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ED 025

Missão Cruls, o retângulo cravado no cerrado

1892, Planalto Central: a comissão de Luiz Cruls cruza o sertão a cavalo e demarca os 14.400 quilômetros quadrados da futura capital.

A comissão exploradora de Luiz Cruls em marcha pelo cerrado do planalto central, em 1892.

Planalto Central, 1892: a comissão em marcha

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Mudar uma capital não é decisão de mapa. É decisão de terreno: alguém precisa ir até o lugar, medir a altitude, contar os rios, provar que existe água para uma população que ainda não nasceu e desenhar no papel um limite que um dia vai virar fronteira administrativa. Antes de existir cimento, existe caderneta de campo.

A ideia de tirar a sede do governo do litoral era velha no Brasil. Aparecia em memorial de conselheiro do Império, em discurso de deputado do interior, em texto de historiador que apontava a vulnerabilidade de um país cujo centro de decisão ficava a poucas horas de bombardeio naval e cujo território interior seguia sem estrada, sem telégrafo e sem gente do governo.

O argumento tinha três pernas. A primeira era militar: capital em porto é capital que se toma pelo mar. A segunda era administrativa: governo no litoral administra litoral, e o Brasil que aparecia nos mapas era em grande parte sertão desconhecido pelo próprio Estado. A terceira era demográfica: povoar o interior exigia um motivo permanente, e sede de governo é o motivo mais permanente que existe.

Com a República, o argumento virou letra de lei. A Constituição de 1891 não recomendou a mudança nem deixou a decisão para o futuro em termos vagos: escreveu no corpo do texto que uma área determinada do planalto central passava a pertencer à União e seria oportunamente demarcada para nela se estabelecer a capital federal. O número escolhido foi 14.400 quilômetros quadrados.

Um número dessa ordem não é figura de retórica. Ele descreve um retângulo de cerca de 160 por 90 quilômetros, e um retângulo só existe quando quatro vértices são fixados por coordenada, marcados no chão e reproduzidos em carta. Nada disso se faz de escritório no Rio de Janeiro. Faz-se com teodolito, cronômetro, barômetro, animal de carga e mês de campo.

O Estado brasileiro de 1892 tinha pouca coisa para oferecer a uma tarefa dessas: o Observatório Astronômico do Rio de Janeiro, engenheiros militares acostumados a levantamento de fronteira e alguns naturalistas contratados. Faltava carta confiável do interior de Goiás, faltava trilho além de Uberaba e faltava noção precisa da altitude do planalto.

O terreno da futura capital ainda precisava ser encontrado, medido e desenhado, e essa tarefa saiu do gabinete para o lombo de um cavalo.

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I  O Episódio do Dia

Sete meses de picada no Planalto Central

A Missão Cruls se decide no que a comissão conseguiu medir em campo, antes de qualquer projeto de cidade.

Maio de 1892, Rio de Janeiro. O governo federal cria a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil e entrega a direção a Luiz Cruls, engenheiro belga naturalizado brasileiro, diretor do Observatório Astronômico e homem com experiência anterior em levantamento geodésico de fronteira.

A comissão não era um grupo de aventureiros. Reunia mais de vinte integrantes com função técnica definida: astrônomos para determinação de posição, engenheiros para topografia e nivelamento, médicos para o registro sanitário do trajeto, geólogo e botânico para o inventário de solo e vegetação, além do pessoal de apoio que cuidava das tropas de animais e do material.

O deslocamento seguiu o limite da infraestrutura da época. Trecho de estrada de ferro até onde os trilhos chegavam no Triângulo Mineiro, e daí em diante marcha por picada, com carga em lombo de burro, acampamento montado ao fim do dia e trabalho de observação feito à noite, quando o céu permite fixar posição pelas estrelas.

O método de trabalho, na ordem em que era aplicado:

·  Determinação de latitude e longitude por observação astronômica em pontos escolhidos
·  Medição de altitude por barômetro, com leitura repetida para reduzir erro
·  Levantamento topográfico do trajeto e amarração dos pontos entre si
·  Coleta de amostra de rocha, solo, planta e água para exame posterior
·  Registro escrito diário do percurso, do clima, da população encontrada e das condições sanitárias

A comissão não foi ao planalto escolher uma paisagem bonita. Foi verificar se existia água, altitude, clima e solo capazes de sustentar uma cidade, e escrever o resultado em número que outro técnico pudesse conferir. A escolha do terreno era conclusão, não ponto de partida.

O trabalho de campo consumiu cerca de sete meses entre 1892 e 1893, com percurso de milhares de quilômetros pelo interior de Goiás e pelas cabeceiras que separam três das maiores bacias hidrográficas do país. A comissão levantou a região das nascentes que alimentam o São Francisco, o Tocantins e o Paraná, e registrou o divisor de águas como a característica mais relevante do planalto.

A área delimitada ficou conhecida como quadrilátero Cruls: um retângulo de 14.400 quilômetros quadrados fixado por coordenadas, contendo os sítios que a comissão considerou aptos a receber a capital, com a descrição de cada vértice, o traçado dos limites e a carta geral do território anexada ao trabalho.

Fica pertencendo à União, no planalto central da República, uma zona de 14.400 quilômetros quadrados, que será oportunamente demarcada, para nela estabelecer-se a futura Capital federal.

Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, artigo 3º, 1891

O relatório final foi entregue ao governo em 1894, acompanhado de cartas, perfis de nivelamento, tabelas meteorológicas, listas de espécies coletadas e capítulos sobre saúde da população local. Uma segunda comissão, também dirigida por Cruls, voltou à área entre 1894 e 1895 para detalhar o levantamento dentro do quadrilátero e estudar o abastecimento de água.

Depois disso, o assunto saiu da pauta. A demarcação existia no papel, o retângulo estava fixado por coordenada, e a capital seguiu no Rio de Janeiro por mais de seis décadas, até que a decisão política de construir a cidade fosse tomada e o terreno escolhido dentro do território que a comissão havia medido.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

Como a mudança da capital virou artigo de Constituição

O interior brasileiro do fim do século XIX era, para o Estado, uma área de estimativa. Goiás tinha população esparsa, economia de criação e mineração em declínio, comunicação por tropa e correspondência que levava semanas, e nenhuma carta topográfica que permitisse planejar obra pública com base em cota de terreno.

A ideia de interiorizar a capital atravessou o Império sem sair do papel. Foi defendida em projeto de constituinte, retomada por historiador do Instituto Histórico e Geográfico e citada em debate parlamentar, sempre com o mesmo obstáculo prático: ninguém sabia exatamente o que havia no planalto central.

A linha do tempo que levou ao quadrilátero:

·  1823: a transferência da sede do governo para o interior aparece em debate da constituinte
·  1877: obras de historiadores e do Instituto Histórico defendem a mudança com argumento de geografia
·  1891: a Constituição republicana reserva 14.400 quilômetros quadrados no planalto central
·  1892: o governo cria a Comissão Exploradora e nomeia Luiz Cruls como diretor
·  1894: o relatório final é entregue com a demarcação do quadrilátero e a cartografia da região
·  1895: uma segunda comissão detalha o levantamento interno da área reservada

A escolha do planalto tinha fundamento técnico repetido em cada capítulo do relatório. A altitude média acima de mil metros produz clima seco e temperatura amena para a latitude, o divisor de águas garante nascente em vez de curso poluído por cidade a montante, e o solo firme do cerrado suporta fundação de obra pesada com menos custo do que várzea alagadiça.

A comissão também produziu material que nada tinha a ver com capital. O inventário botânico e zoológico do cerrado, as medições meteorológicas sistemáticas, os perfis de altitude e o registro sanitário das povoações visitadas formaram o primeiro conjunto científico consistente sobre a região.

O que o trabalho da comissão deixou de forma verificável:

·  Coordenadas e limites do quadrilátero reservado pela Constituição, fixados em campo
·  Cartografia do interior de Goiás em escala útil para planejamento de obra
·  Séries meteorológicas e de altitude que descrevem o clima do planalto
·  Inventário de flora, geologia e recursos hídricos da área reservada
·  Um precedente institucional: mudança de capital tratada como problema de engenharia

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III  O Documento na Íntegra

Onde o relatório da comissão pode ser lido

O episódio se confere em cinco balcões: o acervo do Observatório Nacional, o Arquivo Nacional, a hemeroteca da imprensa de 1892 a 1895, os acervos de instituições científicas que receberam as coleções e a documentação oficial do governo goiano e federal sobre a área reservada.

No Observatório Nacional: ficam os papéis da direção de Luiz Cruls, as cadernetas de observação astronômica, os cálculos de posição e a documentação técnica das duas comissões que ele dirigiu, incluindo o material cartográfico produzido em campo.

No Arquivo Nacional: estão os decretos de criação da Comissão Exploradora, a correspondência entre a direção e os ministérios, as prestações de contas da expedição e os expedientes administrativos que autorizaram a segunda missão.

No relatório impresso: o Relatório da Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, publicado em 1894, reúne o texto descritivo do percurso, os capítulos de astronomia, meteorologia, geologia, botânica e medicina, as tabelas de medição e as cartas do quadrilátero.

Na hemeroteca digital da Biblioteca Nacional: os jornais do Rio e de Goiás entre 1892 e 1895 registram a partida da comissão, as notícias de percurso que chegavam com atraso, a repercussão do relatório e o debate político sobre custo e utilidade da mudança.

Na documentação de Goiás: os registros provinciais e estaduais sobre as povoações visitadas, as terras contidas no quadrilátero e a discussão posterior sobre cessão de área à União mostram o outro lado da demarcação, o lado de quem já morava ali.

Na divergência: o número exato de integrantes da comissão, a extensão total percorrida e a correspondência precisa entre o quadrilátero de 1894 e o Distrito Federal criado depois variam conforme a fonte e o critério de medida adotado.

Ao citar o episódio, use a data da comissão, o nome do diretor, o dispositivo constitucional que a fundamentou e a área demarcada, nunca a versão de almanaque de um sonho antigo que se realizou sozinho. O documento resiste à contestação; a frase pronta não resiste.

A documentação fecha o artigo constitucional de 1891, a criação da comissão em 1892, o trabalho de campo entre 1892 e 1893, a entrega do relatório em 1894 e a área de 14.400 quilômetros quadrados fixada em coordenada.

Fica em aberto o peso relativo de cada argumento na escolha final do sítio, a fidelidade do traçado executado décadas depois em relação ao quadrilátero original e o destino de parte do material coletado em campo.

Entre a medição do terreno e a primeira obra passaram sessenta e cinco anos. O relatório não construiu nada, mas quando a decisão política chegou, o levantamento que ela precisava já estava pronto e assinado.

"Quando um Estado mede um território antes de ter dinheiro ou vontade de ocupá-lo, o trabalho vira desperdício ou vira o único ativo que sobra para o momento em que a decisão aparecer?"

 
 
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