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O hidroavião Jahú aponta em Noronha em 1927

Abril de 1927, Fernando de Noronha: um hidroavião vindo de Cabo Verde encosta na ilha e fecha uma travessia do Atlântico Sul bancada por uma família.

Hidroavião de casco duplo fundeado na água abrigada de Fernando de Noronha, ao fim da travessia do Atlântico Sul vinda de Cabo Verde, em abril de 1927.

Noronha, 1927: o hidroavião Jahú chega

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"O hydroplano 'Jahú' chegou a Fernando de Noronha", estampou O Estado de S. Paulo de 29 de abril de 1927. A nota tinha meia dúzia de linhas e trazia menos do que os leitores queriam: não dizia quantas horas o aparelho ficara sobre a água aberta, não trazia o consumo de combustível na chegada e não explicava por que a tripulação demorara meses para tentar o trecho final.

O aparelho era um hidroavião italiano de casco duplo, comprado de segunda mão na Europa por um fazendeiro de café do interior paulista. Não havia patrocínio de governo, não havia contrato de companhia aérea e não havia prêmio em dinheiro à espera de quem chegasse. A conta da viagem saiu das fazendas da família Ribeiro de Barros, no município de Jaú.

Quando a tripulação deixou a Europa, em outubro de 1926, o Atlântico Sul já tinha sido cruzado por via aérea uma vez, pelos portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral em 1922. O que ainda não existia era uma travessia feita por brasileiros, em aparelho de propriedade particular brasileira, com a bandeira do país pintada no casco.

Entre a partida da Itália e a chegada em Noronha passaram-se quase sete meses. O percurso incluiu avaria de motor, aparelho parado em oficina, dinheiro que acabou no meio do caminho, troca de tripulantes e uma acusação de contrabando que a imprensa da época tratou como escândalo antes de tratar como episódio de aviação.

O que aconteceu entre a decolagem em Cabo Verde e o toque na água de Noronha ficou registrado em três lugares distintos: o diário de bordo da tripulação, a correspondência oficial da capitania e do governo do território, e as colunas dos jornais que acompanharam a viagem trecho a trecho. A seção a seguir reconstrói essa etapa a partir do que esses rastros dizem, e do que eles deixaram sem fechar.

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I  O Episódio do Dia

Nove horas de água aberta até a ilha

Uma decolagem de madrugada em Cabo Verde põe quatro brasileiros sobre o Atlântico Sul sem escala possível.

Baía de Porto Praia, arquipélago de Cabo Verde, madrugada de 28 de abril de 1927. O hidroavião levantou da água carregado de combustível, com quatro homens a bordo e sem escala possível pela frente. Dali até a costa brasileira mais próxima havia oceano ininterrupto, e o único ponto de pouso viável no meio do caminho era a própria ilha de destino.

A tripulação que fez o trecho era formada por João Ribeiro de Barros, o dono do aparelho e comandante, o piloto João Negrão, o navegador Newton Braga e o mecânico Vasco Cinquini. Braga cuidava da navegação astronômica, Cinquini vigiava os dois motores, e a divisão de tarefas ficou assim porque o aparelho não comportava mais gente com aquela carga de gasolina.

Um hidroavião de casco duplo tem uma vantagem específica sobre a água aberta: ele flutua e permite pouso forçado em mar razoavelmente calmo. A vantagem some quando o mar não está calmo, e ninguém a bordo tinha como saber, ao decolar, qual seria o estado da superfície no ponto em que o combustível terminasse.

O que a documentação da viagem registra sobre a etapa:

·  A data da travessia final, 28 de abril de 1927, entre Cabo Verde e Fernando de Noronha
·  O aparelho, hidroavião Savoia-Marchetti S.55 de casco duplo, batizado Jahú, com registro brasileiro
·  A tripulação, quatro homens, com navegação feita a bordo por observação astronômica e estima
·  O ponto de chegada, a água abrigada de Fernando de Noronha, então território sob administração de Pernambuco
·  A origem do dinheiro, recursos particulares da família Ribeiro de Barros, sem verba pública envolvida

Um fazendeiro de café do interior paulista comprou um hidroavião usado na Europa, montou tripulação e cruzou o Atlântico Sul com dinheiro que saiu das próprias fazendas.

Jahú. Hydro-avião Savoia-Marchetti, typo S-55, dois motores, matriculado no Brasil, proprietário João Ribeiro de Barros.

Registro de aeronaves civis, Ministério da Viação e Obras Públicas, 1927

A chegada em Noronha não encerrou a viagem. Depois do pouso na ilha, o Jahú seguiu para Natal, e de lá desceu a costa em etapas até Santo Amaro, na represa junto à capital paulista, onde a recepção de 14 de maio de 1927 reuniu multidão nas margens e virou fotografia de primeira página.

A demora de meses entre a partida da Itália e o trecho final tem explicação documentada em várias frentes. O aparelho original sofreu avaria e foi substituído, houve pane e reparo em oficina europeia, e a tripulação inicial se desfez no caminho, com um dos participantes morrendo em acidente antes da etapa oceânica.

Sobre a acusação de contrabando levantada contra a expedição enquanto ela estava parada, o processo não prosperou e a imprensa que a alimentou recuou depois da chegada. Por que a denúncia surgiu exatamente no período em que a expedição buscava crédito para seguir é pergunta que a documentação não responde.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

Do hangar italiano à represa de Santo Amaro

A aviação transatlântica dos anos 1920 era assunto de Estado em quase todo lugar. Governos bancavam raide, marinhas emprestavam navio de apoio, fabricantes cediam aparelho para propaganda. A expedição do Jahú correu por fora desse arranjo, e a diferença aparece no ritmo: cada etapa dependia de uma remessa de dinheiro chegando a tempo.

O município de Jaú, no centro-oeste paulista, vivia de café e do transporte ferroviário que escoava a safra. A fortuna que financiou o aparelho tinha essa origem, e o nome da cidade foi para o casco por decisão do proprietário, o que colocou um topônimo do interior de São Paulo em telegrama de agência internacional.

A sequência que a documentação permite montar:

·  1926: João Ribeiro de Barros compra na Itália o hidroavião e prepara a expedição com recursos da família
·  1926: em outubro, a tripulação parte da Europa e começa a descer a costa africana em etapas
·  1926: o primeiro aparelho sofre avaria e a viagem trava por meses entre reparo, substituição e falta de recursos
·  1927: a expedição se reorganiza em Cabo Verde com quatro tripulantes e prepara o salto oceânico
·  1927: em 28 de abril, o Jahú decola de Porto Praia e alcança Fernando de Noronha
·  1927: em maio, o aparelho segue para Natal e desce a costa brasileira em etapas
·  1927: em 14 de maio, a chegada a Santo Amaro reúne multidão às margens da represa

A repercussão foi imediata e desigual. A imprensa paulista tratou o feito como assunto de casa, com cobertura diária e edições especiais. Parte da imprensa carioca relativizou o alcance da travessia comparando o raide particular aos voos oficiais europeus do período, e a disputa sobre o mérito atravessou meses de coluna assinada.

O aparelho sobreviveu ao seu tempo, o que é raro em aviação dos anos 1920. Depois de retirado de operação, o Jahú passou por armazenamento, restauro e mudanças de guarda até se fixar como peça de acervo, situação que o separa da maioria dos aviões de raide da mesma década, desmontados ou perdidos.

O que veio depois, verificável na documentação posterior:

·  O aparelho foi preservado e integra acervo museológico em São Paulo, aberto à visitação pública
·  O nome do proprietário batiza aeroporto, avenida e escola no interior paulista 
·  A data de 28 de abril entrou no calendário de efemérides da aviação civil brasileira 
·  Documentos, fotografias e objetos da expedição foram distribuídos entre acervo familiar e instituições públicas 
·  A rota do raide virou referência em estudos sobre aviação comercial transatlântica no Atlântico Sul 

Em Jaú, a memória da travessia nunca dependeu de arquivo. Famílias ligadas à expedição e à cidade guardaram fotografia, recorte de jornal e objeto de bordo por gerações, e parte do que se conta sobre os meses de espera na África vem dessa transmissão doméstica, não de papel oficial.

 

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III  O Documento na Íntegra

Onde a travessia virou papel e acervo

O episódio se confere em cinco balcões: o Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, a Biblioteca Nacional, o Museu Asas de um Sonho, em São Carlos, o Arquivo Público do Estado de São Paulo e o acervo do Museu Aeroespacial, na Força Aérea Brasileira.

No Museu Asas de um Sonho: está o próprio hidroavião restaurado, com a documentação de restauro, as peças originais recolhidas e o material fotográfico associado ao aparelho.

Na Biblioteca Nacional: está a hemeroteca digital, com as coleções de O Estado de S. Paulo, do Correio Paulistano, do Jornal do Commercio e das revistas ilustradas que cobriram a chegada a Santo Amaro em maio de 1927.

No Arquivo Nacional: correm os papéis federais de matrícula de aeronave, a correspondência sobre o território de Fernando de Noronha no período e os autos ligados à acusação de contrabando movida contra a expedição.

No Arquivo Público do Estado de São Paulo: ficam os registros das autoridades paulistas sobre a recepção oficial, a documentação da represa de Santo Amaro e os papéis do município de Jaú relativos à homenagem ao proprietário.

Na divergência: o tempo exato de voo do trecho Cabo Verde a Noronha muda conforme a fonte, a composição da tripulação nas etapas anteriores varia entre relatos, e os detalhes da acusação de contrabando aparecem de forma incompleta nas versões publicadas.

Ao citar o episódio, use a data de 28 de abril de 1927 para a chegada a Fernando de Noronha, a de 14 de maio de 1927 para a recepção em Santo Amaro, o nome do aparelho e o financiamento particular, nunca um tempo de voo sem indicar de qual fonte ele saiu.

A documentação fecha a data da travessia, o modelo e a matrícula do aparelho, a origem particular do dinheiro e o destino final da aeronave, que continua preservada e visitável.

Fica em aberto o número de horas que o aparelho levou de Porto Praia até a ilha, já que os relatos de bordo e as notas de jornal divergem entre si, e o desfecho formal da denúncia de contrabando, já que os autos não circularam em versão integral publicada.

Um hidroavião usado, quatro homens e uma conta paga por lavoura de café. O que sobra de duro são o registro de matrícula, a correspondência oficial da chegada e a coleção dos jornais daquelas semanas, e é por esse rastro de papel que o episódio se sustenta.

"Quando a única contabilidade da viagem foi doméstica, o que exatamente se está medindo ao chamar o feito de proeza nacional?"

Os papéis federais estão no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, e as coleções dos jornais daquelas semanas estão na hemeroteca da Biblioteca Nacional. Marque 28 de abril, data da chegada a Fernando de Noronha, quando os acervos e o museu costumam liberar material sobre o raide, para reconferir datas, tempos de voo e nomes nesses dois lugares antes de citar qualquer trecho deste episódio.

 
 

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