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ED 043
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O sinal içado no mastro da Amazonas em Riachuelo

11 de junho de 1865, rio Paraná abaixo de Corrientes: a esquadra de Barroso enfrenta a flotilha paraguaia e fecha o rio.

Vapor de guerra do século 19 em rio largo, fumaça baixa sobre a água e bandeiras de sinal no mastro.

Rio Paraná, 1865: o dia do combate naval

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"O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever", registrou o Relatório do Ministério dos Negócios da Marinha apresentado à Assembleia Geral Legislativa em 1866, ao descrever o sinal que a fragata Amazonas mandou içar no mastro na manhã de 11 de junho de 1865.

O sinal era feito de bandeiras coloridas, içadas numa ordem combinada, que os outros navios liam com luneta e traduziam pelo código impresso a bordo. Nenhuma voz atravessava aquela distância de água: uma esquadra conversava por pano.

O lugar do combate tinha nome de riacho pequeno: Riachuelo, afluente que entra no rio Paraná um pouco abaixo da cidade de Corrientes, em território argentino ocupado meses antes pelas tropas do Paraguai. O rio ali é largo, cheio de bancos de areia que mudam de lugar conforme a cheia, e a profundidade decide o que cada casco pode fazer.

Nove navios a vapor brasileiros desceram para aquele trecho. Do outro lado esperavam oito vapores paraguaios e seis chatas, as barcaças baixas e sem motor, cada uma com um canhão pesado no convés, rebocadas até a posição e deixadas junto à margem para atirar rente à linha da água.

A conta de bocas de fogo favorecia o lado brasileiro. A conta de intenção favorecia o outro: o comando paraguaio queria encostar nos cascos e tomar os conveses na abordagem, o assalto em que a tripulação pula para o navio inimigo e briga de facão e revólver dentro dele.

O que se sabe do dia vem de três camadas de papel: os relatórios oficiais da Marinha impressos no ano seguinte, a correspondência dos comandantes guardada nos arquivos do Império e a documentação paraguaia e argentina que sobreviveu à guerra.

A seção a seguir reconstrói a manhã e a tarde de 11 de junho pelo que essa papelada registra: quem comandava cada lado, o que atrasou o ataque planejado, o que aconteceu quando um dos navios brasileiros encalhou e qual manobra virou o combate.

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I  O Episódio do Dia

Nove vapores, seis chatas e uma proa de ferro

Uma proa de ferro resolveu o que a artilharia não resolveu.

Foz do riacho Riachuelo, rio Paraná, abaixo de Corrientes, 11 de junho de 1865. Francisco Manoel Barroso da Silva, chefe de divisão da Marinha imperial e comandante da esquadra brasileira no Paraná, tinha a fragata Amazonas como navio de comando e mais oito vapores sob ordem, entre canhoneiras e corvetas de pequeno calado.

Do lado paraguaio, o comando naval estava com Pedro Ignácio Meza, capitão de fragata, com oito vapores armados e as seis chatas ancoradas junto à margem. A esquadra paraguaia tinha saído de Humaitá na véspera com ordem de atacar de madrugada, ainda no escuro, e queimar a linha brasileira antes que ela pudesse formar.

O ataque de surpresa não saiu no horário. Problemas de máquina em parte dos vapores atrasaram a descida do rio, e a flotilha paraguaia só apareceu diante da esquadra brasileira depois das nove da manhã, com os navios do Império já acordados, com pressão nas caldeiras e homens nos postos.

O que cada lado levava para a água naquela manhã, pelo que os relatórios das duas marinhas permitem somar:

·  Esquadra brasileira, nove navios a vapor, cerca de sessenta bocas de fogo no total, tripulações reforçadas por fuzileiros embarcados
·  Esquadra paraguaia, oito vapores armados, boa parte deles navios mercantes convertidos às pressas para a guerra
·  As chatas, seis barcaças sem motor, cada uma com um canhão de grosso calibre, rebocadas para a posição de tiro rente à margem
·  A tropa de abordagem, soldados embarcados com facão, revólver e ordem de saltar no convés brasileiro assim que os cascos encostassem
·  O rio, bancos de areia que mudavam com a cheia e obrigavam cada comandante a escolher entre a rota funda e a rota curta

A palavra "chata", no vocabulário naval do período, designava a barcaça de fundo raso armada com uma peça só, e não um navio de guerra completo. Ler o relatório sem essa chave faz a soma de embarcações paraguaias parecer maior do que a força real de combate.

A primeira hora correu mal para o lado brasileiro: a canhoneira Jequitinhonha encalhou num banco de areia e ficou parada sob o fogo das chatas, e o vapor Parnaíba foi alcançado por embarcações paraguaias que jogaram tropa no convés, onde a luta virou corpo a corpo entre a chaminé e a popa.

Sustentar o fogo, que a vitória é nossa.

Francisco Manoel Barroso da Silva, sinal içado na fragata Amazonas, transcrito no Relatório do Ministério dos Negócios da Marinha, 1866

A virada veio de uma decisão de manobra. Barroso mandou usar a própria proa da Amazonas como esporão, a peça reforçada na frente do casco feita para arrombar o costado do navio inimigo, e passou a investir contra os vapores paraguaios com a máquina a toda força, batendo neles de lado.

O método funcionou mais de uma vez na mesma tarde. Vapores paraguaios foram abertos, encalharam ou pegaram fogo; outros se soltaram rio acima em retirada. Pedro Ignácio Meza foi ferido a bordo e não resistiu, e o comando paraguaio no rio ficou desfeito.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

De 1864 a 1902, da invasão do Mato Grosso ao feriado naval

O combate de 11 de junho não abriu a guerra. Ele decidiu quem mandava na estrada de água por onde tudo passava: tropa, munição, comida e notícia.

A sequência que a documentação militar e diplomática permite montar:

·  1864: forças paraguaias invadem o sul de Mato Grosso em dezembro e tomam Dourados e a região de Coimbra, abrindo a guerra contra o Império
·  1865: em abril, tropas paraguaias ocupam Corrientes, na Argentina, e o governo de Buenos Aires entra no conflito ao lado do Brasil e do Uruguai
·  1865: em 1 de maio, Brasil, Argentina e Uruguai assinam no Rio de Janeiro o Tratado da Tríplice Aliança
·  1865: em 11 de junho, a esquadra de Barroso desmonta a flotilha paraguaia na foz do Riachuelo e assume o controle do rio Paraná
·  1866: a batalha de Tuiuti, em maio, e o assalto a Curupaiti, em setembro, mostram que a guerra em terra seria longa e cara
·  1868: a esquadra brasileira força a passagem sob a fortaleza de Humaitá em fevereiro, com navios encouraçados, isto é, com casco revestido de chapa de ferro
·  1870: a campanha termina em março, em Cerro Corá, com a dispersão do último núcleo de resistência paraguaia
·  1902: a Marinha brasileira fixa 11 de junho como sua data comemorativa, e o combate de Riachuelo entra no calendário oficial

O resultado imediato foi de logística. Sem esquadra capaz de disputar o Paraná, o Paraguai perdeu a chance de descer o rio até o estuário do Prata, e o Império passou a mover soldado, canhão e mantimento por água enquanto o inimigo dependia de caminho de carreta.

A ocupação de Corrientes ficou insustentável. As forças paraguaias em território argentino perderam o abastecimento pelo rio e recuaram nos meses seguintes, deixando a iniciativa da campanha com a Aliança.

O que o combate de Riachuelo fixou na Marinha brasileira, verificável em lei, relatório e acervo:

·  O título de barão do Amazonas, concedido a Francisco Manoel Barroso da Silva ainda em 1865, com elevação posterior na hierarquia da nobreza do Império 
·  O 11 de junho como data comemorativa da Marinha, oficializada em 1902 e mantida desde então 
·  O nome Riachuelo em navios sucessivos da esquadra, de encouraçados do século 19 a submarinos do século 20 
·  A frase do sinal içado na Amazonas, reproduzida em relatório, manual e monumento, e transformada em lema de formatura naval 
·  A pintura de Victor Meirelles sobre o combate, encomendada na década seguinte, que fixou a cena na imaginação pública 

A leitura do episódio mudou conforme a época. A historiografia oficial do século 19 tratou o combate como fundação heroica do poder naval brasileiro. A pesquisa recente examina a conta inteira: o custo humano da guerra para a população paraguaia, o recrutamento forçado de homens pobres e de escravizados libertos para as fileiras do Império, e a dívida externa contraída em Londres para pagar a campanha.

 

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III  O Documento na Íntegra

Onde o combate de 1865 se confere hoje

O episódio se confere em quatro balcões do Rio de Janeiro: o Arquivo Nacional, o Serviço de Documentação da Marinha, a Biblioteca Nacional com a hemeroteca dos jornais do período e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

No Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro: está a documentação do governo imperial sobre a campanha, com a correspondência entre o Ministério dos Negócios da Marinha e os comandos em operação no Prata.

No Serviço de Documentação da Marinha, no Rio de Janeiro: ficam os relatórios de combate, os livros de registro dos navios e o acervo iconográfico da esquadra imperial.

Na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro: está a coleção dos jornais que noticiaram o combate nas semanas seguintes, com o atraso de cada edição.

No Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, no Rio de Janeiro: estão as revistas e os estudos que publicaram, no século 20, a cronologia da campanha naval e a discussão sobre os números de cada lado.

Na divergência: o total de baixas varia conforme a fonte, porque os relatórios dos dois lados contam de maneira diferente os feridos que não resistiram nos dias seguintes, e a soma de embarcações paraguaias muda conforme o autor inclua ou não as seis chatas.

Ao citar o episódio, use 11 de junho de 1865 para a data, trate a foz do riacho Riachuelo no rio Paraná, abaixo de Corrientes, como o lugar, e não confunda o combate com a passagem de Humaitá, de fevereiro de 1868.

A documentação fecha o dia, o lugar, o nome dos dois comandantes, a composição aproximada das duas forças e a manobra de esporão que virou o combate a favor da esquadra brasileira.

Fica em aberto a reconstituição minuto a minuto da luta no convés do Parnaíba, porque os depoimentos dos sobreviventes foram recolhidos semanas depois e divergem na ordem dos fatos, e fica em aberto a lista nominal das tripulações paraguaias, porque parte do arquivo do país foi dispersa no fim da guerra.

Um riacho pequeno num rio grande, nove vapores contra oito e seis barcaças, e um sinal de bandeiras dizendo a cada comandante o que fazer. O que sustenta o episódio são os relatórios impressos da Marinha, a correspondência dos comandos e os jornais do período.

"Quanto de uma guerra inteira cabe na largura de um rio?"

O Serviço de Documentação da Marinha fica no Rio de Janeiro e o Arquivo Nacional também. Marque 11 de junho, quando os dois costumam publicar material sobre o combate, para reconferir a data, os nomes dos comandantes e a contagem de embarcações de cada lado nesses dois lugares antes de citar este episódio.

 
 
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