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O paquete Demerara e a grippe que desceu no cais do Recife
Setembro de 1918, porto do Recife: um navio inglês atraca com doentes a bordo e a epidemia segue o roteiro das escalas.
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Recife, 1918: o navio que trouxe a grippe
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"Mal misterioso foi o nome que o Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, deu à doença nas edições de outubro de 1918, quando a capital já tinha rua vazia, farmácia sitiada e escola fechada, e ainda discutia em letra de forma que nome dar ao que derrubava a cidade.
O nome viria depois, e viria errado. A Espanha, neutra na guerra que terminava na Europa, publicava o tamanho da epidemia enquanto os países beligerantes calavam os próprios números, e a doença ficou com a nacionalidade que não era dela.
No Brasil, o caminho da epidemia tem endereço de cais. Em setembro de 1918 atracou no porto do Recife o paquete Demerara, da companhia inglesa Booth, com doentes a bordo. Paquete, no vocabulário portuário do período, era o navio de carreira regular que levava passageiro, carga e mala postal em rota fixa entre portos, com data de saída anunciada em jornal.
O Demerara vinha de Liverpool com escalas na Europa e na África antes de encostar na costa brasileira, e seguiria de Recife para Salvador e para o Rio de Janeiro. O roteiro da embarcação virou, nas semanas seguintes, o roteiro dos primeiros surtos nas três capitais.
O que se sabe do episódio vem de três camadas de papel: os relatórios da Diretoria Geral de Saúde Pública e das repartições sanitárias dos portos, a coleção dos jornais de 1918 guardada na hemeroteca da Biblioteca Nacional e a produção acadêmica que revisitou o assunto desde os anos 1990.
A seção a seguir reconstrói a chegada do navio e as semanas que se seguiram pelo que essa papelada registra: quem inspecionou o casco, por que a quarentena não foi imposta, o que a imprensa publicou enquanto a doença se espalhava e o que aconteceu quando a epidemia chegou ao Rio de Janeiro.
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I O Episódio do Dia
Um casco inglês, três escalas e uma inspeção que liberou o desembarque
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Um casco liberado pela inspeção bastou para abrir a epidemia no país.
Porto do Recife, capital de Pernambuco, segunda quinzena de setembro de 1918. O paquete Demerara, da Booth Steamship Company, linha britânica que ligava Liverpool aos portos do Norte e do Nordeste, encostou no cais com parte da tripulação e dos passageiros febris e com doentes deixados nas escalas anteriores.
A inspeção sanitária examinou a embarcação e liberou o desembarque. Pela doutrina em vigor, a gripe não constava entre as doenças de quarentena obrigatória nos portos brasileiros, lista que trazia febre amarela, peste e cólera. O navio cumpria a norma; a norma não previa o que vinha a bordo.
A doença que desceu no cais tinha curso rápido: febre alta e prostração em poucas horas e, numa fração dos casos, uma pneumonia que fechava o quadro em dias. A população jovem e adulta adoecia com gravidade, padrão que os sanitaristas da época estranharam.
O que o Brasil tinha para enfrentar a chegada, pelo que os relatórios sanitários e a imprensa do período permitem somar:
| · A repartição sanitária dos portos, encarregada de inspecionar casco e tripulação, com poder de quarentena restrito a uma lista que não incluía a gripe
- A Diretoria Geral de Saúde Pública, órgão federal sediado no Rio de Janeiro, responsável pela capital e pela coordenação com os estados
- A imprensa diária, que noticiou o desembarque e passou semanas debatendo se havia epidemia ou alarme
- As santas casas de misericórdia, rede hospitalar religiosa que absorveu o grosso dos doentes nas capitais, sem leito suficiente
- O comércio de farmácia, que esvaziou o estoque de quinino e de antitérmico nas primeiras semanas, com preço subindo a cada dia |
A palavra "grippe", grafada com dois pês nos documentos de 1918, designava um quadro clínico, não um agente identificado. O vírus da influenza só seria isolado em 1933, por Wilson Smith, Christopher Andrewes e Patrick Laidlaw, e a medicina de 1918 atribuía a doença a uma bactéria, o bacilo de Pfeiffer.
Do Recife a epidemia seguiu a rota do navio e a da cabotagem: Salvador adoeceu logo depois, e o Rio de Janeiro registrou os primeiros casos no fim de setembro, com explosão em outubro, quando a capital parou de contar caso a caso e passou a contar por bairro.
A cidade inteira virou enfermaria, e a mocidade foi a que mais caiu. Pedro Nava, Chão de Ferro, 1976, sobre o Rio em 1918 |
No Rio, a resposta oficial trocou de mãos em outubro. Carlos Chagas, do Instituto Oswaldo Cruz, assumiu a direção do combate à epidemia na capital, montou postos de socorro em escolas e prédios cedidos e organizou a entrega de medicamento e de alimento nas casas onde a família inteira estava de cama.
O calendário público parou junto. Escolas fecharam, o comércio reduziu horário e teatros suspenderam sessão. A eleição presidencial correu com a cidade doente, e Francisco de Paula Rodrigues Alves, eleito para o segundo mandato, adoeceu antes da posse e não resistiu em janeiro de 1919.
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II Neste Dia no Brasil
De março de 1918 a janeiro de 1919, do Kansas ao Palácio do Catete
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A epidemia brasileira foi o capítulo tardio de uma onda mundial empurrada pelo transporte de tropas da Primeira Guerra. |
A sequência que a documentação sanitária e a imprensa do período permitem montar:
| · Março de 1918: um surto de gripe de curso rápido é registrado em acampamentos militares dos Estados Unidos, entre eles o Camp Funston, no Kansas
- Maio de 1918: a imprensa espanhola, sem censura de guerra, publica o tamanho do surto no país e empresta à doença o apelido que pegaria no mundo inteiro
- Agosto de 1918: uma segunda onda, muito mais letal, aparece em Brest, na França, em Freetown, na África Ocidental, e em Boston, nos Estados Unidos
- Setembro de 1918: o paquete Demerara atraca no Recife com doentes a bordo, e a repartição sanitária do porto libera o desembarque
- Outubro de 1918: a epidemia toma o Rio de Janeiro, Carlos Chagas assume o comando do combate e a cidade improvisa hospitais em prédios escolares
- Outubro de 1918: São Paulo entra na fase aguda, com o Serviço Sanitário do estado montando postos e a Santa Casa recebendo doentes acima da capacidade
- Novembro de 1918: a curva cede nas capitais do Sudeste, o comércio reabre e a imprensa cobra responsabilidades pela lentidão da resposta
- Janeiro de 1919: Rodrigues Alves, eleito presidente no ano anterior e adoecido antes da posse, não resiste, e Delfim Moreira permanece no exercício do cargo |
A contagem de vítimas continua em disputa. Adriana da Costa Goulart, no artigo "Revisitando a espanhola", publicado em História, Ciências, Saúde-Manguinhos em 2005, mostra que os números atribuídos ao Rio de Janeiro variam conforme a fonte oficial e o critério de registro de cada repartição, e que o total do país costuma ficar na casa das dezenas de milhares.
O registro civil explica boa parte da divergência. Cartórios sobrecarregados anotavam a causa de maneira sumária, e o interior tinha cobertura estatística frágil, quando tinha.
O que a epidemia de 1918 deixou plantado na saúde pública brasileira, verificável em lei, relatório e acervo:
| · A criação do Departamento Nacional de Saúde Pública em 1920, com Carlos Chagas na direção e poder ampliado sobre os estados - A revisão da lista de doenças sujeitas a controle portuário, defasada diante da velocidade do transporte a vapor
- A rede de postos de socorro urbano, experiência que virou modelo para campanhas sanitárias das décadas seguintes
- O vocabulário público da epidemia, com máscara, isolamento domiciliar e proibição de aglomeração debatidos em jornal diário
- Um acervo extenso, entre relatórios, atas de câmara municipal e coleções de jornal, que sustenta a pesquisa sobre o episódio |
A leitura do caso mudou conforme a época. A crônica contemporânea tratou a epidemia como castigo súbito. A pesquisa das últimas três décadas, como o trabalho de Liane Maria Bertucci em "Influenza, a medicina enferma", de 2004, examina a conta inteira: o acesso desigual ao socorro entre bairro central e subúrbio, a atuação das associações de moradores e a disputa entre escolas médicas sobre a natureza da doença.
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