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O pó azul do césio-137 e a cápsula aberta em Goiânia

Goiânia, 1987: dois catadores levam um aparelho de radioterapia abandonado, e o brilho azul do césio corre de mão em mão até o ferro-velho.

Cápsula metálica aberta num galpão de ferro-velho, com pó azul brilhando no escuro.

Goiânia, 1987: o pó azul do césio-137

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A Agência Internacional de Energia Atômica, a AIEA, publicou em 1988 o relatório com o título "The Radiological Accident in Goiânia" (O Acidente Radiológico em Goiânia), sobre o que aconteceu na capital de Goiás no ano anterior. O documento tem mais de cem páginas e começa num lugar pequeno: um prédio vazio no centro da cidade.

O prédio era a antiga sede do Instituto Goiano de Radioterapia, uma clínica particular que tinha mudado de endereço em 1985. A mudança deixou para trás um aparelho de teleterapia (radioterapia feita com uma fonte radioativa posicionada fora do corpo do paciente), com uma cabeça blindada de chumbo e aço pesando centenas de quilos.

A clínica saiu, a demolição começou pela metade e parou por causa de uma disputa judicial entre os donos do instituto e o proprietário do imóvel. O terreno ficou sem vigia. Entrava quem quisesse, e catador de sucata sabe onde tem metal.

Dentro da cabeça do aparelho havia uma cápsula de aço inoxidável do tamanho de um carretel de linha. Ela guardava 19,26 gramas de cloreto de césio-137, um sal do césio radioativo, segundo o relatório da AIEA de 1988. O pó emite radiação gama (a forma de radiação que atravessa pele, roupa e parede fina) o tempo todo, sem cheiro, sem calor que se perceba, sem ruído.

A Comissão Nacional de Energia Nuclear, a CNEN, era o órgão federal responsável por licenciar e fiscalizar esse tipo de fonte. A clínica tinha licença para usar o aparelho. Ninguém avisou a CNEN que o equipamento tinha ficado num prédio abandonado.

Quem olhava de fora via um bloco de metal esquecido num canteiro de entulho. Quem conhecia o preço do chumbo via dinheiro. O relatório da AIEA registra que a blindagem da cabeça era o que impedia a radiação de sair, e que bastava romper a janela da fonte para o pó ficar exposto ao ar.

A seção I conta o domingo em que dois homens puseram essa peça num carrinho de mão, o que eles fizeram com ela em casa e o caminho que o pó azul percorreu até chegar ao quintal de um ferro-velho no Setor Aeroporto.

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I  O Episódio do Dia

O carrinho de mão que saiu do prédio vazio

Um carrinho de mão bastou para espalhar radiação por três bairros de Goiânia.

Goiânia, Goiás, domingo, 13/9/1987. Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira, dois catadores de sucata, entraram nas ruínas do Instituto Goiano de Radioterapia e soltaram a cabeça do aparelho de teleterapia. Puseram a peça num carrinho de mão e a levaram para a casa de Roberto, a poucas quadras dali.

Em casa, os dois começaram a desmontar o conjunto a marteladas e com chave de fenda, atrás do metal que pudesse ser vendido. Na mesma noite, os dois tiveram vômito. Wagner ficou com a mão inchada e uma ferida que os médicos da rede pública trataram como alergia a alguma comida.

Os dois insistiram na peça. Em 18/9/1987, Roberto conseguiu furar a janela da cápsula e viu um pó que soltava faísca azulada. Naquele dia, venderam o que tinham desmontado para o ferro-velho de Devair Alves Ferreira, na Rua 26-A, no Setor Aeroporto.

Devair notou, à noite, que a peça brilhava azul no escuro do galpão. Achou que o material podia valer muito ou ter alguma força sobrenatural. Levou a cápsula para dentro de casa, e durante três dias parentes, vizinhos e amigos foram ver o brilho.

O pó passou de mão em mão. Devair deu pedaços do tamanho de grão de arroz a conhecidos. Um dos empregados dele, Israel Baptista dos Santos, e outro, Admilson Alves de Souza, ajudaram a retirar o césio da cápsula nos dias seguintes.

Em 24/9/1987, Ivo Alves Ferreira, irmão de Devair, levou um pouco do pó para casa e espalhou no chão. Sua filha Leide das Neves Ferreira, de 6 anos, brincou com o material, passou nas mãos e comeu um ovo sem lavá-las. Foi a pessoa que recebeu a maior dose interna de todo o acidente, pelo relatório da AIEA.

A mulher de Devair, Maria Gabriela Ferreira, percebeu que a família inteira adoecia ao mesmo tempo. Em 28/9/1987, pôs a peça numa sacola, tomou um ônibus com um funcionário do ferro-velho e entregou o material na sede da Vigilância Sanitária de Goiânia, dizendo que aquilo estava matando a sua gente.

O césio viajou de ônibus, na sacola de uma dona de casa, até o balcão de uma repartição pública, e foi por esse gesto que Goiânia descobriu o que tinha no quintal.

No dia seguinte, 29/9/1987, o físico Walter Mendes Ferreira, com um contador Geiger (aparelho que mede radiação e estala mais rápido quanto mais forte ela é) emprestado da empresa Nuclebrás, confirmou a radiação e acionou a CNEN. A peça ainda estava no pátio da Vigilância Sanitária.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

Dezesseis dias até o contador Geiger estalar

A CNEN chegou a Goiânia na madrugada de 30/9/1987 e montou a triagem no Estádio Olímpico, no centro da cidade. Moradores dos bairros atingidos passaram por monitores de radiação em filas, e quem apitava era separado para descontaminação.

A sequência dos fatos, pelo relatório da AIEA de 1988:

·  13/9/1987: Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira retiram a cabeça do aparelho do prédio abandonado
·  18/9/1987: a cápsula é rompida e o material vai para o ferro-velho de Devair Alves Ferreira
·  24/9/1987: Ivo Alves Ferreira leva o pó para casa, e sua filha Leide das Neves Ferreira o ingere
·  28/9/1987: Maria Gabriela Ferreira entrega a peça na Vigilância Sanitária
·  29/9/1987: o físico Walter Mendes Ferreira mede a radiação e avisa a CNEN
·  23/10/1987: Leide das Neves Ferreira e Maria Gabriela Ferreira não resistem, no Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro
·  27 e 28/10/1987: Israel Baptista dos Santos e Admilson Alves de Souza também não resistem

O relatório da AIEA de 1988 registra cerca de 112 mil pessoas monitoradas no estádio e 249 com contaminação detectada. Das contaminadas, 20 precisaram de internação e 4 perderam a vida em até quatro semanas depois de identificado o acidente.

Roberto dos Santos Alves sobreviveu, mas teve o antebraço amputado por causa da queimadura radioativa (lesão na pele e nos tecidos provocada pela radiação, que surge dias depois da exposição). Wagner Mota Pereira também sobreviveu, com lesões nas mãos. Devair Alves Ferreira sobreviveu à fase aguda e ficou com a saúde comprometida pelo resto da vida.

O enterro de Leide das Neves Ferreira, no Cemitério Parque de Goiânia, foi feito num caixão de chumbo com centenas de quilos, baixado por guindaste. Moradores com medo de contaminação jogaram pedras e tentaram impedir o sepultamento.

A limpeza derrubou casas inteiras. Pelo relatório da AIEA de 1988, o trabalho gerou cerca de 3.500 metros cúbicos de rejeito radioativo: telhas, móveis, roupas, terra raspada dos quintais e até brinquedos, lacrados em tambores e caixas de concreto.

Os rejeitos foram levados para um depósito provisório e, em 1997, transferidos para o repositório definitivo construído pela CNEN em Abadia de Goiás, a cerca de 20 quilômetros da capital.

 

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III  O Documento na Íntegra

O relatório da AIEA e a lei das pensões

O episódio se confere em quatro balcões: a AIEA, a CNEN, o Diário Oficial da União e a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

No relatório da AIEA de 1988: está a reconstituição técnica do acidente, "The Radiological Accident in Goiânia", com a atividade da fonte, as doses estimadas por pessoa, a lista das casas descontaminadas e o volume de rejeito recolhido.

Na CNEN: ficam os registros da resposta de 1987, os dados do repositório de Abadia de Goiás e o monitoramento ambiental que o órgão mantém na área dos rejeitos.

No Diário Oficial da União: está a Lei 9.425, de 24/12/1996, que concedeu pensão especial vitalícia às vítimas do acidente com o césio-137, com valores definidos pelo grau de contaminação e de sequela de cada pessoa.

Na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional: estão os jornais de outubro e novembro de 1987, com as fotografias do Estádio Olímpico, das casas demolidas no Setor Aeroporto e do enterro no Cemitério Parque.

Na divergência: a contagem de vítimas muda conforme a fonte. O relatório da AIEA de 1988 fica nas 4 mortes agudas. A Associação das Vítimas do Césio-137 inclui gente que adoeceu nos anos seguintes, porque trata como vítima quem trabalhou na limpeza e quem morava nos bairros atingidos, e esses casos não passaram por um estudo que ligue cada doença à radiação.

Em 1996, a Justiça Federal em Goiânia condenou por homicídio culposo (sem intenção de matar) três médicos donos do Instituto Goiano de Radioterapia e o físico responsável pela clínica, pela guarda do aparelho abandonado. As penas foram convertidas em prestação de serviço.

A documentação fecha a data, o caminho da cápsula, os nomes das quatro vítimas agudas, o volume de rejeito e a lei das pensões. Fica em aberto quantas pessoas adoeceram depois por causa do césio, porque nenhum estudo acompanhou a população exposta com grupo de comparação por tempo suficiente para separar o efeito da radiação das outras causas de doença.

Dezenove gramas de pó azul, um carrinho de mão e dezesseis dias de brilho no escuro. O que sustenta o episódio é o relatório da AIEA de 1988, a Lei 9.425 de 1996 e os jornais de Goiânia do fim de 1987.

"Quanto de uma cidade cabe numa cápsula do tamanho de um carretel de linha?"

O repositório de Abadia de Goiás e o monitoramento da área seguem sob a CNEN, que publica os relatórios no site oficial. Marque 13/9/2027, quando o acidente completa 40 anos, e reconfira na página da CNEN e no texto da Lei 9.425 no Planalto os dados do repositório e o valor atualizado das pensões antes de citar o caso.

 
 
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Quem levou a cápsula do césio-137 até a Vigilância Sanitária de Goiânia, em 28/9/1987?

ADevair Alves Ferreira, dono do ferro-velho
BMaria Gabriela Ferreira, mulher de Devair
CWalter Mendes Ferreira, físico da Nuclebrás
DIvo Alves Ferreira, irmão de Devair

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