sozinho no peito do lavrador.
Abreu Sodré, governador de São Paulo, apareceu no Hospital das Clínicas ainda de madrugada. Na manhã seguinte a operação era manchete de primeira página no país inteiro, e O Globo publicou editorial de capa comparando Zerbini a Leonardo da Vinci.
O Brasil entrou na lista dos países que já tinham transplantado um coração humano seis meses depois da África do Sul, e sem uma única linha de lei que dissesse o que era a morte de um doador ligado ao respirador.
A lei chegou depois. Em 10 de agosto de 1968, 76 dias após a cirurgia, foi sancionada a Lei nº 5.479, que revogou a norma de 1963 e passou a exigir uma condição que o texto anterior não trazia.
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A retirada para os fins a que se refere o artigo anterior deverá ser precedida da prova incontestável da morte.
Art. 2º da Lei nº 5.479, de 10 de agosto de 1968, Coleção das Leis do Brasil
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Prova incontestável que a própria lei não definia. O texto exigia a certeza e deixava o critério com o médico, arranjo substituído por regra federal escrita quase trinta anos depois.
No pós-operatório, o problema voltou a ser biológico. João passou bem os primeiros dias e, a partir da segunda semana, começou a apresentar os sinais que a equipe temia: febre, queda de voltagem no eletrocardiograma, rejeição aguda em curso.
Nada do que existia em 1968 segurou a reação. A ciclosporina, o imunossupressor que virou a estatística dos transplantes do avesso, só entraria em uso clínico no começo dos anos 1980. João viveu 28 dias com o coração de Luís no peito.
A equipe voltou à mesa mais duas vezes, em 1968 e 1969. Um dos pacientes passou de um ano, o outro chegou a 60 dias. O programa parou em seguida, junto com quase todos os do mundo, e Zerbini só voltaria a transplantar em 1985.
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