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ED 050

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O VLS-1 e a torre de Alcântara em 22 de agosto de 2003

Maranhão, 2003: três dias antes do lançamento, um motor do foguete acende sozinho na plataforma e a torre de montagem vira fogo.

Torre de aço de lançamento em chamas numa plataforma à beira-mar, com fumaça escura subindo.

Alcântara, 2003: a torre do VLS-1 em chamas

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A Folha de S.Paulo publicou em 23/8/2003, na primeira página, a manchete "Explosão de foguete mata 21 em Alcântara". A notícia vinha do litoral norte do Maranhão, de uma península plana a cerca de 30 quilômetros de São Luís, atravessando a baía de São Marcos.

Ali fica o Centro de Lançamento de Alcântara, o CLA, base da Força Aérea Brasileira inaugurada em 1983. A escolha do lugar tinha conta: Alcântara está a pouco mais de 2 graus da linha do Equador, e um foguete lançado perto dela aproveita mais a velocidade de giro da Terra e gasta menos combustível para chegar à órbita.

O foguete da vez era o VLS-1 (Veículo Lançador de Satélites), projetado pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço, o IAE, em São José dos Campos, no interior paulista. Tinha 19 metros de altura e quatro estágios movidos a propelente sólido (combustível compactado em blocos, que depois de aceso queima sem poder ser desligado).

O Brasil já tinha tentado duas vezes. Em 2/11/1997, o primeiro VLS-1 saiu da plataforma com um dos motores apagado e foi destruído por comando da base segundos depois. Em 11/12/1999, o segundo subiu e perdeu o segundo estágio no ar.

A terceira tentativa, chamada V03, levaria dois pequenos satélites: o SATEC, feito pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, e o UNOSAT, construído por estudantes da Universidade Norte do Paraná. O lançamento estava marcado para 25/8/2003.

Na sexta-feira, 22/8/2003, o foguete estava de pé na plataforma, abraçado pela torre móvel de integração, a estrutura de aço de dez andares onde os técnicos montam e testam o veículo antes do voo. Havia gente trabalhando nos andares da torre, ligando cabos e conferindo os motores.

A seção I conta o que aconteceu na plataforma no começo daquela tarde, quem estava na torre e o que o fogo deixou de pé.

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I  O Episódio do Dia

Os 21 técnicos nos andares da torre

Uma faísca sem dono bastou para derrubar a torre de Alcântara.

Alcântara, Maranhão, sexta-feira, 22/8/2003, por volta das 13h30. O VLS-1 V03, terceiro protótipo do foguete lançador brasileiro, estava montado na plataforma do Centro de Lançamento de Alcântara, com os quatro motores do primeiro estágio já carregados de propelente.

A equipe fazia os preparativos finais da campanha. Na torre móvel de integração, técnicos e engenheiros do Centro Técnico Aeroespacial, o CTA, trabalhavam em vários andares, conectando sistemas elétricos e conferindo o foguete para a contagem regressiva.

Sem nenhum comando da sala de controle, um dos quatro motores do primeiro estágio entrou em ignição. O propelente sólido começou a queimar dentro da torre, com o foguete preso à estrutura.

Quem estava fora da torre ouviu o chiado do propelente antes do estrondo. Funcionários que trabalhavam nos prédios vizinhos da base correram para longe da plataforma, e as equipes de emergência do CLA só conseguiram chegar perto quando o fogo baixou.

O fogo passou para os outros motores em segundos. O calor e a explosão derrubaram a torre de aço sobre a plataforma, e a fumaça subiu em coluna, visível de longe na península.

Os 21 homens que estavam na torre perderam a vida no local. Eram técnicos e engenheiros civis do CTA e do IAE, a maioria com família em São José dos Campos, gente que tinha passado anos montando o programa do foguete nacional.

Nenhum dos 21 estava ali por descuido: a torre é o lugar de trabalho do técnico na véspera do voo, e o foguete acendeu justo no andar onde a equipe fazia o serviço.

Os corpos foram levados de avião para São José dos Campos. O velório coletivo aconteceu no ginásio do CTA, com as famílias e colegas diante de 21 caixões fechados, e o governo federal decretou luto oficial de três dias.

Os dois satélites que iriam no voo, o SATEC e o UNOSAT, foram destruídos com o foguete. A torre móvel virou uma massa de ferro retorcido, e a plataforma ficou sem uso por anos.

Em Alcântara, a cidade histórica vizinha à base, moradores contaram aos repórteres que sentiram o chão tremer e viram a nuvem escura sobre a península. A notícia chegou às famílias em São José dos Campos pelo rádio e pela televisão, ainda sem a lista oficial dos mortos.

O Ministério da Defesa e o Comando da Aeronáutica abriram uma comissão de investigação no mesmo fim de semana. A pergunta que ela tinha de responder era direta: o que fez um motor acender sem ordem de ninguém.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

A faísca que o relatório não achou

Em 2004, a comissão de investigação entregou o relatório final ao Ministério da Defesa. O documento confirmou a ignição prematura (o acendimento antes da hora) de um dos quatro motores do primeiro estágio como a causa da explosão.

A sequência dos fatos, pelo relatório da comissão de 2004 e pelos registros do CLA:

·  2/11/1997: o VLS-1 V01 decola de Alcântara com um motor apagado e é destruído por comando da base
·  11/12/1999: o VLS-1 V02 falha no segundo estágio durante o voo
·  22/8/2003: um motor do VLS-1 V03 acende sozinho na plataforma, a torre desaba e 21 técnicos perdem a vida
·  25/8/2003: data prevista para o lançamento, cancelado com a destruição do foguete
·  18/12/2003: a Lei 10.821 concede pensão especial aos dependentes das vítimas
·  2004: o relatório final aponta a ignição prematura e descreve falhas de segurança na operação

O relatório não encontrou a fonte exata do acendimento. A hipótese mais provável descrita pela comissão foi uma descarga elétrica, como a eletricidade estática acumulada no corpo de uma pessoa ou num equipamento, chegando ao dispositivo que acende o motor.

O motivo de a causa ficar sem prova definitiva está nos próprios destroços. O fogo consumiu os circuitos, os cabos e os iniciadores do motor, e sem essas peças a comissão não pôde reconstituir o caminho da faísca.

O documento também registrou problemas de organização. Apontou equipe reduzida para o volume de tarefas, pressão de prazo na campanha, falta de procedimentos escritos para parte das operações na torre e perda de pessoal experiente no programa durante os anos anteriores.

Entre as recomendações, a comissão pediu revisão completa dos procedimentos de montagem, controle rigoroso de aterramento (a ligação elétrica que escoa a eletricidade estática para o solo) de pessoas e equipamentos na torre e recomposição das equipes técnicas do IAE.

A resposta do governo veio em lei. A Lei 10.821, de 18/12/2003, garantiu pensão especial mensal aos dependentes dos 21 mortos, paga pela União.

A reconstrução levou quase uma década. A nova torre móvel de integração só ficou pronta em 2012, e o programa do VLS-1 foi encerrado pela Agência Espacial Brasileira em 2016, sem nenhum voo orbital bem-sucedido.

 

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III  O Documento na Íntegra

O relatório da comissão e a Lei 10.821

O episódio se confere em quatro balcões: o Ministério da Defesa, o Diário Oficial da União, a Agência Espacial Brasileira e o acervo digital dos jornais.

No relatório da comissão de investigação de 2004: está a reconstituição técnica do acidente, com a descrição da ignição prematura, a hipótese da descarga elétrica, as falhas de procedimento e as recomendações de segurança para as campanhas seguintes.

No Diário Oficial da União: está a Lei 10.821, de 18/12/2003, que concedeu pensão especial aos dependentes das vítimas do acidente de Alcântara, com o valor e as regras de pagamento.

Na Agência Espacial Brasileira: ficam os registros do programa do VLS-1, a decisão de encerramento de 2016 e as informações sobre as campanhas posteriores no Centro de Lançamento de Alcântara.

No acervo da Folha de S.Paulo e na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional: estão as edições de 23 a 30/8/2003, com as fotografias da torre derrubada, do velório no ginásio do CTA e da chegada das famílias.

Na divergência: a comissão tratou a descarga elétrica como hipótese mais provável, sem prova material. Parentes das vítimas e colegas do CTA sustentaram em entrevistas que a causa de fundo foi a falta de verba e de gente no programa, e esse ponto nunca foi julgado em tribunal.

A Justiça não chegou a condenar ninguém pelo acidente. O caso foi tratado como acidente de trabalho em serviço público, e os processos movidos por famílias trataram de indenização, com decisões diferentes conforme o tribunal e o ano.

No CLA, um memorial com os 21 nomes foi erguido perto da plataforma. Em São José dos Campos, o DCTA, nome atual do antigo CTA, mantém a homenagem aos técnicos e realiza cerimônia todo 22 de agosto.

A documentação fecha a data, a hora aproximada, o número de vítimas, a causa imediata e a lei das pensões. Fica em aberto a origem da faísca, porque o fogo destruiu as peças que poderiam provar de onde ela veio.

Um motor que acendeu sozinho, uma torre de aço no chão e 21 famílias em São José dos Campos. O que sustenta o episódio é o relatório da comissão de 2004, a Lei 10.821 de 2003 e os jornais de agosto daquele ano.

"Quanto de um programa espacial cabe nos andares de uma única torre?"

A cerimônia anual segue a cargo do DCTA, que divulga a data no site oficial. Marque 22/8/2028, quando o acidente completa 25 anos, e reconfira na página do DCTA e no texto da Lei 10.821 no Planalto os dados das homenagens e o valor atualizado das pensões antes de citar o caso.

 
 
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Segundo o relatório de 2004, o que causou a explosão do VLS-1 na plataforma de Alcântara em 22/8/2003?

AUm curto-circuito identificado nos cabos elétricos da torre
BA ignição prematura de um dos quatro motores do primeiro estágio, sem comando da sala de controle
CUm comando de autodestruição disparado pela base após falha no lançamento
DA queda acidental da torre móvel sobre o foguete já carregado de propelente

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