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A Missão Cruls se decide no que a comissão conseguiu medir em campo, antes de qualquer projeto de cidade.
Maio de 1892, Rio de Janeiro. O governo federal cria a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil e entrega a direção a Luiz Cruls, engenheiro belga naturalizado brasileiro, diretor do Observatório Astronômico e homem com experiência anterior em levantamento geodésico de fronteira.
A comissão não era um grupo de aventureiros. Reunia mais de vinte integrantes com função técnica definida: astrônomos para determinação de posição, engenheiros para topografia e nivelamento, médicos para o registro sanitário do trajeto, geólogo e botânico para o inventário de solo e vegetação, além do pessoal de apoio que cuidava das tropas de animais e do material.
O deslocamento seguiu o limite da infraestrutura da época. Trecho de estrada de ferro até onde os trilhos chegavam no Triângulo Mineiro, e daí em diante marcha por picada, com carga em lombo de burro, acampamento montado ao fim do dia e trabalho de observação feito à noite, quando o céu permite fixar posição pelas estrelas.
O método de trabalho, na ordem em que era aplicado:
| · Determinação de latitude e longitude por observação astronômica em pontos escolhidos | | · Medição de altitude por barômetro, com leitura repetida para reduzir erro | | · Levantamento topográfico do trajeto e amarração dos pontos entre si | | · Coleta de amostra de rocha, solo, planta e água para exame posterior | | · Registro escrito diário do percurso, do clima, da população encontrada e das condições sanitárias |
A comissão não foi ao planalto escolher uma paisagem bonita. Foi verificar se existia água, altitude, clima e solo capazes de sustentar uma cidade, e escrever o resultado em número que outro técnico pudesse conferir. A escolha do terreno era conclusão, não ponto de partida.
O trabalho de campo consumiu cerca de sete meses entre 1892 e 1893, com percurso de milhares de quilômetros pelo interior de Goiás e pelas cabeceiras que separam três das maiores bacias hidrográficas do país. A comissão levantou a região das nascentes que alimentam o São Francisco, o Tocantins e o Paraná, e registrou o divisor de águas como a característica mais relevante do planalto.
A área delimitada ficou conhecida como quadrilátero Cruls: um retângulo de 14.400 quilômetros quadrados fixado por coordenadas, contendo os sítios que a comissão considerou aptos a receber a capital, com a descrição de cada vértice, o traçado dos limites e a carta geral do território anexada ao trabalho.
Fica pertencendo à União, no planalto central da República, uma zona de 14.400 quilômetros quadrados, que será oportunamente demarcada, para nela estabelecer-se a futura Capital federal. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, artigo 3º, 1891 |
O relatório final foi entregue ao governo em 1894, acompanhado de cartas, perfis de nivelamento, tabelas meteorológicas, listas de espécies coletadas e capítulos sobre saúde da população local. Uma segunda comissão, também dirigida por Cruls, voltou à área entre 1894 e 1895 para detalhar o levantamento dentro do quadrilátero e estudar o abastecimento de água.
Depois disso, o assunto saiu da pauta. A demarcação existia no papel, o retângulo estava fixado por coordenada, e a capital seguiu no Rio de Janeiro por mais de seis décadas, até que a decisão política de construir a cidade fosse tomada e o terreno escolhido dentro do território que a comissão havia medido.
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