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O terremoto de João Câmara e a cidade que dormiu na rua
30 de novembro de 1986, Rio Grande do Norte: depois de meses de tremores, um abalo de 5,1 racha as casas e o povo muda para barracas.
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João Câmara, 1986: barracas na rua
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O Jornal do Brasil de 1º de dezembro de 1986 abriu o assunto com a frase "Terremoto abala o interior do Rio Grande do Norte". A notícia vinha de João Câmara, cidade do agreste potiguar a cerca de 80 quilômetros de Natal, onde o chão tremia fazia meses.
Os moradores já conheciam o som antes do susto. Desde agosto de 1986 a terra dava estalos secos, parecidos com tiro de espingarda ou com porta batendo, e logo depois vinha a sacudida curta nas prateleiras, nos potes de barro e nas telhas.
Nas primeiras semanas, a explicação corria de boca em boca. Havia quem falasse em explosão de pedreira, em castigo do céu, em poço de petróleo aberto pela Petrobras na região. A prefeitura não tinha a quem perguntar, porque o Brasil quase não mantinha estação sismográfica no Nordeste.
Os tremores não pararam. Vieram às dezenas por dia em certas semanas, alguns sentidos só por quem estava deitado, outros fortes o bastante para derrubar reboco. A feira continuou, a escola continuou, mas a cidade passou a dormir de ouvido atento.
Foi aí que os sismólogos chegaram. Equipes do Observatório Sismológico da Universidade de Brasília, a UnB, e da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a UFRN, instalaram sismógrafos (aparelhos que registram a vibração do solo) em sítios e fazendas ao redor da cidade para localizar a origem dos abalos.
O diagnóstico saiu dos registros: João Câmara vivia um enxame sísmico, nome técnico para uma sequência longa de tremores pequenos e médios concentrados numa mesma área, sem um abalo único e isolado. O enxame avisava que a rocha embaixo da cidade estava em movimento.
A seção adiante reconstrói o domingo de 30 de novembro de 1986: a hora do abalo maior, as paredes que racharam, as barracas armadas nas ruas e a fratura na rocha que os cientistas encontraram debaixo do município.
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I O Episódio do Dia
O domingo em que as paredes de taipa racharam
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Um domingo de tremor bastou para tirar uma cidade inteira de dentro de casa.
João Câmara, Rio Grande do Norte, 30 de novembro de 1986. O terremoto de João Câmara, o abalo maior do enxame que sacudia a cidade desde agosto, atingiu magnitude 5,1 na escala registrada pelo Observatório Sismológico da UnB, que monitorava a área com a UFRN.
A magnitude mede a energia liberada na origem do tremor, e cada ponto a mais na escala corresponde a cerca de 32 vezes mais energia. Um abalo de 5,1 é moderado pelo padrão mundial, mas raro para o Brasil, que fica no interior da placa sul-americana, longe das bordas onde as placas se chocam.
O epicentro (o ponto da superfície logo acima da origem do tremor) ficou a poucos quilômetros da zona urbana, e a origem estava rasa, a poucos quilômetros de profundidade. Tremor raso perto de casa espalha a sacudida com força pelas construções.
As casas de João Câmara eram, em boa parte, de taipa (parede de barro socado sobre armação de madeira) ou de tijolo sem estrutura de concreto. Paredes desse tipo não flexionam: racham em diagonal, soltam o reboco e, nos casos piores, deixam a cumeeira cair.
Os relatórios da Defesa Civil do Rio Grande do Norte registraram milhares de imóveis danificados na cidade e em povoados vizinhos, com rachaduras em igrejas, escolas e no prédio da prefeitura. Não houve registro oficial de vítima fatal do abalo principal.
O medo fez o resto. Com a terra seguindo em réplicas (os tremores menores que vêm depois do maior), os moradores tiraram colchão, rede e fogareiro para a calçada e passaram a dormir ao relento, longe das paredes que ainda podiam cair.
O governo federal mandou o Exército. Soldados montaram barracas de lona nas ruas e nas praças, e a cidade virou um acampamento: famílias inteiras cozinhando na porta de casa, crianças dormindo sob lona e a rotina da feira seguindo entre as tendas.
O terremoto de João Câmara provou que o Brasil treme: um abalo de 5,1 numa falha rasa do agreste potiguar bastou para rachar milhares de casas e pôr uma cidade inteira para dormir na rua.
O que o domingo mexeu, pela leitura dos órgãos oficiais e da imprensa da época:
| · A moradia, com casas de taipa e tijolo rachadas, reboco no chão e famílias sem condição de voltar para dentro | | · A rotina da cidade, com noites passadas em barracas do Exército e aulas deslocadas para espaços abertos | | · A população, com moradores de posses saindo para Natal e para cidades próximas até os tremores diminuírem | | · A ciência brasileira, que ganhou o caso mais bem estudado de sismicidade intraplaca do país, aquela que acontece longe das bordas de placa |
O governo estadual abriu crédito e programa de reconstrução com casas de estrutura reforçada, e os sismógrafos ficaram na região: os cientistas queriam saber de onde vinha a energia que não parava de sair do chão.
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II Neste Dia no Brasil
De 1986 a 1989, a falha que ganhou nome
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A rota do episódio se acompanha pelos boletins do Observatório Sismológico da UnB, pelos trabalhos do Laboratório de Sismologia da UFRN e pelos catálogos do Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo, a USP. |
A sequência dos fatos, pela documentação disponível:
| · Agosto de 1986: começam os estalos e os tremores pequenos em João Câmara, sentidos pela população e ainda sem registro instrumental local | | · Fim de 1986: equipes da UnB e da UFRN instalam sismógrafos no entorno da cidade e passam a registrar os abalos um a um | | · 30 de novembro de 1986: o abalo de magnitude 5,1 racha as casas, a população vai para a rua e o Exército monta barracas | | · Dezembro de 1986 a 1988: as réplicas continuam, em ritmo menor, e a rede de estações mapeia os focos em profundidade | | · 10 de março de 1989: um segundo abalo forte, de magnitude 5,0 pelos registros da UnB, volta a sacudir a região e a derrubar reboco | | · Anos 1990: a sismicidade diminui, e os estudos publicados consolidam o desenho da falha que produziu os tremores |
O desenho que saiu dos sismógrafos foi a falha Samambaia, uma fratura antiga na rocha do embasamento com cerca de 30 quilômetros de extensão, segundo o mapeamento publicado pela equipe da UFRN e da UnB no fim dos anos 1980.
A falha corre na direção nordeste e desce quase vertical pela crosta. Os pontos de origem dos tremores, marcados um a um no mapa, alinharam-se sobre ela como contas de um colar, e foi esse alinhamento que deu à fratura um endereço e um nome.
A explicação física ficou assim: a placa sul-americana é empurrada pela abertura do oceano Atlântico e acumula tensão no interior. Onde a rocha já tem uma fratura antiga, a tensão se descarrega, e a falha Samambaia foi um desses pontos de alívio.
O que o enxame deixou registrado, verificável em boletim, artigo científico e imprensa:
| · A primeira falha sísmica ativa mapeada em detalhe no interior do Brasil, com extensão, direção e profundidade medidas | | · A expansão da rede de estações sismográficas no Nordeste, que passou a ter monitoramento permanente | | · A revisão das normas de construção na região, com casas de estrutura reforçada no programa de reconstrução | | · Um acervo de fotografias de barracas, paredes rachadas e registros de sismógrafo que sustenta a pesquisa acadêmica sobre o caso |
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