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Marmelos Zero, 1889: a usina que acendeu Juiz de Fora

Rio Paraibuna, 5 de setembro de 1889: Bernardo Mascarenhas liga 250 quilowatts para a fábrica de tecidos e para a luz da cidade.

Casa de máquinas da usina de Marmelos Zero, no rio Paraibuna, em 1889.

Marmelos Zero, 1889: a luz que veio do rio

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“Primeira usina hidrelétrica de grande porte da América do Sul”, registra a Universidade Federal de Juiz de Fora na apresentação do Museu Usina de Marmelos Zero, que ela administra às margens do rio Paraibuna. A frase cabe numa placa, mas a história atrás dela começa numa fábrica de tecidos.

Em 1888, o industrial mineiro Bernardo Mascarenhas abriu em Juiz de Fora uma tecelagem movida a vapor. A caldeira comia lenha e carvão todos os dias, e o combustível pesava na conta da fábrica.

Juiz de Fora era então a cidade mais rica da Zona da Mata mineira. O café descia das fazendas da região, passava pela cidade e seguia de trem para o porto do Rio de Janeiro.

A cidade tinha dinheiro, comércio e ruas cheias à noite, mas a iluminação pública ainda era de lampião. Os lampiões queimavam querosene (óleo tirado do petróleo) e precisavam de um acendedor que passava de poste em poste ao entardecer.

Mascarenhas tinha visto outra solução fora do país. Em viagem aos Estados Unidos, ele conheceu sistemas que tiravam eletricidade da força da água, sem caldeira e sem lenha.

O rio Paraibuna corria a poucos quilômetros do centro, com quedas d'água fortes no trecho chamado Marmelos. Para o industrial, a cachoeira era um motor parado esperando turbina.

O plano tinha dois clientes. A energia moveria os teares da fábrica de tecidos durante o dia e acenderia as lâmpadas das ruas da cidade à noite.

Para vender luz à cidade, ele precisava de sócios e de contrato público. Fundou a Companhia Mineira de Eletricidade e negociou com a Câmara Municipal a concessão da iluminação das ruas.

Faltava o equipamento. As turbinas e os geradores não existiam no Brasil e teriam de atravessar o oceano em navio, subir a serra de trem e chegar ao Paraibuna em carro de boi.

O Episódio do Dia leva o leitor até a margem do rio, na noite em que a primeira lâmpada acendeu.

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I  O Episódio do Dia

A noite em que o Paraibuna virou luz

Juiz de Fora, Minas Gerais, 5 de setembro de 1889. Bernardo Mascarenhas, fundador da Companhia Mineira de Eletricidade, liga a usina de Marmelos Zero, na margem do rio Paraibuna.

A obra tinha levado cerca de um ano e alguns meses. Operários abriram um canal de desvio na margem, que levava parte da água do rio até a casa de máquinas, construída em pedra e tijolo logo abaixo da queda.

Dentro da casa, a água caía sobre as turbinas (rodas de pás que giram com a força da correnteza). Cada turbina girava um gerador, a máquina que transforma o movimento em corrente elétrica.

Eram 2 geradores de 125 quilowatts cada, somando 250 quilowatts. Um quilowatt equivale a mil watts, a medida de potência que aparece hoje na etiqueta de qualquer chuveiro elétrico.

Os geradores vieram da Westinghouse, fábrica americana que defendia a corrente alternada (a corrente que muda de sentido muitas vezes por segundo). Esse tipo de corrente viaja longe pelos fios com pouca perda, o que permitia levar a energia da cachoeira até o centro da cidade.

Os fios seguiram em postes de madeira pela estrada. Na cidade, a corrente acendia lâmpadas instaladas nas ruas principais, no lugar dos lampiões de querosene.

A quantidade exata de lâmpadas acesas naquela primeira noite não aparece de forma segura nos registros que chegaram até hoje. Os relatos da época falam das ruas centrais iluminadas, mas não deixam uma contagem confiável, poste por poste, que permita cravar um número.

Juiz de Fora passou a ter luz elétrica nas ruas antes da maioria das capitais do Império.

A usina entrou em operação dois meses antes da queda da monarquia. Em 15 de novembro de 1889, a República seria proclamada no Rio de Janeiro, e Juiz de Fora já atravessou a mudança de regime com luz elétrica.

O tamanho da obra impressionou a imprensa da Corte. Engenheiros e curiosos subiram de trem para ver a casa de máquinas funcionando, e a cidade ganhou na época o apelido de Manchester Mineira, por causa das fábricas.

A energia da tecelagem também mudou a rotina dos operários. Com os teares movidos pela corrente do rio, a fábrica deixou de depender do carvão e da lenha.

Os 250 quilowatts logo ficaram pequenos. A demanda da cidade e das indústrias cresceu tanto que a Companhia Mineira de Eletricidade ampliou a usina e, nas décadas seguintes, construiu outras no mesmo rio, Marmelos I e Marmelos II.

Bernardo Mascarenhas não viu a rede crescer muito. Ele faleceu em 1899, dez anos depois de ligar a primeira turbina, e a companhia seguiu nas mãos de sócios e herdeiros.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

De 1847 aos anos 1980: o industrial, o rio e o museu

A usina juntou uma família de tecelões, um rio de quedas fortes e uma cidade rica em café. Os marcos da história, em ordem:

• 1847: nasce Bernardo Mascarenhas, em Minas Gerais

• 1888: abre a tecelagem em Juiz de Fora

• 1888: funda a Companhia Mineira de Eletricidade

• 5 de setembro de 1889: Marmelos Zero entra em operação

• 15 de novembro de 1889: a República é proclamada

• 1899: Bernardo Mascarenhas falece

• Década de 1980: a casa de máquinas vira museu

A família Mascarenhas já tinha tradição no tecido antes de Juiz de Fora. Parentes de Bernardo mantinham fábricas no interior de Minas, e ele aprendeu o ofício nelas antes de montar a própria.

A escolha de Juiz de Fora seguiu o dinheiro e o trilho. A Estrada de Ferro Dom Pedro II passava pela cidade, e os equipamentos importados podiam chegar até perto da obra sem atravessar a serra no lombo de mula.

O contrato com a Câmara Municipal deu à companhia o serviço da iluminação pública. Em troca, a cidade pagava pela luz das ruas, e a receita ajudou a sustentar o investimento na usina.

A tecelagem pagava a energia de dia; a Câmara pagava a luz de noite.

A disputa entre corrente contínua e corrente alternada estava acesa nos Estados Unidos naquela época. A escolha da corrente alternada em Marmelos colocou Juiz de Fora do lado da tecnologia que acabou vencendo e que hoje chega a qualquer tomada do país.

Com o tempo, a usina original perdeu importância diante das maiores. A Companhia Mineira de Eletricidade passou ao controle de outras empresas do setor elétrico ao longo do século XX, até a área ficar com a Cemig, a companhia de energia do estado de Minas Gerais.

A casa de máquinas escapou da demolição. Na década de 1980, o prédio passou a funcionar como museu, sob a guarda da Universidade Federal de Juiz de Fora.

O acervo guarda as turbinas, os geradores e o quadro de comando da época. O visitante caminha pelo piso de pedra da casa de máquinas e vê as peças que giraram na noite de 1889.

 

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III  O Documento na Íntegra

A casa de máquinas como documento

O documento desta edição é um prédio. A casa de máquinas de Marmelos Zero conserva o equipamento de 1889 na posição em que trabalhou, e cada peça conta uma parte da obra.

O canal de adução (o canal que traz a água do rio até as turbinas) ainda marca o terreno na margem do Paraibuna. Por ele se entende o caminho que a água fazia antes de entrar na casa.

As turbinas ficam no nível mais baixo do prédio. Era ali que a água caía, girava as pás e voltava ao rio pela saída de baixo, sem consumo de combustível.

Os geradores ocupam o salão principal. Ao lado deles fica o quadro de comando, um painel com chaves e mostradores que o operador usava para ligar, desligar e controlar a corrente.

No salão, a peça mais antiga: os geradores de 125 quilowatts que abriram a operação.

Na parede de controle: as chaves e os mostradores que o operador lia durante o turno.

Na margem do rio: o canal de pedra que alimentava as turbinas.

Lido junto, o conjunto mostra a usina inteira em pequena escala: água entrando, máquina girando, corrente saindo pelos fios rumo à cidade.

O prédio guarda ainda um limite da tecnologia de 1889. Os geradores trabalhavam no ritmo do rio: na seca, com menos água no canal, a potência caía, e a companhia precisou ampliar a obra para garantir luz o ano todo.

O prédio também registra uma escolha de construção. Mascarenhas ergueu a usina em alvenaria sólida, sem economia de material, e as paredes resistiram por mais de cem anos à umidade do rio.

O museu recebe grupos de escolas para explicar o caminho da energia elétrica a partir do próprio equipamento. Os horários e as regras de visita são publicados pela Universidade Federal de Juiz de Fora.

Os 250 quilowatts de 1889 cabem hoje num único prédio de pedra, e o prédio ainda explica como a luz chega à tomada.

“Quantas cidades guardam a máquina que acendeu a primeira lâmpada da rua?”

Em 5 de setembro de 2027, Marmelos Zero completa 138 anos de operação inaugurada. Antes de planejar a visita, reconfira os horários na página do museu publicada pela Universidade Federal de Juiz de Fora.

 
 

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Quantos quilowatts a usina Marmelos Zero gerava ao todo quando entrou em operação em 5 de setembro de 1889?

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