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ED 007

O sinal de Roma que não acendeu o Cristo

12 de outubro de 1931, segunda-feira no Corcovado: o comando de rádio que viria da Itália falha e a luz sobe na chave de um engenheiro brasileiro.

A estátua do Cristo Redentor iluminada por holofotes no alto do Corcovado, sob neblina, na noite de 12 de outubro de 1931.

Corcovado, noite de 12 de outubro de 1931

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Rio de Janeiro, começo dos anos 1920. O Círculo Católico abre a campanha da Semana do Monumento e sai recolhendo donativo de fiel em fiel para levantar uma imagem de pedra no alto do Corcovado, a mais de setecentos metros acima da baía de Guanabara.

A obra levou quase uma década. O desenho saiu da prancheta do engenheiro Heitor da Silva Costa, o rosto e as mãos foram modelados em Paris por Paul Landowski, os traços da face couberam ao escultor romeno Gheorghe Leonida e o cálculo estrutural passou pelo francês Albert Caquot.

O corpo é concreto armado. A pele é pedra-sabão cortada em milhares de escamas triangulares, assentadas uma a uma sobre a superfície por operários pendurados em andaime, no ponto mais alto que a cidade tinha para oferecer.

Trinta metros de estátua sobre oito metros de pedestal, vinte e oito metros de braço aberto, mil cento e quarenta e cinco toneladas de peso. O custo ficou perto de 250 mil dólares, pagos por donativo de fiel, não por verba de orçamento público.

Faltava o gesto final. A comissão organizadora não queria apenas descerrar um pano diante da imagem: queria o nome do Rio de Janeiro circulando no telégrafo do mundo inteiro na mesma noite, e comprou uma ideia que ninguém tinha executado em escala parecida.

A ideia era acender o monumento por rádio, de outro continente. Guglielmo Marconi, o homem que fez o primeiro sinal sem fio cruzar o Atlântico em 1901, apertaria uma chave na Itália e os holofotes do Corcovado responderiam a nove mil e duzentos quilômetros de distância.

O percurso do sinal foi desenhado com escalas. Sairia da Itália, seria captado por uma estação em Dorchester, na Inglaterra, e de lá seguiria retransmitido até uma antena montada em Jacarepaguá, no subúrbio carioca, que fecharia o circuito da iluminação.

A façanha inteira dependia da atmosfera colaborar. Na noite marcada ela não colaborou, e o intervalo entre a hora anunciada e a hora em que a luz de fato subiu virou o trecho mais disputado de toda a história do monumento.

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I  O Episódio do Dia

Sete e quinze da noite no Corcovado

Nove anos de canteiro dependiam, no minuto final, de uma onda de rádio atravessando o Atlântico.

Segunda-feira, 12 de outubro de 1931, alto do Corcovado, Rio de Janeiro. O tempo estava fechado sobre o morro, com neblina cortando a visibilidade da plataforma onde a estátua esperava coberta.

A data não saiu de sorteio. O 12 de outubro era a festa de Nossa Senhora Aparecida, que Pio XI havia constituído padroeira do Brasil por decreto de 16 de julho de 1930, em proclamação solene celebrada no Rio em 31 de maio de 1931.

O programa começou embaixo. A missa inaugural foi rezada no Estádio das Laranjeiras, e só depois a cerimônia subiu para o alto do morro, onde autoridades e convidados se acomodaram diante do monumento.

Getúlio Vargas, chefe do Governo Provisório havia menos de um ano, comandou a parte civil da solenidade. O cardeal Dom Sebastião Leme, na condição de legado papal, consagrou o monumento em nome de Pio XI.

A hora marcada para a luz era sete e quinze da noite. Naquele minuto, segundo o roteiro divulgado à imprensa, o impulso de Marconi já teria atravessado o Atlântico, passado pela Inglaterra e chegado à antena de Jacarepaguá.

O impulso não fechou o circuito. O tempo carregado sobre o Rio atrapalhou a operação, e o comando que deveria vir de fora não acendeu coisa alguma na hora combinada com o público.

A luz subiu assim mesmo. O registro do Iphan credita a iluminação à perícia do engenheiro Gustavo Corção e da equipe dele, e atribui a Rinaldo Franco o ato de acionar a chave que ligou os holofotes do monumento.

O gesto que acendeu o Cristo Redentor partiu de uma chave em solo carioca, e não da chave que a Europa deveria apertar no horário anunciado.

O telégrafo, porém, já tinha a outra versão pronta para sair. Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados, tinha costurado a participação de Marconi como golpe de imprensa, e foi a versão italiana que rodou o mundo na manhã seguinte.

O Cruzeiro publicou em 17 de outubro de 1931 o telegrama que Chateaubriand assinou sobre a noite. Nas décadas seguintes, a versão italiana virou a única que sobrou no livro escolar e na placa turística.

A correção mora na documentação de patrimônio. O nome do engenheiro brasileiro aparece no papel técnico que descreve o monumento, sem nunca ter aparecido na manchete que o mundo leu no dia 13.

Sobra do episódio um contraste de escala. Nove anos de canteiro, mil cento e quarenta e cinco toneladas de concreto e pedra, e o minuto decisivo resolvido por uma mão sobre um interruptor elétrico.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

Aclamação, decreto e padroeira no mesmo dia

O 12 de outubro já carregava três camadas de história antes de receber a quarta: a aclamação de 1822, o decreto da festa infantil de 1924 e o calendário de Nossa Senhora Aparecida.

A camada mais antiga é imperial. Em 12 de outubro de 1822, no Campo de Santana, Pedro de Alcântara foi aclamado Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil, cinco semanas depois do rompimento com Lisboa.

A data foi escolhida por ele. Pedro nasceu em Lisboa em 12 de outubro de 1798, e a aclamação caiu no aniversário de vinte e quatro anos. A coroação viria só em 1º de dezembro do mesmo ano.

A segunda camada é republicana e burocrática. O deputado federal Galdino do Valle Filho propôs uma festa nacional da criança, e o presidente Arthur Bernardes assinou o decreto que fixou a data no calendário oficial.

Fica instituído o dia 12 de outubro para ter lugar, em todo o território nacional, a festa da criança, revogadas as disposições em contrário.

Artigo único do Decreto nº 4.867, de 5 de novembro de 1924, Coleção das Leis da República dos Estados Unidos do Brasil

O decreto não criou tradição sozinho. A data ficou quase três décadas fora da rotina das famílias e só virou hábito nos anos 1950, com campanha publicitária de duas empresas.

A terceira camada chegou pouco antes do monumento. Pio XI assinou em 16 de julho de 1930 o decreto que constituiu Nossa Senhora Aparecida padroeira do Brasil, e a proclamação solene reuniu cerca de um milhão de pessoas no Rio em 31 de maio de 1931.

O país que recebia a estátua vivia sem parlamento. Vargas governava por decreto desde 3 de novembro de 1930, e a cerimônia do Corcovado colocou o chefe do governo e o cardeal lado a lado diante dos fotógrafos.

Uma data que já servia a um imperador, a uma festa infantil e a uma padroeira ganhou em 1931 a imagem que o país inteiro passou a reconhecer de longe.

O reconhecimento oficial demorou. O Corcovado foi inscrito no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico do Iphan em 8 de agosto de 1973, no processo 869-T-1973, e a estátua recebeu tombamento próprio em 2008.

O reconhecimento popular veio antes do papel. Em 2007, a votação internacional das novas sete maravilhas do mundo colocou o monumento na lista.

A iluminação foi refeita várias vezes. Os refletores originais deram lugar a sistemas mais potentes e, hoje, a um conjunto de LED operado à distância.

O gesto que falhou virou rotina. Acender o Corcovado de longe, tarefa que travou na noite de estreia, hoje se resolve em painel de controle.

Marconi carregou o crédito da façanha pelo resto da vida. O Santuário Cristo Redentor ainda celebra a ligação do monumento com o nome do italiano que levou o rádio de um continente a outro.

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III  O Documento na Íntegra

Onde conferir a noite de 1931

O episódio se confere em quatro balcões: a imprensa carioca da semana, a revista ilustrada dos Diários Associados, o acervo fotográfico da Biblioteca Nacional e a documentação de patrimônio do Iphan. Os quatro estão digitalizados e abertos.

Nos jornais: em memoria.bn.br, a Hemeroteca Digital Brasileira, abra o Correio da Manhã, o Jornal do Brasil, O Paiz e A Noite nas edições de 13 de outubro de 1931. A cobertura sai nas primeiras páginas, com o crédito da luz apontado para a Itália.

Na revista: O Cruzeiro de 17 de outubro de 1931 traz o telegrama assinado por Assis Chateaubriand sobre a noite. A coleção está na mesma hemeroteca e rende mais fotografia que o diário.

Nas fotos: brasilianafotografica.bn.gov.br reúne imagens da inauguração vindas dos acervos da Biblioteca Nacional, do Instituto Moreira Salles e do Arquivo Nacional. As legendas trazem autoria e data, o que já resolve metade do trabalho de citação.

No tombamento: o Acervo Digital do Iphan guarda os processos do monumento. É ali que a atribuição da luz ao engenheiro brasileiro aparece por escrito, num documento que nenhuma redação de 1931 chegou a consultar.

Na Itália: a Fondazione Guglielmo Marconi, em Villa Griffone, Pontecchio Marconi, guarda papéis, correspondência e registros ligados ao iate Elettra, embarcação que aparece em boa parte das versões do episódio.

Na divergência: as fontes não concordam sobre o ponto de partida do sinal. Umas dizem Roma, outras colocam o Elettra ancorado na baía de Nápoles, e há quem cite Gênova. Anotar qual versão cada fonte defende rende mais que escolher uma.

Na grafia: papel de 1931 alterna Christo Redemptor e Cristo Redentor e escreve telegraphia sem fio com ph. O decreto de 1924 sai como creança e logar. Buscar só com a ortografia de hoje devolve página vazia.

Ao baixar qualquer página, anote junto o nome do periódico, a data da edição e o número da folha. Sem os três dados, a citação vira opinião na boca de quem vier depois.

Vale separar o que a documentação fecha e o que ela deixa em aberto. Fecha a data, a hora anunciada, os nomes da cerimônia, o roteiro do sinal e a atribuição do Iphan sobre quem acionou a chave.

Fica em aberto o grau exato da falha. Não há registro público de log de transmissão do lado italiano nem de medição de recepção do lado brasileiro.

Fica em aberto também o lugar do interruptor. Parte das fontes coloca o comando na estação de Jacarepaguá e parte descreve a manobra no próprio alto do morro.

A hora tem sorte melhor. Sete e quinze da noite aparece na maioria dos relatos, sem registro de quem segurava o relógio.

A noite de 12 de outubro de 1931 chegou até aqui em duas versões que cabem no mesmo arquivo: a que o telégrafo mandou para o mundo na hora e a que a documentação de patrimônio registrou décadas depois.

"Qual papel você abriria primeiro, o jornal da manhã seguinte ou o processo de tombamento que corrigiu a autoria?"

 
 
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Quiz da edição

Segundo o registro do Iphan, quem acionou a chave que acendeu os holofotes do Cristo Redentor na noite de estreia?

AA equipe do engenheiro Gustavo Corção
BGuglielmo Marconi, da Itália
CGetúlio Vargas, no alto do morro
DO cardeal Dom Sebastião Leme
Veja o ranking de quem mais acerta →
 
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