|
O castigo foi contado em voz alta diante da guarnição inteira.
Segunda-feira, 21 de novembro de 1910, Baía de Guanabara. O marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes é levado ao convés do Minas Geraes para receber castigo diante da guarnição formada.
O regulamento admitia vinte e cinco golpes. O castigo aplicado naquela tarde passou de duzentos, contado em voz alta por um oficial enquanto o corpo era amarrado.
O episódio não criou a revolta. Ele acionou um plano que já existia havia meses, discutido em terra, em pensão de marinheiro e em roda de conversa no cais.
Vinte e quatro horas depois, na madrugada de 22 de novembro, os marinheiros ocuparam o Minas Geraes. Em poucas horas o São Paulo, o cruzador Bahia e o encouraçado Deodoro estavam nas mãos das tripulações.
A tomada não foi limpa. Houve confronto nas primeiras horas, com baixas entre oficiais e entre praças, e parte da oficialidade foi posta em escaler e mandada para terra.
O que aconteceu em seguida é o que separa este caso de um motim comum. Os revoltosos não abandonaram os navios nem tentaram fugir para o mar aberto.
Eles mantiveram as caldeiras acesas, organizaram turno de vigia, içaram bandeira brasileira e formaram um conselho. À frente ficou o timoneiro João Cândido Felisberto, gaúcho do Rio Grande, com dez anos de serviço.
Os canhões das torres foram girados na direção da cidade. Do fundeadouro, o Palácio do Catete, o Arsenal de Marinha e o centro do Rio estavam dentro do alcance de tiro.
Com a cidade sob mira, o conselho fez a coisa menos previsível de todas: sentou e redigiu um documento.
O texto foi transmitido ao presidente Hermes da Fonseca, marechal empossado havia quinze dias. Não pedia dinheiro, não pedia posto e não propunha derrubar governo nenhum.
|
Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podemos mais suportar a escravidão na Marinha do Brasil.
Telegrama do conselho dos revoltosos ao presidente da República, 22 de novembro de 1910, reproduzido pela imprensa do Rio de Janeiro
|
O documento exigia o fim do castigo corporal, revisão da disciplina e anistia aos envolvidos, e dava ao governo um prazo em horas para responder.
O Congresso Nacional foi convocado e discutiu o caso em sessão extraordinária, com a esquadra apontada para o próprio prédio em que a discussão acontecia.
Em 25 de novembro o Congresso aprovou a anistia aos revoltosos. No mesmo dia saiu o decreto que abolia o castigo corporal na Armada, numerado e publicado.
Os marinheiros devolveram os navios em 26 de novembro. A revolta durou quatro dias e alcançou o objetivo declarado no papel.
A parte que o papel não protegeu veio depois. Nas semanas seguintes o governo promoveu expurgo nas tripulações, e uma segunda revolta, em dezembro, foi usada como pretexto para prender centenas de homens.
Parte dos presos foi enviada para trabalho forçado na Amazônia. João Cândido sobreviveu ao confinamento na Ilha das Cobras, foi julgado e absolvido em 1912, e passou o resto da vida vendendo peixe no mercado, sem nunca voltar à Marinha.
|