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ED 016

O mapa que trocou Sacramento pelos Sete Povos

13 de janeiro de 1750, Madri: Alexandre de Gusmão apresenta o Mapa das Cortes e sela a troca da Colônia do Sacramento pelos Sete Povos.

Assinatura do Tratado de Madri, em 13 de janeiro de 1750, com o Mapa das Cortes apresentado às duas coroas.

Madri, 13 de janeiro de 1750

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Portugal e Espanha passaram dois séculos e meio discutindo uma linha que ninguém sabia medir. O Tratado de Tordesilhas, de 1494, mandou traçar o meridiano a 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde e deixou o resto para os pilotos resolverem.

Só que os pilotos não resolviam. Calcular latitude no mar era rotina desde o século XV, com quadrante e tábua de declinação. Calcular longitude com precisão dependia de relógio confiável a bordo, coisa que a Europa só passou a ter na segunda metade do século XVIII.

Sem longitude confiável, a linha de Tordesilhas era um argumento, não uma fronteira. Cada corte encomendava a sua carta, e a carta sempre punha o meridiano no lugar que convinha a quem pagou o cartógrafo.

Enquanto a linha ficava indefinida no papel, o continente era ocupado no chão. Bandeirantes paulistas subiam atrás de índio e de metal, vaqueiros abriam currais pelo rio São Francisco, tropas saídas de Belém subiam o Amazonas fundando fortificação, e missionários jesuítas espanhóis erguiam reduções guaranis na margem oriental do rio Uruguai.

No extremo sul, o atrito virou instalação permanente. Em 1680, os portugueses fundaram a Colônia do Sacramento na margem norte do Prata, quase em frente a Buenos Aires, dentro do que a Espanha considerava seu por Tordesilhas.

Sacramento não era povoado de lavoura. Era entreposto de contrabando: prata de Potosí saindo pelo estuário sem pagar imposto a Madri, mercadoria inglesa e portuguesa entrando pelo mesmo caminho.

A praça foi sitiada, tomada e devolvida em sucessivos acordos europeus, sempre por causa de guerra decidida em outro continente. No começo do século XVIII, as duas cortes já sabiam que aquilo se repetiria enquanto o mapa não tivesse dono.

A janela para negociar veio pelo casamento. A infanta portuguesa Bárbara de Bragança, filha de D. João V, estava casada com Fernando VI, que subiu ao trono espanhol em 1746, e o casal preferia acerto a campanha militar.

Faltava alguém capaz de transformar disposição diplomática em texto de tratado, com carta geográfica que sustentasse cada linha proposta. Esse alguém tinha nascido em Santos, estudado em Coimbra, Paris e Roma, e ocupava a secretaria particular do rei português.

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I  O Episódio do Dia

A troca fechada numa manhã de janeiro

A troca foi fechada no papel, e o mapa que a sustentava foi para a mesa.

13 de janeiro de 1750, Madri. Os plenipotenciários das duas coroas assinam o tratado de limites entre as possessões da América do Sul, negociado ao longo dos anos anteriores em correspondência reservada.

Pela Espanha assina José de Carvajal y Lancáster, ministro de Estado de Fernando VI. Por Portugal assina Tomás da Silva Teles, visconde de Vila Nova de Cerveira, embaixador em Madri.

O nome que costura o texto não está entre os assinantes de maior pompa. Alexandre de Gusmão, secretário particular de D. João V, é quem redige os artigos, prepara os argumentos e alinha o material cartográfico apresentado à corte espanhola.

O tratado começa fazendo o que nenhum acordo anterior tinha feito: declara extinto o meridiano de 1494 e as pretensões fundadas nele. Sai a linha imaginária, entra outro critério.

Ficarão abolidas todas as ações e direitos que possam alegar-se em virtude do Tratado de Tordesilhas.

Tratado de Madri, artigo I, 1750

O critério que substitui a linha é o da posse efetiva. Cada corte fica com o território que já ocupa e administra, e a fronteira passa a ser desenhada por acidente natural reconhecível no terreno: rio de curso conhecido, cordilheira, divisor de águas.

O princípio ficaria conhecido pela fórmula jurídica romana do uti possidetis. Na prática, o que ele fez foi converter dois séculos de expansão portuguesa para oeste em direito reconhecido pela outra parte.

A troca do sul é o preço dessa conversão, e está escrita em termos diretos. Portugal entrega a Colônia do Sacramento e a navegação exclusiva do Prata. A Espanha entrega os Sete Povos das Missões, o bloco de reduções jesuíticas na margem oriental do rio Uruguai.

O balanço da troca cabe em quatro linhas:

·  Portugal cede: Colônia do Sacramento, no estuário do Prata
·  Portugal recebe: os Sete Povos das Missões, a leste do rio Uruguai
·  Portugal consolida: a bacia amazônica e o oeste do Mato Grosso ocupados por posse
·  Espanha consolida: o controle exclusivo da entrada do Prata

O argumento que sustenta a barganha vem do papel. Em 1749, o lado português apresenta a carta que a diplomacia batizou de Mapa das Cortes, feita para mostrar quem estava instalado em cada margem.

O mapa não é neutro, e ninguém na mesa fingia que fosse. Ele desloca o traçado de modo a estreitar o continente na região do Prata, o que faz Sacramento parecer mais funda em terreno espanhol do que uma carta rigorosa mostraria.

Ao mesmo tempo, ele registra com detalhe as fundações, fortes, aldeias e missões portuguesas do interior, exatamente o que interessava provar. Quem discutisse a posse teria de discutir ponto por ponto.

A assinatura de 13 de janeiro resolve o texto e abre o problema seguinte. Trocar território no papel é rápido, mas os Sete Povos tinham gente dentro: dezenas de milhares de guaranis aldeados, com estâncias de gado, oficinas e igrejas de pedra construídas ao longo de mais de um século.

O tratado manda que a população se retire para o outro lado do rio, deixando as construções e levando os bens móveis. A ordem foi recusada no terreno, e a resistência guarani se estendeu por anos até ser vencida por tropas conjuntas das duas coroas.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

De 1750 a 1777, o texto que morreu e o critério que ficou

O acordo de janeiro de 1750 teve vida curta como documento. Onze anos depois, em 1761, as duas coroas assinaram o Tratado de El Pardo, que anulou Madri e devolveu formalmente as partes ao estado anterior.

A anulação tinha causa política dos dois lados. Em Portugal, Gusmão já tinha morrido e o marquês de Pombal comandava o governo com outra leitura do sul; na Espanha, Carlos III sucedera Fernando VI e considerava a troca desvantajosa.

A questão voltou para a guerra. Sacramento mudou de mãos outra vez, as missões viraram campo de operação militar, e o mapa do sul continuou aberto por mais de uma década.

Em 1777, o Tratado de Santo Ildefonso recompôs o acordo por escrito. Portugal abriu mão de Sacramento em definitivo, a Espanha ficou com os Sete Povos, e a demarcação voltou a ser conduzida por comissões mistas em campo.

O ciclo de tratados do sul aparece melhor em lista do que em parágrafo:

·  1494: Tordesilhas fixa um meridiano que ninguém consegue medir
·  1750: Madri abole o meridiano e adota a posse efetiva
·  1761: El Pardo anula Madri e devolve a disputa às armas
·  1777: Santo Ildefonso refaz o acerto e retoma a demarcação

O que salta da lista é a diferença entre o texto e o critério. Os textos foram assinados, revogados e substituídos em menos de trinta anos, ao sabor de quem estava no trono e de qual guerra europeia corria no momento.

O critério de 1750 não foi revogado por nenhum deles. Santo Ildefonso manteve a lógica da posse e do acidente natural, e as comissões de campo continuaram medindo rio, serra e divisor de águas como Madri tinha mandado.

Mais de um século depois, o mesmo princípio voltou a ser usado nas arbitragens de fronteira conduzidas pela diplomacia brasileira, com o Barão do Rio Branco montando dossiê de ocupação efetiva para sustentar posição em disputas com vizinhos.

A herança prática é visível no formato do país. O Brasil que se desenhou não é o Brasil da linha de 1494, e sim o Brasil de quem estava instalado nos rios, nos currais e nos fortes quando o critério mudou.

A tese tem o custo que toda tese tem. Reconhecer posse efetiva significa aceitar que a ocupação anterior, incluindo apresamento de indígenas e avanço armado sobre missão, virou fundamento jurídico depois do fato consumado.

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III  O Documento na Íntegra

Onde o tratado e o mapa podem ser lidos

O episódio se confere em cinco balcões: os arquivos portugueses, os arquivos espanhóis, o acervo diplomático brasileiro, a mapoteca e a bibliografia acadêmica.

No Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa: ficam os papéis do Conselho Ultramarino sobre limites da América, com correspondência das capitanias, informações de fronteira e material preparatório da negociação.

Na Torre do Tombo: estão os tratados e a documentação da secretaria de Estado do reinado de D. João V, incluindo a papelada em torno do secretário particular que redigiu o acordo.

No Archivo General de Simancas e no Archivo General de Indias: ficam os registros da corte de Fernando VI e a documentação das autoridades espanholas do Prata e do Paraguai sobre a execução do tratado e a retirada das missões.

Na mapoteca: a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, e a Biblioteca Nacional de Espanha guardam exemplares e cópias do Mapa das Cortes e da cartografia de demarcação produzida pelas comissões mistas.

No acervo diplomático: o Arquivo Histórico do Itamaraty reúne a documentação usada pela chancelaria brasileira nas arbitragens de fronteira, onde o argumento de posse efetiva foi retomado com base no ciclo de 1750 a 1777.

Na bibliografia: a edição comentada da documentação do tratado organizada por Jaime Cortesão, publicada pelo Itamaraty a partir de 1950, é a porta de entrada, e os estudos posteriores de história da cartografia revisam suas conclusões.

Na divergência: o grau de autoria de Gusmão sobre o Mapa das Cortes é discutido, a intenção da distorção cartográfica é lida de formas diferentes conforme o autor, e o número de habitantes dos Sete Povos varia bastante entre as fontes da época.

Ao citar o caso, use o nome do tratado, a data e o critério adotado, nunca a frase pronta de que um único diplomata desenhou o Brasil sozinho. O critério resiste à contestação; a frase de efeito não resiste.

A documentação fecha a assinatura em Madri, o teor dos artigos, a apresentação da carta às duas cortes, a troca de Sacramento pelas missões e a anulação de 1761.

Fica em aberto o detalhe da mesa: quem falou o quê nas conversas reservadas, quanto cada rei sabia da distorção do mapa e em que medida o texto final refletia o projeto original do secretário.

O que 1750 entregou não foi um território novo. Foi a substituição de uma linha impossível de medir por uma pergunta possível de responder: quem está lá.

"Quando a régua não alcança o terreno, o que decide a fronteira: o meridiano escrito no acordo antigo ou o povoado erguido na margem?"

 
 
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No Tratado de Madri de 1750, o que Portugal recebeu da Espanha em troca da Colônia do Sacramento?

AA navegação exclusiva do rio Prata
BOs Sete Povos das Missões, bloco de reduções jesuíticas a leste do rio Uruguai
CA bacia amazônica ocupada por posse
DO oeste do Mato Grosso

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