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O sinal içado no mastro da Amazonas em Riachuelo
11 de junho de 1865, rio Paraná abaixo de Corrientes: a esquadra de Barroso enfrenta a flotilha paraguaia e fecha o rio.
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Rio Paraná, 1865: o dia do combate naval
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"O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever", registrou o Relatório do Ministério dos Negócios da Marinha apresentado à Assembleia Geral Legislativa em 1866, ao descrever o sinal que a fragata Amazonas mandou içar no mastro na manhã de 11 de junho de 1865.
O sinal era feito de bandeiras coloridas, içadas numa ordem combinada, que os outros navios liam com luneta e traduziam pelo código impresso a bordo. Nenhuma voz atravessava aquela distância de água: uma esquadra conversava por pano.
O lugar do combate tinha nome de riacho pequeno: Riachuelo, afluente que entra no rio Paraná um pouco abaixo da cidade de Corrientes, em território argentino ocupado meses antes pelas tropas do Paraguai. O rio ali é largo, cheio de bancos de areia que mudam de lugar conforme a cheia, e a profundidade decide o que cada casco pode fazer.
Nove navios a vapor brasileiros desceram para aquele trecho. Do outro lado esperavam oito vapores paraguaios e seis chatas, as barcaças baixas e sem motor, cada uma com um canhão pesado no convés, rebocadas até a posição e deixadas junto à margem para atirar rente à linha da água.
A conta de bocas de fogo favorecia o lado brasileiro. A conta de intenção favorecia o outro: o comando paraguaio queria encostar nos cascos e tomar os conveses na abordagem, o assalto em que a tripulação pula para o navio inimigo e briga de facão e revólver dentro dele.
O que se sabe do dia vem de três camadas de papel: os relatórios oficiais da Marinha impressos no ano seguinte, a correspondência dos comandantes guardada nos arquivos do Império e a documentação paraguaia e argentina que sobreviveu à guerra.
A seção a seguir reconstrói a manhã e a tarde de 11 de junho pelo que essa papelada registra: quem comandava cada lado, o que atrasou o ataque planejado, o que aconteceu quando um dos navios brasileiros encalhou e qual manobra virou o combate.
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I O Episódio do Dia
Nove vapores, seis chatas e uma proa de ferro
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Uma proa de ferro resolveu o que a artilharia não resolveu.
Foz do riacho Riachuelo, rio Paraná, abaixo de Corrientes, 11 de junho de 1865. Francisco Manoel Barroso da Silva, chefe de divisão da Marinha imperial e comandante da esquadra brasileira no Paraná, tinha a fragata Amazonas como navio de comando e mais oito vapores sob ordem, entre canhoneiras e corvetas de pequeno calado.
Do lado paraguaio, o comando naval estava com Pedro Ignácio Meza, capitão de fragata, com oito vapores armados e as seis chatas ancoradas junto à margem. A esquadra paraguaia tinha saído de Humaitá na véspera com ordem de atacar de madrugada, ainda no escuro, e queimar a linha brasileira antes que ela pudesse formar.
O ataque de surpresa não saiu no horário. Problemas de máquina em parte dos vapores atrasaram a descida do rio, e a flotilha paraguaia só apareceu diante da esquadra brasileira depois das nove da manhã, com os navios do Império já acordados, com pressão nas caldeiras e homens nos postos.
O que cada lado levava para a água naquela manhã, pelo que os relatórios das duas marinhas permitem somar:
| · Esquadra brasileira, nove navios a vapor, cerca de sessenta bocas de fogo no total, tripulações reforçadas por fuzileiros embarcados | | · Esquadra paraguaia, oito vapores armados, boa parte deles navios mercantes convertidos às pressas para a guerra | | · As chatas, seis barcaças sem motor, cada uma com um canhão de grosso calibre, rebocadas para a posição de tiro rente à margem | | · A tropa de abordagem, soldados embarcados com facão, revólver e ordem de saltar no convés brasileiro assim que os cascos encostassem | | · O rio, bancos de areia que mudavam com a cheia e obrigavam cada comandante a escolher entre a rota funda e a rota curta |
A palavra "chata", no vocabulário naval do período, designava a barcaça de fundo raso armada com uma peça só, e não um navio de guerra completo. Ler o relatório sem essa chave faz a soma de embarcações paraguaias parecer maior do que a força real de combate.
A primeira hora correu mal para o lado brasileiro: a canhoneira Jequitinhonha encalhou num banco de areia e ficou parada sob o fogo das chatas, e o vapor Parnaíba foi alcançado por embarcações paraguaias que jogaram tropa no convés, onde a luta virou corpo a corpo entre a chaminé e a popa.
Sustentar o fogo, que a vitória é nossa. Francisco Manoel Barroso da Silva, sinal içado na fragata Amazonas, transcrito no Relatório do Ministério dos Negócios da Marinha, 1866 |
A virada veio de uma decisão de manobra. Barroso mandou usar a própria proa da Amazonas como esporão, a peça reforçada na frente do casco feita para arrombar o costado do navio inimigo, e passou a investir contra os vapores paraguaios com a máquina a toda força, batendo neles de lado.
O método funcionou mais de uma vez na mesma tarde. Vapores paraguaios foram abertos, encalharam ou pegaram fogo; outros se soltaram rio acima em retirada. Pedro Ignácio Meza foi ferido a bordo e não resistiu, e o comando paraguaio no rio ficou desfeito.
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II Neste Dia no Brasil
De 1864 a 1902, da invasão do Mato Grosso ao feriado naval
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O combate de 11 de junho não abriu a guerra. Ele decidiu quem mandava na estrada de água por onde tudo passava: tropa, munição, comida e notícia. |
A sequência que a documentação militar e diplomática permite montar:
| · 1864: forças paraguaias invadem o sul de Mato Grosso em dezembro e tomam Dourados e a região de Coimbra, abrindo a guerra contra o Império | | · 1865: em abril, tropas paraguaias ocupam Corrientes, na Argentina, e o governo de Buenos Aires entra no conflito ao lado do Brasil e do Uruguai | | · 1865: em 1 de maio, Brasil, Argentina e Uruguai assinam no Rio de Janeiro o Tratado da Tríplice Aliança | | · 1865: em 11 de junho, a esquadra de Barroso desmonta a flotilha paraguaia na foz do Riachuelo e assume o controle do rio Paraná | | · 1866: a batalha de Tuiuti, em maio, e o assalto a Curupaiti, em setembro, mostram que a guerra em terra seria longa e cara | | · 1868: a esquadra brasileira força a passagem sob a fortaleza de Humaitá em fevereiro, com navios encouraçados, isto é, com casco revestido de chapa de ferro | | · 1870: a campanha termina em março, em Cerro Corá, com a dispersão do último núcleo de resistência paraguaia | | · 1902: a Marinha brasileira fixa 11 de junho como sua data comemorativa, e o combate de Riachuelo entra no calendário oficial |
O resultado imediato foi de logística. Sem esquadra capaz de disputar o Paraná, o Paraguai perdeu a chance de descer o rio até o estuário do Prata, e o Império passou a mover soldado, canhão e mantimento por água enquanto o inimigo dependia de caminho de carreta.
A ocupação de Corrientes ficou insustentável. As forças paraguaias em território argentino perderam o abastecimento pelo rio e recuaram nos meses seguintes, deixando a iniciativa da campanha com a Aliança.
O que o combate de Riachuelo fixou na Marinha brasileira, verificável em lei, relatório e acervo:
| · O título de barão do Amazonas, concedido a Francisco Manoel Barroso da Silva ainda em 1865, com elevação posterior na hierarquia da nobreza do Império | | · O 11 de junho como data comemorativa da Marinha, oficializada em 1902 e mantida desde então | | · O nome Riachuelo em navios sucessivos da esquadra, de encouraçados do século 19 a submarinos do século 20 | | · A frase do sinal içado na Amazonas, reproduzida em relatório, manual e monumento, e transformada em lema de formatura naval | | · A pintura de Victor Meirelles sobre o combate, encomendada na década seguinte, que fixou a cena na imaginação pública |
A leitura do episódio mudou conforme a época. A historiografia oficial do século 19 tratou o combate como fundação heroica do poder naval brasileiro. A pesquisa recente examina a conta inteira: o custo humano da guerra para a população paraguaia, o recrutamento forçado de homens pobres e de escravizados libertos para as fileiras do Império, e a dívida externa contraída em Londres para pagar a campanha.
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