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ED 009

Os 28 dias do coração de João Boiadeiro

26 de maio de 1968, madrugada de domingo no Hospital das Clínicas: a equipe de Zerbini fecha às 7h53 o peito de um lavrador com o coração de outro.

Centro cirúrgico do Hospital das Clínicas de São Paulo na madrugada de 26 de maio de 1968, durante o primeiro transplante de coração da América Latina.

Hospital das Clínicas, madrugada de 26 de maio de 1968

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Cidade do Cabo, 3 de dezembro de 1967. No Hospital Groote Schuur, a equipe de Christiaan Barnard costura no peito de Louis Washkansky, comerciante de 53 anos, o coração de uma jovem atropelada na véspera. O paciente acorda, conversa e come. Dezoito dias depois, uma pneumonia encerra a experiência.

Dezoito dias foram lidos como vitória. O coração transplantado bateu sozinho até o fim, e não foi ele que falhou.

A notícia deu a volta ao mundo em horas e abriu uma corrida. Ao longo de 1968, cerca de cem transplantes foram feitos em dezenas de hospitais, por equipes que até ali só tinham operado cães.

A técnica não era o obstáculo mais alto. Ligar os vasos de um coração ao peito de outra pessoa é problema de sutura e de circulação extracorpórea, resolvido em bancada desde os anos 1950.

O obstáculo era o sistema imunológico do receptor. O corpo reconhece o órgão novo como invasor e ataca. Em 1968, o arsenal contra essa reação se resumia a corticoide e a imunossupressores de largo espectro, que derrubavam a defesa inteira do paciente junto com a rejeição.

No Brasil havia ainda um obstáculo de papel. A norma em vigor era a Lei nº 4.280, de 6 de novembro de 1963, escrita para a retirada de tecidos de cadáver, e nenhuma linha dela explicava o que fazer com um doador cujo coração ainda batia porque uma máquina mantinha a respiração.

Morte encefálica não existia como conceito jurídico no país. O critério ficava com o médico à beira do leito, e cada equipe montava o próprio protocolo.

Em São Paulo, o professor Euryclides de Jesus Zerbini já tinha o centro cirúrgico, a bomba de circulação extracorpórea e uma equipe que vinha ensaiando o procedimento em cães. Faltavam dois telefonemas no mesmo intervalo de horas: o de um paciente sem outra saída e o de uma família disposta a assinar.

Na noite de 25 de maio de 1968, um sábado, os dois chegaram.

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I  O Episódio do Dia

A cirurgia que terminou às 7h53

Um lavrador de 23 anos saiu da mesa com o coração de outro homem.

Domingo, 26 de maio de 1968, madrugada, Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, São Paulo. O centro cirúrgico trabalhava com duas equipes ao mesmo tempo, uma sobre o doador e outra sobre o receptor.

O doador se chamava Luís Ferreira de Barros, alagoano, levado ao hospital depois de um atropelamento. Chegou com trauma de crânio, perda de massa encefálica pela ferida e traqueostomia.

A confirmação não ficou com quem ia operar. Um neurologista de fora do time atestou a morte encefálica com eletroencefalograma, e a família assinou a autorização.

Do outro lado esperava João Ferreira da Cunha, 23 anos, lavrador do Mato Grosso, internado com doença do miocárdio e insuficiência cardíaca em estágio sem retorno. A imprensa o rebatizou de João Boiadeiro, e foi esse o nome que ficou nos arquivos.

A operação mobilizou 41 pessoas. Zerbini comandou a parte cirúrgica, e o professor Luiz Venere Décourt respondeu pela clínica médica, o lado que decide se o paciente aguenta a mesa.

A equipe brasileira mudou um detalhe do roteiro sul-africano. Em vez de resfriar o coração doado, manteve o órgão em temperatura normal, irrigado por máquina de perfusão ligada a uma cânula na artéria inominada.

A cirurgia atravessou a madrugada e terminou às 7h53 da manhã. O coração novo bateu sozinho no peito do lavrador.

Abreu Sodré, governador de São Paulo, apareceu no Hospital das Clínicas ainda de madrugada. Na manhã seguinte a operação era manchete de primeira página no país inteiro, e O Globo publicou editorial de capa comparando Zerbini a Leonardo da Vinci.

O Brasil entrou na lista dos países que já tinham transplantado um coração humano seis meses depois da África do Sul, e sem uma única linha de lei que dissesse o que era a morte de um doador ligado ao respirador.

A lei chegou depois. Em 10 de agosto de 1968, 76 dias após a cirurgia, foi sancionada a Lei nº 5.479, que revogou a norma de 1963 e passou a exigir uma condição que o texto anterior não trazia.

A retirada para os fins a que se refere o artigo anterior deverá ser precedida da prova incontestável da morte.

Art. 2º da Lei nº 5.479, de 10 de agosto de 1968, Coleção das Leis do Brasil

Prova incontestável que a própria lei não definia. O texto exigia a certeza e deixava o critério com o médico, arranjo substituído por regra federal escrita quase trinta anos depois.

No pós-operatório, o problema voltou a ser biológico. João passou bem os primeiros dias e, a partir da segunda semana, começou a apresentar os sinais que a equipe temia: febre, queda de voltagem no eletrocardiograma, rejeição aguda em curso.

Nada do que existia em 1968 segurou a reação. A ciclosporina, o imunossupressor que virou a estatística dos transplantes do avesso, só entraria em uso clínico no começo dos anos 1980. João viveu 28 dias com o coração de Luís no peito.

A equipe voltou à mesa mais duas vezes, em 1968 e 1969. Um dos pacientes passou de um ano, o outro chegou a 60 dias. O programa parou em seguida, junto com quase todos os do mundo, e Zerbini só voltaria a transplantar em 1985.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

Do gabinete de Monroe ao berço de Irmã Dulce

O 26 de maio já tinha três marcas no calendário brasileiro antes de ganhar a quarta numa sala cirúrgica: o primeiro reconhecimento estrangeiro da independência, em 1824, o nascimento de uma freira baiana, em 1914, e o de um sanfoneiro paraibano, em 1930.

A camada mais antiga é diplomática. Em 26 de maio de 1824, o presidente James Monroe recebeu em Washington José Silvestre Rebello, primeiro representante diplomático brasileiro nos Estados Unidos, encarregado de negociar o reconhecimento do país que tinha rompido com Lisboa dois anos antes.

A historiografia tradicional trata a audiência como o primeiro reconhecimento da independência brasileira por outra nação. O arquivo complica a conta: as Províncias Unidas do Rio da Prata já tinham reconhecido o Brasil como país livre e monárquico em 25 de junho de 1823.

Lisboa levou mais tempo. Portugal só reconheceu a independência em 29 de agosto de 1825, por tratado mediado pela Inglaterra, e cobrou dois milhões de libras esterlinas para assinar.

Rebello ficou no posto até 1829, e a correspondência dele está digitalizada no acervo do Itamaraty, ofício por ofício.

A segunda camada nasceu em Salvador. Em 26 de maio de 1914 nascia Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes, que entrou para a vida religiosa como Irmã Dulce e passou a recolher na cidade doentes sem atendimento.

O começo do hospital dela foi um galinheiro. Em 1949, ela acomodou os primeiros pacientes no galinheiro do Convento Santo Antônio, e daquele improviso saiu o Hospital Santo Antônio, núcleo das Obras Sociais Irmã Dulce.

O reconhecimento veio muito depois. Em 13 de outubro de 2019, o papa Francisco a canonizou em Roma como Santa Dulce dos Pobres, a primeira santa nascida no Brasil.

A terceira camada é musical. Em 26 de maio de 1930 nascia em Itabaiana, na Paraíba, Severino Dias de Oliveira, o Sivuca, sanfoneiro que levou o forró para dentro do jazz e gravou ao lado de Miriam Makeba e Harry Belafonte.

A camada mais recente é esportiva. Em 26 de maio de 1993, no Morumbi, o São Paulo venceu a Universidad Católica e ficou com o bicampeonato da Libertadores.

Nenhuma dessas datas foi escolhida a dedo. Cada uma caiu no dia 26 por acaso de agenda diplomática, de parto e de calendário de futebol. A de 1968 caiu por causa de um atropelamento na véspera, o único evento da lista que nenhum organizador podia marcar.

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III  O Documento na Íntegra

Onde a madrugada de 1968 está arquivada

O episódio se confere em cinco balcões: a hemeroteca da Biblioteca Nacional, os acervos digitais dos jornais que cobriram a madrugada, o museu da própria faculdade, a literatura científica e a coleção de leis federais. Todos estão digitalizados e abertos.

Nos jornais: em memoria.bn.br, a Hemeroteca Digital Brasileira, abra Correio da Manhã, Jornal do Brasil, Última Hora e Diário de Notícias nas edições de 27 e 28 de maio de 1968. A operação sai em manchete de primeira página.

No acervo de O Globo: acervo.oglobo.globo.com guarda o editorial de capa que comparou Zerbini a Leonardo da Vinci.

No acervo paulistano: acervo.folha.com.br cobre os 28 dias em série, com a rotina de boletins do Hospital das Clínicas em linguagem de época.

No museu da faculdade: o Museu Histórico Prof. Carlos da Silva Lacaz, da FMUSP, guarda o acervo ligado à operação, incluindo a estatueta comemorativa. O museu virtual está em fm.usp.br/museu.

Na revista científica: a Brazilian Journal of Cardiovascular Surgery, aberta em scielo.br/j/rbccv, publicou em 2024 a revisão de Noedir Antonio Groppo Stolf sobre os 55 anos da operação.

Na lei: o portal Legin, da Câmara dos Deputados, tem o texto original da Lei nº 5.479, de 10 de agosto de 1968, e o da Lei nº 4.280, de 6 de novembro de 1963, que ela revogou.

Na divergência: o nome do doador aparece como Luís Ferreira de Barros e como Luís Fernando de Barros. A posição da cirurgia na fila mundial sai como 17ª em umas fontes e como 5ª em outras. A data do desfecho do receptor oscila entre 22 e 23 de junho de 1968.

Na grafia: jornal de 1968 usa a ortografia anterior à reforma de 1971 e escreve idéia, sòmente e êle. Buscar só com a grafia de hoje devolve página vazia na hemeroteca.

Ao baixar qualquer página, anote o periódico, a data da edição e o número da página. Sem os três dados, a citação vira boato.

Vale separar o que a documentação fecha e o que ela deixa em aberto. Fecha a data, o hospital, quem chefiou a equipe, o horário em que a cirurgia terminou, a sobrevida de 28 dias e a causa do desfecho.

Fica em aberto a hora exata em que a operação começou. Os relatos concordam que ela atravessou a madrugada, sem registro do minuto da primeira incisão.

Fica em aberto o esquema de imunossupressão do pós-operatório. As doses não aparecem descritas em fonte pública em português.

O tamanho da equipe tem sorte melhor. Quarenta e uma pessoas é a conta que a literatura da faculdade repete.

Duas datas resumem o descompasso do episódio: a cirurgia aconteceu em 26 de maio de 1968 e a lei que passou a exigir prova incontestável da morte só foi assinada 76 dias depois.

"Uma cirurgia pode chegar antes da lei que a autoriza, ou a lei é que deveria ter chegado primeiro?"

 
 
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COperou sem circulação extracorpórea
DDispensou a autorização da família do doador
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