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ED 006

Os 23 minutos da Baroneza até a Raiz da Serra

30 de abril de 1854, manhã de domingo no porto de Mauá: a primeira viagem de trem do Brasil sai do cais com Dom Pedro II a bordo.

Locomotiva a vapor parada junto ao cais do porto de Mauá, no fundo da baía de Guanabara, na manhã de 30 de abril de 1854.

Porto de Mauá, 30 de abril de 1854

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Vale do Paraíba, começo dos anos 1850. O café que pagava a maior parte da receita do Império descia a serra em lombo de mula, em tropas que gastavam dias entre a porteira da fazenda e o fundo da baía de Guanabara.

Cada arroba chegava ao Rio depois de três fretes somados: o tropeiro que puxava a carga, o pedágio do caminho e o barco que cruzava a baía até o cais da capital. O custo de transporte comia a margem antes de o produto sair do país.

O gargalo tinha altitude. Entre a planície do fundo da baía e o alto da Serra da Estrela havia uma rampa que trilho nenhum da época vencia por aderência simples, e era por ali que passava a ligação com Petrópolis e com o interior fluminense.

A engenharia dependia de dinheiro, e o dinheiro dependia de garantia. Em 26 de junho de 1852, o Decreto nº 641 autorizou o governo a conceder privilégio de construção, isentar de direitos o material importado e garantir juros anuais sobre o capital de quem levantasse estrada de ferro.

Irineu Evangelista de Sousa pegou a concessão e organizou a Imperial Companhia de Navegação a Vapor e Estrada de Ferro de Petrópolis. O projeto era modesto de propósito: trilho só no plano, vapor na travessia da baía e estrada de rodagem na subida.

O traçado saía do porto de Mauá, em Guia de Pacobaíba, e ia até a Raiz da Serra, com parada intermediária em Fragoso. Quatorze quilômetros e meio de terreno plano, o pedaço mais barato de todo o percurso entre a fazenda de café e o navio.

As máquinas vieram de Manchester, encomendadas à William Fairbairn & Sons e assentadas sobre uma bitola de 1,68 metro, mais larga que qualquer medida que o país fosse adotar depois.

Faltava medir. Nenhum trem tinha rodado em solo brasileiro até então, e o relógio da primeira viagem viraria a régua de comparação com a tropa que fazia o mesmo trajeto no passo do animal.

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I  O Episódio do Dia

A manhã de domingo no porto de Mauá

Uma máquina inglesa de bitola larga encurtou para minutos o trecho que a tropa levava horas para vencer.

Domingo, 30 de abril de 1854, porto de Mauá, no fundo da baía de Guanabara. Dom Pedro II desembarca do vapor que cruzou a baía desde o Rio e caminha até a composição parada junto ao cais.

A locomotiva se chamava Baroneza, homenagem à mulher do concessionário, e tinha saído das oficinas de William Fairbairn & Sons, em Manchester, dois anos antes. Era pequena para o padrão de hoje e imponente para quem só conhecia tropa de burro.

O trem partiu do cais e tomou o traçado plano rumo ao interior, com parada em Fragoso. No outro extremo da linha estava a Raiz da Serra, onde a planície acaba e começa a subida para Petrópolis.

A viagem cobriu 14,5 quilômetros em 23 minutos, pouco menos de 38 quilômetros por hora de média. A tropa gastava horas no mesmo trecho, e gastava bem mais quando a chuva desmanchava o piso do caminho.

O número não impressionava a Inglaterra, que já tinha trilho havia quase trinta anos. Impressionava o Brasil, onde a promessa de estrada de ferro estava escrita em lei desde a Regência e nunca tinha saído do papel.

Fica o Governo autorizado a conceder a uma ou mais companhias que se organizarem o privilégio exclusivo, por espaço de quarenta anos, para fazerem uma estrada de ferro que da capital do Império se dirija às de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Bahia.

Artigo 1º da Lei nº 101, de 31 de outubro de 1835, Coleção das Leis do Império do Brasil

A lei de 1835 oferecia monopólio de quarenta anos e não oferecia um único réis. Sem garantia de rendimento, grupo nenhum se apresentou, e a oferta ficou dezenove anos aberta sem interessado.

A primeira ferrovia do país nasceu curta por cálculo: 14,5 quilômetros de planície entre um cais e o pé de uma serra, exatamente o trecho que a engenharia da época entregava rápido e barato.

Na Raiz da Serra o trem parou onde a estrada de rodagem assumia. Quem seguia para Petrópolis trocava o vagão pela carruagem e enfrentava a rampa no ritmo antigo, com o trilho olhando a subida de baixo.

O arranjo funcionava como elo de uma corrente maior. Vapor da capital até o porto, trilho até a Raiz da Serra, estrada na subida e de novo tropa no planalto até as fazendas do vale.

Cada elo tinha custo próprio, e o trilho era o mais barato dos quatro. A partir daquela manhã o Império passou a ter um dado concreto para comparar, e a comparação pesou em toda concessão discutida depois.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

A bitola órfã e a rede que veio depois

Quatro anos depois da Baroneza, o Império abriu duas ferrovias em menos de dois meses: a Estrada de Ferro Recife ao São Francisco, em 8 de fevereiro de 1858, e o primeiro trecho da Estrada de Ferro Dom Pedro II, em 29 de março de 1858.

A segunda dessas linhas definiu o padrão técnico do país. A Dom Pedro II assentou bitola de 1,60 metro, medida que virou referência da rede larga, enquanto o interior se cobriu de bitola de um metro, mais barata de construir em terreno acidentado.

A linha de Mauá ficou fora das duas contas. Com 1,68 metro entre os trilhos, o material rodante dela não circulava em nenhuma outra estrada, e toda carga que passasse de uma rede para a outra precisava ser descarregada e recarregada.

A subida da serra, motivo original do projeto, esperou quase trinta anos. Só em 1883 a Estrada de Ferro Príncipe do Grão-Pará ligou a Raiz da Serra a Petrópolis, com trecho de cremalheira para vencer a rampa que a aderência simples não segurava.

A ferrovia que abriu o país nunca chegou aonde queria chegar: os 14,5 quilômetros pararam no pé da serra, e quem terminou a subida, três décadas depois, foi outra companhia.

O dono da linha seguiu construindo em outras frentes. Em 1854, o mesmo ano da Baroneza, a companhia de iluminação a gás dele acendeu os lampiões do Rio, e nos anos seguintes vieram estaleiro, banco e o cabo submarino que ligou o Brasil à Europa em 1874.

O título veio junto. Irineu Evangelista de Sousa foi feito barão de Mauá no ano da inauguração e visconde em 1874, no auge de um grupo que operava banco, navegação, estaleiro e telégrafo ao mesmo tempo.

A queda foi igualmente pública. A casa bancária quebrou em 1875 e, em 1878, ele publicou a Exposição aos credores e ao público, balanço escrito em primeira pessoa sobre o que tinha construído e sobre o que tinha perdido.

A rede que ele começou não parou junto. O país fechou o período imperial com perto de dez mil quilômetros de trilho assentado, quase todos voltados para levar café e açúcar do interior até um porto de exportação.

A linha inaugural virou patrimônio. A locomotiva Baroneza sobreviveu, restaurada, no acervo ferroviário do Rio de Janeiro, e o prédio da estação de Guia de Pacobaíba continua de pé em Magé, no ponto onde o trilho encontrava o cais.

Sobra do episódio um contraste de medida. O trecho de 1854 tem a extensão de uma corrida urbana curta, e foi ele que colocou o Brasil na lista dos países com estrada de ferro em tráfego regular.

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III  O Documento na Íntegra

Onde conferir a viagem de 1854

O episódio se confere em três balcões: a legislação do Império, a imprensa da corte e os relatórios da província do Rio de Janeiro. Os três estão digitalizados e abertos, e nenhum deles cobra credencial de pesquisador.

Na lei: procure a Coleção das Leis do Império do Brasil no acervo digital da Câmara dos Deputados. Os dois textos que interessam são a Lei nº 101, de 31 de outubro de 1835, e o Decreto nº 641, de 26 de junho de 1852, o que criou a garantia de juros.

Nos jornais: em memoria.bn.br, a Hemeroteca Digital Brasileira, abra o Jornal do Commercio, o Correio Mercantil e o Diario do Rio de Janeiro dos dias 1 e 2 de maio de 1854. A cobertura da inauguração sai nas primeiras páginas.

Nos relatórios: as falas do trono e os relatórios dos presidentes da província do Rio de Janeiro trazem o andamento da obra ano a ano. A coleção digitalizada de relatórios provinciais está aberta em brazil.crl.edu.

No arquivo: o Arquivo Nacional guarda documentação de companhias e concessões do período, e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro tem correspondência e impressos ligados ao grupo de Mauá.

Na grafia: papel de 1854 escreve caminho de ferro tanto quanto estrada de ferro, grafa Baroneza com z, Commercio com dois emes e Petropolis sem acento. Buscar com a grafia de hoje devolve página vazia.

Na medida: parte das fontes arredonda o trecho para 15 quilômetros e parte fixa 14,5. A diferença depende de onde a conta começa, no cais ou na plataforma da estação, e a planta da linha resolve a dúvida.

Na bibliografia: Alberto de Faria, em Mauá: Ireneu Evangelista de Souza, Barão e Visconde de Mauá (1926), reúne documentos da companhia. Jorge Caldeira, em Mauá: Empresário do Império (1995), reconstrói a operação financeira por trás da obra.

Ao salvar a imagem de qualquer página, registre junto o título do periódico, a data e o número da página. Com os três dados, outra pessoa refaz o caminho até o mesmo documento sem depender da sua palavra.

Vale separar o que a documentação fecha e o que ela deixa em aberto. Fecha a data da inauguração, a extensão do trecho, o nome da máquina e a companhia responsável pelo tráfego.

Fica em aberto o cronômetro. Os 23 minutos aparecem na imprensa da época e viraram número oficial, sem registro de quem segurou o relógio nem de onde a contagem começava e terminava.

O título de primeira também depende de critério. Antes de 1854 houve trilho de serviço dentro de obra e projeto no papel em várias províncias, e a linha de Mauá ocupa o primeiro lugar por um teste estreito: concessão pública, locomotiva a vapor e tráfego regular com bilhete vendido.

A primeira viagem de trem do Brasil cabe em dois números que qualquer pessoa confere hoje: 14,5 quilômetros de trilho e 23 minutos de relógio.

"Qual papel você abriria primeiro, o decreto que garantiu os juros ou o jornal que contou a manhã?"

 
 
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Que bitola a primeira ferrovia do Brasil assentou entre os trilhos, medida que ficou órfã na rede do país?

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