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Um carrinho de mão bastou para espalhar radiação por três bairros de Goiânia.
Goiânia, Goiás, domingo, 13/9/1987. Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira, dois catadores de sucata, entraram nas ruínas do Instituto Goiano de Radioterapia e soltaram a cabeça do aparelho de teleterapia. Puseram a peça num carrinho de mão e a levaram para a casa de Roberto, a poucas quadras dali.
Em casa, os dois começaram a desmontar o conjunto a marteladas e com chave de fenda, atrás do metal que pudesse ser vendido. Na mesma noite, os dois tiveram vômito. Wagner ficou com a mão inchada e uma ferida que os médicos da rede pública trataram como alergia a alguma comida.
Os dois insistiram na peça. Em 18/9/1987, Roberto conseguiu furar a janela da cápsula e viu um pó que soltava faísca azulada. Naquele dia, venderam o que tinham desmontado para o ferro-velho de Devair Alves Ferreira, na Rua 26-A, no Setor Aeroporto.
Devair notou, à noite, que a peça brilhava azul no escuro do galpão. Achou que o material podia valer muito ou ter alguma força sobrenatural. Levou a cápsula para dentro de casa, e durante três dias parentes, vizinhos e amigos foram ver o brilho.
O pó passou de mão em mão. Devair deu pedaços do tamanho de grão de arroz a conhecidos. Um dos empregados dele, Israel Baptista dos Santos, e outro, Admilson Alves de Souza, ajudaram a retirar o césio da cápsula nos dias seguintes.
Em 24/9/1987, Ivo Alves Ferreira, irmão de Devair, levou um pouco do pó para casa e espalhou no chão. Sua filha Leide das Neves Ferreira, de 6 anos, brincou com o material, passou nas mãos e comeu um ovo sem lavá-las. Foi a pessoa que recebeu a maior dose interna de todo o acidente, pelo relatório da AIEA.
A mulher de Devair, Maria Gabriela Ferreira, percebeu que a família inteira adoecia ao mesmo tempo. Em 28/9/1987, pôs a peça numa sacola, tomou um ônibus com um funcionário do ferro-velho e entregou o material na sede da Vigilância Sanitária de Goiânia, dizendo que aquilo estava matando a sua gente.
O césio viajou de ônibus, na sacola de uma dona de casa, até o balcão de uma repartição pública, e foi por esse gesto que Goiânia descobriu o que tinha no quintal.
No dia seguinte, 29/9/1987, o físico Walter Mendes Ferreira, com um contador Geiger (aparelho que mede radiação e estala mais rápido quanto mais forte ela é) emprestado da empresa Nuclebrás, confirmou a radiação e acionou a CNEN. A peça ainda estava no pátio da Vigilância Sanitária.
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