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O teatro que a borracha ergueu em Manaus

31 de dezembro de 1896, Manaus: o Teatro Amazonas abre depois de quinze anos de obra, com ferro de Glasgow e telhas vindas da Alsácia.

Teatro Amazonas, na Praça São Sebastião, em Manaus, aberto ao público em 31 de dezembro de 1896 depois de quinze anos de obra paga pela economia da borracha.

Manaus, 1896: a casa de ópera do rio

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"Teatro Amazonas, em Manaus", escreveu o então SPHAN, hoje IPHAN, na inscrição do Livro do Tombo das Belas Artes em 1966, setenta anos depois da noite de estreia. A frase de cartório é seca, e mesmo assim ela guarda o que sobrou de um prédio que nasceu no meio de um ciclo econômico e sobreviveu ao fim dele.

O prédio fica em Manaus, capital de um estado que em 1896 vivia da extração de látex na floresta ao redor. A cidade tinha bonde elétrico, luz pública e um porto flutuante encomendado a firma inglesa, e o dinheiro que pagava tudo saía do mesmo lugar: a seringueira nativa da bacia amazônica.

A obra do teatro tomou quinze anos. Foi autorizada por lei da Assembleia Legislativa Provincial do Amazonas em 1881, arrastou-se por administrações sucessivas, parou por falta de verba, mudou de responsável técnico e só foi empurrada até o fim no governo de Eduardo Ribeiro, que assumiu o estado em 1892.

Quase nada do que se vê na fachada e no salão foi feito na Amazônia. A estrutura metálica veio da Escócia, o mármore veio da Itália, as telhas vidradas da cúpula vieram da Alsácia e a mobília veio da França. Chegou tudo por navio, subindo o rio Amazonas até um porto a mil e quinhentos quilômetros do oceano, em caixas numeradas que precisavam ser abertas na ordem certa para o prédio fechar.

O que interessa em 31 de dezembro de 1896 não é a lista de importações nem o preço final da obra, número que varia de fonte para fonte e que a documentação do estado nunca fechou de forma limpa. Interessa a operação: como um governo estadual comprou uma casa de ópera inteira em catálogo europeu, desmontada, e a remontou na margem de um rio. A seção a seguir abre a lista de carga que sustentou a noite de estreia, item por item, e mostra o que a floresta em volta forneceu de fato para o prédio.

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I  O Episódio do Dia

O que chegou de navio para a noite de estreia

A abertura de 31 de dezembro de 1896 acontece num prédio que veio quase inteiro de fora, em caixas numeradas, subindo o rio até a Praça São Sebastião.

Manaus, Praça São Sebastião, 31 de dezembro de 1896. O prédio ficava numa elevação do centro, cercado de casario baixo e de ruas que a administração de Eduardo Ribeiro vinha abrindo e calçando. Da escadaria dava para ver o rio Negro.

A fachada é neoclássica, com colunas e frontão. A cúpula, que virou o cartão da cidade, é coberta por telhas vidradas em verde, amarelo, azul e branco, encomendadas na Alsácia e recebidas em caixas numeradas, telha a telha, para remontagem no lugar.

A estrutura de ferro que sustenta o conjunto e as peças metálicas de acabamento vieram da Escócia, de fundições de Glasgow, região que exportava estrutura metálica pronta para meio mundo naquele fim de século. O mármore das escadarias, das colunas internas e das estátuas veio de Carrara, na Itália.

O que a documentação do prédio e o inventário do IPHAN registram sobre o material da casa:

·  Estrutura metálica e peças de acabamento encomendadas a fundições de Glasgow, na Escócia
·  Mármore de Carrara para escadaria, colunas internas e estatuária
·  Telhas vidradas da Alsácia na cúpula, nas cores da bandeira nacional
·  Mobiliário, espelhos e lustres encomendados na França e na Itália
·  Madeira amazônica no piso do salão nobre, um dos poucos itens de origem local

Um teatro comprado por catálogo, desmontado em porto europeu e remontado a mil e quinhentos quilômetros da foz, é o registro material mais direto do que a economia da borracha permitia a um governo estadual em 1896.

O seringueiro realiza uma tremenda anomalia: é o homem que trabalha para escravizar-se.

Euclides da Cunha, À margem da história, 1909

O pano de boca do palco foi pintado por Crispim do Amaral, artista amazonense que trabalhava na Europa, com o tema do encontro das águas do rio Negro com o Solimões. A pintura foi executada em Paris e enviada por navio, como o resto.

A data de abertura ao público em 31 de dezembro de 1896 é a que consta na cronologia oficial da casa. A primeira temporada lírica, com companhia italiana em turnê pela América do Sul, é registrada no ano seguinte, e a ópera apontada como a de estreia varia conforme a fonte consultada.

Essa divergência sobrevive porque a imprensa manauara do período circulava em tiragem pequena e boa parte das coleções se perdeu no clima úmido. O prédio ficou; o papel que o cercava, nem tanto.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

Da lei de 1881 à queda do preço da borracha

O teatro não é obra de um governo só. A autorização legislativa é de 1881, quando o Amazonas ainda era província do Império, e a inauguração acontece em 1896, com o estado já republicano e com outro desenho administrativo.

Entre uma data e outra houve interrupção de obra por falta de recurso, troca de projeto e mudança na chefia técnica. A execução final é atribuída à administração de Eduardo Ribeiro, governador que reformou o centro de Manaus com calçamento, iluminação e bonde.

A sequência que a documentação do período permite montar:

·  1881: a Assembleia Legislativa Provincial do Amazonas autoriza a construção de um teatro na capital
·  1884: começam os trabalhos de terraplenagem e fundação na elevação da Praça São Sebastião
·  1890: a obra atravessa período de paralisação por falta de verba
·  1892: Eduardo Ribeiro assume o governo do estado e retoma o canteiro
·  1896: o prédio é aberto ao público em 31 de dezembro
·  1897: registra-se a primeira temporada de companhia lírica estrangeira na casa
·  1907: o preço da borracha amazônica começa a ceder na praça internacional
·  1912: a concorrência do látex plantado no sudeste asiático derruba a exportação do Amazonas

A base econômica de tudo era a seringueira nativa. A Amazônia detinha o fornecimento mundial de látex enquanto a árvore só produzia em escala na floresta, e a indústria de pneumáticos da Europa e dos Estados Unidos comprava o que chegasse ao porto.

O arranjo terminou quando sementes de seringueira levadas da Amazônia por Henry Wickham em 1876, cultivadas no jardim botânico de Kew, na Inglaterra, deram origem aos plantios do Ceilão e da Malásia. Plantação organizada colhe mais barato do que extração dispersa em mata fechada.

O que veio depois, verificável na documentação posterior:

·  A casa passou por longos períodos de portas fechadas na primeira metade do século XX
·  O prédio foi tombado pelo IPHAN em 1966, na condição de bem de valor artístico e histórico
·  Uma grande restauração devolveu o teatro à programação regular na década de 1990
·  O Festival Amazonas de Ópera passou a ocupar a casa anualmente a partir de 1997
·  O conjunto da Praça São Sebastião, com o calçamento em ondas, integra o mesmo perímetro protegido

O prédio virou símbolo de excesso na conversa popular, e a documentação sustenta uma leitura mais direta: um governo estadual com receita alta e horizonte curto gastou em equipamento urbano de padrão europeu, e a receita acabou antes do prédio.

 

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III  O Documento na Íntegra

Onde a papelada da obra está guardada

O episódio se confere em quatro balcões: o Arquivo Público do Estado do Amazonas, em Manaus, o arquivo do próprio Teatro Amazonas, sob a Secretaria de Cultura do estado, a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, e o IPHAN, além da bibliografia que trabalhou sobre o ciclo da borracha.

No Arquivo Público do Estado do Amazonas: correm as leis provinciais e estaduais sobre a obra, os relatórios de presidente de província e de governador, os orçamentos anuais e a correspondência da administração que tocou o canteiro entre 1881 e 1896.

No arquivo do Teatro Amazonas: ficam plantas, registros de reforma, programação histórica e a documentação das restaurações do século XX, consultáveis mediante pedido à administração da casa.

Na Biblioteca Nacional: está a hemeroteca digital, com a coleção de jornais do período que noticiaram a obra, a inauguração e as temporadas líricas seguintes, incluindo títulos do Rio de Janeiro que acompanhavam o comércio de borracha.

Na bibliografia especializada: À margem da história, de Euclides da Cunha (1909), e A Amazônia na era da borracha, título de referência sobre o ciclo, reúnem descrição de época, dados de exportação e leitura econômica do período.

Na divergência: o custo final da obra muda conforme a fonte e conforme a moeda usada na conta, a ópera de estreia da primeira temporada lírica não bate entre os relatos, o número de peças importadas nunca foi consolidado numa lista única, e há discussão sobre quanto do casario original da Praça São Sebastião foi derrubado para abrir o entorno.

Ao citar o episódio, use a autorização legislativa de 1881, a abertura ao público em 31 de dezembro de 1896, a administração de Eduardo Ribeiro como a que concluiu a obra e a origem estrangeira do material principal, nunca um valor de custo sem indicar de qual fonte ele saiu.

A documentação fecha a lei de autorização em 1881, a retomada do canteiro em 1892, a abertura em 1896, o tombamento pelo IPHAN em 1966 e o início do festival anual de ópera em 1997.

Fica em aberto quanto o estado desembolsou no total e quantas embarcações foram necessárias para trazer o material, já que os relatórios de governo descrevem despesa por rubrica e não por carregamento.

Um prédio inteiro comprado fora, remontado no meio da floresta e pago por uma árvore que parou de dar lucro. O que sobra de duro são leis datadas, relatórios de governo e a ficha de tombamento, e é por esse rastro de papel que a casa se sustenta.

"Quando a receita de uma cidade sai de uma árvore só, quem manda no futuro dela é o governo ou o preço da tonelada?"

As leis e os relatórios de governo estão no Arquivo Público do Estado do Amazonas, em Manaus, e a ficha de tombamento fica no IPHAN. Marque 31 de dezembro, data de aniversário da casa, quando o teatro e os arquivos publicam programação e material histórico sobre a obra, para reconferir datas, valores e nomes nesses dois lugares antes de citar qualquer trecho deste episódio.

 
 

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