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O gol de Ghiggia cala o Maracanã em 1950

16 de julho de 1950, Maracanã: 173.850 pagantes, o discurso de campeão impresso e um chute rasteiro aos 34 do segundo tempo.

Arquibancada lotada do Maracanã em 16 de julho de 1950, no jogo final da Copa do Mundo entre Brasil e Uruguai.

Maracanã, 1950: a decisão da Copa

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"Estes são os campeões do mundo", publicou o jornal carioca O Mundo na primeira página da manhã de 16 de julho de 1950, sobre uma fotografia da seleção brasileira posada. A edição circulou nas bancas do Rio horas antes de a bola rolar na decisão contra o Uruguai, e o texto não trazia condicional nenhuma.

A antecipação não era invenção de um jornal só. O regulamento daquela Copa não previa final eliminatória, e sim um quadrangular final entre quatro seleções, em que o título saía da soma dos pontos. O Brasil chegou ao último jogo com dois pontos de vantagem sobre o Uruguai, o que significava que um empate bastava para a taça ficar no Rio.

O estádio existia havia pouco mais de um ano e ainda não estava concluído. As obras do Maracanã tinham começado em 1948, o gramado recebeu jogo pela primeira vez em junho de 1950, e no dia da decisão faltavam acabamento, banheiros prontos e parte das cabines de imprensa, com operários trabalhando enquanto o público entrava.

O que o borderô oficial da partida registrou foi 173.850 pagantes. O número dos que estiveram de fato dentro do estádio nunca foi fechado, porque convites, autoridades, imprensa, funcionários e gente que entrou sem bilhete ficaram fora da contagem de bilheteria, e cada instituição publicou desde então um total diferente para a lotação real daquela tarde.

Em campo, o roteiro previsto durou quarenta e sete minutos. O Brasil abriu o placar logo no início do segundo tempo, o Uruguai empatou aos vinte e um minutos da etapa final, e aos trinta e quatro veio o chute que mudou o resultado. Entre esses dois lances passaram treze minutos de jogo, e o que se conta sobre eles varia conforme quem conta.

A seção a seguir reconstrói a partida minuto a minuto pelo que restou de registro duro: a súmula do árbitro inglês George Reader, as transmissões de rádio gravadas, o borderô da bilheteria e as edições dos jornais do dia seguinte.

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I  O Episódio do Dia

Treze minutos entre o empate e o silêncio

Uma tarde de julho no Maracanã põe o título ao alcance de um empate e o tira em treze minutos.

Maracanã, Rio de Janeiro, tarde de 16 de julho de 1950. O apito inicial saiu às quinze horas, com arbitragem do inglês George Reader, escalado pela FIFA para a partida que decidia o quadrangular final. O Brasil entrou de branco, o Uruguai de azul, e o primeiro tempo terminou sem gol.

A escalação brasileira tinha Barbosa no gol, Augusto como capitão, Juvenal e Bigode na defesa, Bauer e Danilo no meio, e a linha de ataque com Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. O técnico era Flávio Costa. Do lado uruguaio, o capitão era Obdulio Varela, e o time vinha de um empate apertado com a Espanha e de uma virada sobre a Suécia.

Aos dois minutos do segundo tempo, Friaça recebeu na ponta direita e bateu cruzado. O Brasil passou a jogar com um ponto de vantagem que já lhe bastava, e o Uruguai precisava então de dois gols para levar a taça. O estádio passou a tratar a tarde como formalidade.

O que a súmula e as transmissões permitem fixar sobre a partida:

·  A data e o palco, 16 de julho de 1950, estádio do Maracanã, ainda em obras de acabamento
·  O árbitro, o inglês George Reader, designado pela FIFA para a partida decisiva
·  O placar, Uruguai 2, Brasil 1, com gols de Friaça, Schiaffino e Ghiggia
·  O público de bilheteria, 173.850 pagantes registrados no borderô oficial da partida
·  O regulamento, quadrangular final por pontos corridos, sem prorrogação nem desempate marcado

O Brasil não precisava vencer a partida, precisava apenas não perder, e foi essa margem confortável que transformou dois gols em treze minutos numa reviravolta sem recurso.

Uruguay 2, Brazil 1. Half time: 0-0. Attendance: 173,850. Referee: George Reader, England.

Súmula oficial da partida final, Fédération Internationale de Football Association, 1950

Aos vinte e um minutos da etapa final, Ghiggia avançou pela direita e rolou para Schiaffino, que empatou. O gol não mudava o título de mãos, porque o empate ainda dava a taça ao Brasil, mas mudou o ritmo do jogo e devolveu ao Uruguai a posse no campo de ataque.

Treze minutos depois, aos trinta e quatro do segundo tempo, Ghiggia fez de novo o mesmo movimento pela direita. Barbosa saiu esperando o cruzamento, e o chute foi rasteiro, no canto curto. O placar virou para Uruguai 2 a 1, e restavam onze minutos de partida.

O som que ficou documentado desses onze minutos finais é a ausência de som. Locutores de rádio que transmitiam ao vivo relataram depois ter interrompido a narração, e as fotografias do estádio no apito final mostram arquibancada em pé e parada. O presidente da FIFA, Jules Rimet, levava um discurso preparado em francês para a entrega da taça ao capitão brasileiro, e acabou entregando o troféu a Obdulio Varela quase sem cerimônia, no gramado.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

Do canteiro de obras ao boletim da imprensa

O Maracanã foi construído para aquela Copa e virou argumento político antes de virar estádio. A prefeitura do Distrito Federal abriu a concorrência em 1947, a obra começou em agosto de 1948, e a disputa sobre o local escolhido ocupou a Câmara dos Vereadores durante meses, com parlamentares defendendo terrenos alternativos em Jacarepaguá.

A Copa de 1950 foi a primeira disputada depois de doze anos de interrupção. O torneio de 1942 e o de 1946 não aconteceram por causa da guerra, e a edição brasileira reuniu treze seleções, com desistências de última hora que obrigaram a FIFA a remontar os grupos já com o calendário publicado.

A sequência que os documentos permitem montar:

·  1946: a FIFA confirma o Brasil como sede do torneio seguinte, em congresso realizado em Luxemburgo
·  1947: a prefeitura do Distrito Federal abre a concorrência para o estádio e a disputa pelo terreno vai à Câmara
·  1948: em agosto, começam as obras no terreno do antigo hipódromo, no bairro do Maracanã
·  1950: em junho, o estádio recebe jogo pela primeira vez, ainda sem acabamento concluído
·  1950: em 16 de julho, o Uruguai vence a partida final por 2 a 1 diante de 173.850 pagantes
·  1950: em julho, os jornais que haviam antecipado o título recolhem edições e refazem manchete
·  1965: o estádio recebe oficialmente o nome de Jornalista Mário Filho, por lei municipal

A repercussão na imprensa dividiu-se rápido em duas frentes. Uma parte da cobertura tratou o resultado como acidente de percurso de um time superior, com reportagem técnica sobre o lance do segundo gol. Outra parte transformou a derrota em julgamento moral coletivo, e três jogadores negros da seleção, Barbosa, Bigode e Juvenal, concentraram a responsabilização pública durante décadas.

Barbosa contou em entrevistas dos anos 1990 que continuava sendo reconhecido na rua e cobrado pelo gol, quarenta anos depois da partida. O episódio dele é o mais documentado dos três, com registro em vídeo, em entrevista de jornal e em livro de reportagem publicado ainda em vida.

O que veio depois, verificável na documentação posterior:

·  A seleção trocou o uniforme branco pela camisa amarela, definida por concurso de desenho realizado em 1953 
·  O estádio passou por reformas em 2000, 2006 e 2013, e a capacidade caiu para menos de 80 mil lugares 
·  O borderô de 1950 segue citado como recorde de público pagante para uma partida de futebol 
·  A partida virou objeto de livro de reportagem, documentário e tese acadêmica no Brasil e no Uruguai 
·  O termo que nomeia o episódio entrou nos dicionários da língua portuguesa como substantivo comum 

No Uruguai, a mesma tarde recebeu tratamento inverso e igualmente duradouro. A data entrou no calendário de efemérides esportivas do país, os nomes dos onze titulares viraram referência escolar, e o relato da partida é ensinado lá como episódio fundador, com bibliografia própria publicada em Montevidéu.

 

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III  O Documento na Íntegra

Onde a final de 1950 deixou papel

O episódio se confere em cinco balcões: o Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, a Biblioteca Nacional, o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, o Museu do Futebol, em São Paulo, e o arquivo da FIFA, em Zurique.

Na Biblioteca Nacional: está a hemeroteca digital, com as coleções do Jornal dos Sports, do Correio da Manhã, do Diário de Notícias e de O Globo nas semanas de julho de 1950, inclusive as edições de véspera que anteciparam o título.

No Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro: ficam os papéis da prefeitura sobre a concorrência, o projeto e a execução das obras do estádio, além dos debates da Câmara dos Vereadores sobre a escolha do terreno.

No arquivo da FIFA: estão a súmula da partida, o relatório do árbitro, a tabela do quadrangular final e o relatório oficial do torneio, publicado depois da competição.

No Museu do Futebol: estão o acervo de objetos, fotografias e depoimentos em vídeo sobre a partida, incluindo entrevistas gravadas com jogadores e com espectadores presentes no estádio.

Na divergência: o público real da partida muda conforme a fonte, porque só o total de pagantes foi registrado, e o minuto exato dos gols aparece com variação de um minuto entre a súmula, as rádios e os jornais.

Ao citar o episódio, use a data de 16 de julho de 1950, o placar de 2 a 1 para o Uruguai, o número de 173.850 pagantes sempre identificado como borderô de bilheteria, e nunca um total de público presente sem indicar de qual fonte ele saiu.

A documentação fecha a data, o placar, a arbitragem, o regulamento do quadrangular e o número de bilhetes vendidos.

Fica em aberto quantas pessoas de fato estavam dentro do estádio, já que a contagem de cortesias e de entradas irregulares nunca foi consolidada, e o teor exato do discurso que Jules Rimet levava preparado, já que o texto não circulou em versão integral publicada.

Um estádio inacabado, um regulamento que dispensava a vitória e treze minutos de segundo tempo. O que sobra de duro são a súmula do árbitro, o borderô da bilheteria e as coleções dos jornais daquela semana, e é por esse rastro de papel que o episódio se sustenta.

"Quando a manchete sai antes do apito, o que exatamente está sendo noticiado?"

A súmula e o relatório do torneio estão no arquivo da FIFA, em Zurique, e as edições de julho de 1950 estão na hemeroteca da Biblioteca Nacional. Marque 16 de julho, data da partida, quando os acervos e o museu costumam liberar material sobre a decisão, para reconferir placar, minutagem e números de público nesses dois lugares antes de citar qualquer trecho deste episódio.

 
 

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