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O céu de Sobral abriu na hora certa
29 de maio de 1919, 8h55 da manhã: as nuvens rasgam sobre o Jockey Club e sete chapas de vidro registram a luz das estrelas fora do lugar.
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Jockey Club de Sobral, 29 de maio de 1919
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Berlim, 25 de novembro de 1915. Albert Einstein leu diante da Academia Prussiana de Ciências as equações finais da relatividade geral e, junto com elas, entregou uma conta que qualquer astrônomo poderia conferir com uma câmera fotográfica.
A conta dizia o seguinte: a luz de uma estrela que passasse raspando a borda do Sol chegaria à Terra desviada em 1,75 segundo de arco, o dobro do desvio que a gravitação de Newton admitia. Um número miúdo, e verificável.
O problema é que ninguém enxerga estrela nenhuma ao lado do Sol. O brilho do dia apaga tudo em volta. A única janela era um eclipse total, com a Lua tapando o disco por alguns minutos e devolvendo o céu estrelado no meio da manhã. Eclipse total acontece em algum ponto do planeta a cada ano e meio, quase sempre em cima de mar aberto ou de deserto sem estrada.
O eclipse de 29 de maio de 1919 era o melhor da geração. A totalidade seria longa, acima de cinco minutos, e o Sol estaria bem na frente das Híades, o aglomerado de estrelas brilhantes da constelação de Touro. Campo cheio, exposição farta.
A faixa de sombra cruzava o Atlântico entre o norte do Brasil e a África. Frank Dyson, o Astrônomo Real britânico, montou duas expedições: uma para a ilha de Príncipe, com Arthur Eddington e Edwin Cottingham, outra para o Ceará, com Andrew Crommelin e Charles Davidson.
Sobral entrou na lista por indicação de Henrique Morize, diretor do Observatório Nacional, que garantiu o céu seco do sertão no fim de maio. A cidade tinha trem vindo de Camocim, linha de telégrafo e um terreno plano no Jockey Club, na Praça Senador Figueira.
Os ingleses armaram os instrumentos ali. A comissão brasileira ficou na Praça do Patrocínio, e dois americanos mediram magnetismo terrestre e eletricidade atmosférica no mesmo dia. Tudo dependia de cinco minutos de uma quinta-feira de manhã.
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I O Episódio do Dia
As sete chapas do Jockey Club
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Cinco minutos de céu aberto no sertão do Ceará bastaram para fotografar estrelas que ninguém deveria estar vendo às nove da manhã.
Quinta-feira, 29 de maio de 1919, terreno do Jockey Club de Sobral. Os dois telescópios estavam deitados no chão desde o mês anterior, apontados para espelhos que giravam devagar e jogavam a imagem do Sol lá dentro.
O maior era o astrográfico de 13 polegadas, emprestado do Observatório de Greenwich. O menor era uma lente de 4 polegadas, cedida pelo padre Aloysius Cortie, do observatório de Stonyhurst, montada como reserva.
Crommelin e Davidson cuidavam do time inglês. A comissão brasileira, com Henrique Morize, Domingos Fernandes Costa, Allyrio Hugueney de Mattos e Lélio Gama, observava a poucas quadras dali. Os americanos Daniel Wise e Andrew Thomson montaram os aparelhos de magnetismo.
O céu amanheceu coberto. O primeiro contato da Lua com o disco solar apareceu por trás de nuvem, e durante a fase parcial os dois times olharam mais para o horizonte do que para o telescópio. As nuvens rarearam pouco antes do fim da parcial.
Às 8h55, a Lua fechou o disco. A totalidade em Sobral durou 5 minutos e 13 segundos, e nesse intervalo o céu estava aberto o bastante para as chapas. Um observador cantava os segundos em voz alta enquanto as placas de vidro entravam e saíam do suporte.
Saíram 19 chapas no astrográfico e 7 chapas boas na lente pequena. A revelação foi feita em Sobral mesmo, nos dias seguintes ao eclipse.
As chapas do astrográfico saíram borradas. O calor da manhã deformou o espelho que alimentava o telescópio, o foco mudou no meio da observação e as estrelas viraram manchas alongadas. As sete chapas da lente de 4 polegadas saíram limpas.
Uma chapa de eclipse sozinha não prova nada. É preciso fotografar o mesmo pedaço de céu sem o Sol na frente e comparar posição por posição. Os dois ingleses ficaram em Sobral até julho.
Entre 11 e 18 de julho de 1919, com o mesmo instrumento, no mesmo terreno e na mesma altura do céu, fotografaram o campo das Híades limpo. Só então embarcaram de volta com as caixas de vidro.
A prova coube em sete chapas de vidro que passaram seis semanas esperando o céu repetir a mesma cena.
A medição fina foi feita em Greenwich. A lente de 4 polegadas devolveu um desvio de 1,98 segundo de arco. Príncipe, com o céu quase todo tomado por nuvem, devolveu 1,61. A previsão de Einstein era 1,75, e a metade newtoniana, 0,87.
O relatório publicado em 1920 descartou o conjunto do astrográfico por causa do foco perdido e apoiou a conclusão nas chapas boas de Sobral somadas às de Príncipe.
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Os resultados das expedições a Sobral e a Príncipe deixam pouca dúvida de que existe um desvio da luz na vizinhança do Sol, e de que ele é da ordem exigida pela teoria generalizada da relatividade de Einstein, atribuível ao campo gravitacional solar.
Frank Dyson, Arthur Eddington e Charles Davidson, A Determination of the Deflection of Light by the Sun's Gravitational Field (1920)
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O nome da cidade entrou no relatório escrito do mesmo jeito que se escreve no Ceará.
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II Neste Dia no Brasil
De Camocim a Burlington House
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A viagem começou em 8 de março de 1919, quando os dois times ingleses embarcaram juntos em Liverpool, no vapor Anselm. Na Madeira, Eddington e Cottingham trocaram de navio rumo a Príncipe, e Crommelin e Davidson seguiram para o Brasil.
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Chegaram a Belém em 23 de março, subiram o Amazonas até Manaus no mesmo navio e voltaram a Belém em 8 de abril.
De lá pegaram um vapor costeiro até Camocim, no litoral oeste do Ceará, e o trem dos últimos cem quilômetros até Sobral. Desembarcaram em 30 de abril de 1919, quatro semanas antes do eclipse.
Maio inteiro foi montagem: bases de alvenaria para os espelhos, abrigo de lona para o material fotográfico, teste de foco em estrela de madrugada.
Ceará entrava num ano de seca grande, e a mesma secura do céu que atraiu a expedição castigava o sertão em volta.
Depois do eclipse, as datas seguem longe do Ceará. Em 6 de novembro de 1919, a Royal Society e a Royal Astronomical Society fizeram sessão conjunta em Burlington House, em Londres, com Joseph John Thomson na presidência e o retrato de Newton na parede da sala.
Dyson leu os números das duas expedições. Thomson respondeu que era o resultado mais importante obtido sobre a gravitação desde os dias de Newton. A ata saiu na revista The Observatory ainda em 1919, com o debate transcrito.
No dia seguinte, 7 de novembro, o Times de Londres abriu com três linhas de manchete: revolução na ciência, nova teoria do universo, ideias newtonianas derrubadas. Em 10 de novembro o New York Times entrou na fila, e o nome Einstein virou primeira página.
No Brasil a cobertura já vinha desde 1918, quando a expedição foi anunciada. No Rio, A Noite, O Paiz, o Jornal do Commercio e o Correio da Manhã acompanharam a viagem e o resultado. Em Sobral, Correio da Semana, A Lucta e A Ordem publicaram dezenas de notas.
Epitácio Pessoa foi eleito em abril de 1919 enquanto chefiava a delegação brasileira na conferência de paz de Versalhes, e assumiu a Presidência em 28 de julho, com o país saindo da gripe espanhola e o Ceará entrando na estiagem.
Seis anos depois, o autor da conta veio ver de perto. Einstein desembarcou no Rio em 4 de maio de 1925 e ficou oito dias, com conferências na Escola Politécnica e no Clube de Engenharia e visita à Academia Brasileira de Ciências.
No Observatório Nacional, encontrou os astrônomos que tinham estado no sertão do Ceará em 1919, do outro lado da conta que ele apresentara em Berlim.
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