A resposta de ontem Qual estrada cortou o norte do Xingu em 1971? Foi a BR-080, aberta em 1971 pelo governo militar no rumo de Brasília a Manaus. A estrada atravessou o rio Xingu no norte do parque, e a faixa acima dela, onde viviam os Kayapó Metuktire, saiu dos limites. O cacique Raoni liderou a reação, e parte da terra voltou com a Terra Indígena Capoto/Jarina, homologada em 1991. |
Fazenda Laguna, 8 de maio de 1867. O coronel Carlos de Morais Camisão manda a coluna dar meia-volta. A fazenda, uma propriedade de Solano López na margem paraguaia do rio Apa, não tinha o gado que a tropa contava encontrar.
Sem bois para comer e sem cavalos para escoltar as carretas (os carros de boi de duas rodas), a força não tinha como seguir. Camisão ordenou o retorno ao território brasileiro, rumo ao rio Aquidauana.
Era o fim do outono no sertão. Chovia forte, os córregos transbordavam e as rodas das carretas afundavam no barro, obrigando os soldados a empurrar a carga com o corpo.
A cavalaria paraguaia passou a cercar a coluna desde os primeiros dias. Atacava a retaguarda, sumia no mato e voltava à noite, quando os soldados tentavam dormir.
Os brasileiros marchavam em quadrado (a formação de infantaria fechada em quatro faces), com os feridos, a munição e as carretas no centro. Cada légua custava horas de passo lento.
Os paraguaios usaram o fogo como arma. Punham fogo na macega (o capim alto e seco do campo) a favor do vento, e a coluna precisava abrir aceiros (faixas de terra limpa) para não arder junto com o capim.
A fome e o fogo chegaram primeiro; o cólera apareceu no fim de maio e passou a levar mais homens do que as balas.
Os doentes vomitavam e secavam em poucas horas. Não havia carreta para todos, e cada homem carregado numa padiola era um fuzil a menos na face do quadrado.
Num acampamento à beira da mata, o comando tomou a decisão mais dura da marcha: deixar para trás os coléricos (os doentes de cólera) que já não andavam. Os paraguaios alcançaram o lugar depois e mataram os abandonados.
José Francisco Lopes, o Guia Lopes, sucumbiu ao cólera naqueles dias, depois de levar a coluna até as terras da própria fazenda, o Jardim.
O coronel Camisão adoeceu em seguida. Morreu em 29 de maio de 1867, carregado pela tropa, e foi enterrado na beira do caminho que ele mesmo tinha escolhido.
O tenente-coronel Juvêncio Manuel Cabral de Menezes, segundo no comando, também sucumbiu à doença. A coluna ficou sem os dois chefes no pior trecho da volta.
A comida acabou antes da marcha. Os soldados abateram os bois de tração, comeram couro cozido e palmito arrancado no mato, e algumas carretas ficaram pelo caminho sem animal para puxar.
O quadrado não se desfez. Os oficiais que sobraram mantiveram a formação, a ordem de marcha e a vigia noturna, e a cavalaria paraguaia não conseguiu romper a linha.
Em 11 de junho, os sobreviventes chegaram a Porto Canuto, à margem do rio Aquidauana, já em terra brasileira. A retirada tinha durado 35 dias.
|