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Nove minutos de sol sobre o Largo do Paço
17 de janeiro de 1840, manhã de sexta-feira: um abade francês arma o daguerreótipo diante do Paço Imperial e o jornal cronometra a exposição.
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Largo do Paço, Rio, 17 de janeiro de 1840
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Paris, 19 de agosto de 1839. Numa sessão conjunta da Academia de Ciências e da Academia de Belas Artes, o físico François Arago descreveu em voz alta como funcionava o aparelho de Louis Daguerre: uma placa de prata polida, tratada com vapor de iodo, exposta dentro de uma caixa escura e revelada com vapor de mercúrio.
O governo francês comprou o invento e o entregou de graça ao mundo, com pensão vitalícia para Daguerre e para Isidore Niépce, filho do sócio que abrira o caminho anos antes. Sem patente a respeitar, o manual foi impresso e traduzido em semanas.
Só a Inglaterra ficou de fora do presente, porque Daguerre registrou patente lá poucos dias antes da sessão em Paris. No resto do mundo, qualquer pessoa com o folheto na mão e uma caixa de mogno podia tentar.
O objeto que saía do processo não era foto no sentido de hoje. Cada chapa era única, sem negativo e sem cópia, com a imagem espelhada e visível só na inclinação certa da luz. Quem quisesse duas tinha que expor duas vezes.
O gargalo era o tempo. A prata só guardava a cena depois de minutos inteiros de luz forte batendo na placa, e tudo que se mexesse nesse intervalo não deixava marca nenhuma. Em céu de verão tropical, com sol alto, a conta caía bastante.
A notícia do invento chegou ao Rio pelos jornais europeus que desembarcavam com meses de atraso. A imprensa da Corte vinha publicando descrições do processo desde o fim de 1839, sem que ninguém na cidade tivesse visto o aparelho funcionar.
Foi assim que o daguerreótipo virou carga de navio antes de virar comércio. A corveta francesa L'Orientale saiu da Europa em viagem de circum-navegação com naturalistas, desenhistas e um capelão a bordo, o abade Louis Compte, que aprendera o processo antes de embarcar.
Em janeiro de 1840 o navio fundeou na Guanabara. O aparelho desceu com o abade, e a demonstração ficou marcada para a manhã seguinte, no largo em frente ao Paço Imperial, diante de convidados da Corte.
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I O Episódio do Dia
A manhã em que o Rio ficou parado
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Nove minutos de sol no centro do Rio bastaram para tirar da praça mais movimentada da cidade toda a gente que passava por ela.
Sexta-feira, 17 de janeiro de 1840, Largo do Paço, centro do Rio de Janeiro. O aparelho foi armado sobre tripé e virado para o conjunto que fechava a praça: o Paço Imperial, o chafariz do Mestre Valentim e o casario que descia até a água.
O abade Compte trabalhava com o relógio ao lado. Polir a placa de prata, sensibilizar a chapa no vapor de iodo, encaixar o suporte na caixa, destampar a objetiva e contar. O tempo de exposição era a parte do processo que dependia do céu daquela manhã.
O Largo do Paço não era cenário sossegado. Ali desembarcava passageiro de barca, funcionava mercado, passava carroça e trabalhavam os escravizados que carregavam carga entre a água e o comércio da rua Direita, com a Corte entrando e saindo do palácio o dia inteiro.
Nada desse movimento entrou na chapa. Exposição longa registra o que fica imóvel, e o que anda vira ausência. A lista que o jornal publicou tem chafariz, praça e mosteiro, e nenhuma pessoa dentro.
Nada que se mexesse naqueles nove minutos entrou na placa de prata, e a praça mais movimentada da cidade saiu de pedra, telhado e água parada.
O texto que saiu no Jornal do Commercio é a peça que sustenta o episódio inteiro. Quem escreveu estava lá, contou os minutos e descreveu o que apareceu na chapa quando o vapor de mercúrio revelou a imagem.
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É preciso ter visto a cousa com seus próprios olhos para se poder avaliar a rapidez e o resultado da operação. Em menos de nove minutos o chafariz do largo do Paço, a praça do Peixe, o mosteiro de S. Bento e todos os outros objectos circumstantes se acharam reproduzidos com tal fidelidade, precisão e minuciosidade, que bem se via que a cousa tinha sido feita pela própria mão da natureza, e quasi sem intervenção do artista.
Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 1840
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O fecho da nota entrega a impressão da época melhor que qualquer resumo posterior. A imagem parecia obra da natureza, e o operador parecia dispensável. Era assim que o processo se vendia na Europa, como desenho que a luz fazia sozinha.
Entre os convidados estava o imperador. D. Pedro II tinha 14 anos, reinava sob regência desde os cinco e já vinha estudando física e química com os preceptores do Paço.
A cidade não guardou nenhuma placa daquela manhã. Nenhuma chapa da demonstração foi identificada em acervo público até hoje, e o episódio se prova pela página impressa, não pela imagem.
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II Neste Dia no Brasil
Da corveta francesa ao 23 de julho
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O menino que assistiu à demonstração reinava sob regência desde 1831, quando o pai abdicou e voltou para Portugal. Em janeiro de 1840 ele tinha 14 anos, um Paço cheio de preceptores e nenhum poder de decisão.
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A corveta seguiu viagem poucas semanas depois, com o abade e o aparelho a bordo. O que ficou na cidade foi a descrição impressa e um punhado de gente que tinha visto a chapa de prata ainda molhada.
Em março de 1840 o imperador encomendou o próprio equipamento. Foi o primeiro brasileiro a ter uma câmera, aos 14 anos, e um dos primeiros fotógrafos das Américas.
A compra não virou entusiasmo de temporada. D. Pedro II fotografou pelo resto da vida, bancou viagem de fotógrafo pelo interior do país e criou o título honorífico de Photographo da Casa Imperial, concedido a quem trabalhava para o Paço.
Quem abre hoje a maior coleção de fotografia do século XIX guardada no Brasil está abrindo o acervo que aquele menino de 14 anos começou a juntar em 1840.
A coleção leva o nome da imperatriz. A Thereza Christina Maria reúne 21.742 fotografias em 646 álbuns e foi doada por testamento à Biblioteca Nacional. Em 2003 entrou no registro Memória do Mundo, da Unesco.
O ano do daguerreótipo foi o mesmo em que o menino saiu da tutela. Em 23 de julho de 1840, seis meses depois da manhã do Largo do Paço, o Senado declarou a maioridade de D. Pedro II e a Regência acabou.
O golpe da maioridade tinha clube próprio, com Antônio Carlos de Andrada à frente, e uma conta política simples por trás: a Regência não segurava mais as revoltas provinciais. A coroação veio em 18 de julho de 1841.
Enquanto o Paço trocava de regime, o processo se espalhava pelo comércio. Ao longo da década de 1840 retratistas estrangeiros abriram gabinete no Rio, e o retrato em chapa de prata virou item de família nas casas com dinheiro.
Havia ainda um capítulo anterior, escrito longe da Corte. Em 1833, na Vila de São Carlos, hoje Campinas, o francês Hercule Florence testava um processo próprio de gravação por luz, ao lado do boticário Joaquim Corrêa de Mello.
Florence escreveu photographie no caderno em 1834, cinco anos antes do anúncio de Paris, e nunca conseguiu divulgar o achado fora da província. O caso só foi reconstituído nos anos 1970, na pesquisa de Boris Kossoy.
A cronologia da fotografia no Brasil tem, então, duas entradas de natureza diferente: a invenção isolada de Campinas, que ficou na gaveta, e a demonstração pública do Rio, que saiu no jornal e teve leitor no dia seguinte.
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