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Laguna, 1867: a coluna de Camisão recua sob fogo e cólera

Maio de 1867: fome, cólera e capim em chamas perseguem a tropa brasileira por 35 dias, da fazenda Laguna ao rio Aquidauana.

Soldados brasileiros em marcha pelo campo do sul de Mato Grosso, em 1867.

Laguna, 1867: a retirada pelo sertão

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“La Retraite de Laguna”, imprimiu a Typographia Nacional na capa de um livro em francês, em 1871. O autor, Alfredo d'Escragnolle Taunay, tinha feito a marcha que o livro conta como tenente engenheiro, quatro anos antes.

A marcha começou longe dali, numa guerra que o Brasil não esperava travar no próprio sertão. No fim de 1864, tropas de Francisco Solano López, o presidente do Paraguai, invadiram Mato Grosso e ocuparam o sul da província.

O Império respondeu com uma força expedicionária montada com batalhões mineiros e paulistas. A tropa partiu em 1865 e levou quase dois anos para atravessar o interior até a fronteira, a pé, puxando carretas por rios sem ponte.

Pelo caminho, perdeu soldados para a febre, para a fome e para a deserção, sem ter disparado um tiro contra o inimigo. Batalhões inteiros chegaram ao pantanal com metade da gente que tinha saído.

No começo de 1867, a coluna acampava em Nioaque, vila do sul de Mato Grosso, quando o coronel Carlos de Morais Camisão assumiu o comando. Ele carregava uma acusação antiga: em 1865, tinha deixado Corumbá diante do avanço paraguaio, e parte dos oficiais o chamava de fraco.

Camisão decidiu levar a guerra ao território inimigo. Para guiar a tropa, contratou José Francisco Lopes, o Guia Lopes, um sertanejo que conhecia cada trilha da região e tinha a família presa pelos paraguaios desde a invasão.

Em abril, a coluna cruzou o rio Apa, a linha da fronteira, e entrou no Paraguai com pouca munição, pouco gado e quase nenhuma cavalaria. O plano dependia de achar bois e cavalos do outro lado do rio.

Taunay seguia como secretário da comissão de engenheiros, encarregado de mapear o terreno. À noite, anotava num caderno o que tinha visto durante o dia, de nomes de córregos a conversas de fogueira.

O Episódio do Dia começa na fazenda onde a invasão parou e a volta começou.

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I  O Episódio do Dia

A meia-volta na fazenda de Solano López

A resposta de ontem

Qual estrada cortou o norte do Xingu em 1971?

Foi a BR-080, aberta em 1971 pelo governo militar no rumo de Brasília a Manaus. A estrada atravessou o rio Xingu no norte do parque, e a faixa acima dela, onde viviam os Kayapó Metuktire, saiu dos limites. O cacique Raoni liderou a reação, e parte da terra voltou com a Terra Indígena Capoto/Jarina, homologada em 1991.

Fazenda Laguna, 8 de maio de 1867. O coronel Carlos de Morais Camisão manda a coluna dar meia-volta. A fazenda, uma propriedade de Solano López na margem paraguaia do rio Apa, não tinha o gado que a tropa contava encontrar.

Sem bois para comer e sem cavalos para escoltar as carretas (os carros de boi de duas rodas), a força não tinha como seguir. Camisão ordenou o retorno ao território brasileiro, rumo ao rio Aquidauana.

Era o fim do outono no sertão. Chovia forte, os córregos transbordavam e as rodas das carretas afundavam no barro, obrigando os soldados a empurrar a carga com o corpo.

A cavalaria paraguaia passou a cercar a coluna desde os primeiros dias. Atacava a retaguarda, sumia no mato e voltava à noite, quando os soldados tentavam dormir.

Os brasileiros marchavam em quadrado (a formação de infantaria fechada em quatro faces), com os feridos, a munição e as carretas no centro. Cada légua custava horas de passo lento.

Os paraguaios usaram o fogo como arma. Punham fogo na macega (o capim alto e seco do campo) a favor do vento, e a coluna precisava abrir aceiros (faixas de terra limpa) para não arder junto com o capim.

A fome e o fogo chegaram primeiro; o cólera apareceu no fim de maio e passou a levar mais homens do que as balas.

Os doentes vomitavam e secavam em poucas horas. Não havia carreta para todos, e cada homem carregado numa padiola era um fuzil a menos na face do quadrado.

Num acampamento à beira da mata, o comando tomou a decisão mais dura da marcha: deixar para trás os coléricos (os doentes de cólera) que já não andavam. Os paraguaios alcançaram o lugar depois e mataram os abandonados.

José Francisco Lopes, o Guia Lopes, sucumbiu ao cólera naqueles dias, depois de levar a coluna até as terras da própria fazenda, o Jardim.

O coronel Camisão adoeceu em seguida. Morreu em 29 de maio de 1867, carregado pela tropa, e foi enterrado na beira do caminho que ele mesmo tinha escolhido.

O tenente-coronel Juvêncio Manuel Cabral de Menezes, segundo no comando, também sucumbiu à doença. A coluna ficou sem os dois chefes no pior trecho da volta.

A comida acabou antes da marcha. Os soldados abateram os bois de tração, comeram couro cozido e palmito arrancado no mato, e algumas carretas ficaram pelo caminho sem animal para puxar.

O quadrado não se desfez. Os oficiais que sobraram mantiveram a formação, a ordem de marcha e a vigia noturna, e a cavalaria paraguaia não conseguiu romper a linha.

Em 11 de junho, os sobreviventes chegaram a Porto Canuto, à margem do rio Aquidauana, já em terra brasileira. A retirada tinha durado 35 dias.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

Da invasão paraguaia ao livro de Taunay

A Retirada da Laguna cabe em sete anos, da invasão de Mato Grosso à publicação do relato de Alfredo d'Escragnolle Taunay:

• 1864: López invade Mato Grosso

• 1865: a coluna parte rumo ao sertão

• 8 de maio de 1867: começa a retirada

• 29 de maio de 1867: cai Camisão

• 1867, 11 de junho: Porto Canuto

• 1871: sai La Retraite de Laguna

Taunay nasceu em 1843, numa família francesa instalada no Brasil. O avô, o pintor Nicolas-Antoine Taunay, tinha chegado em 1816 com a Missão Artística Francesa, o grupo de artistas contratado pela Coroa portuguesa.

Formado engenheiro pela Escola Militar, ele entrou na expedição aos 21 anos. O caderno da marcha virou a base do livro, escrito na volta, com as datas, os nomes dos acampamentos e as falas que tinha anotado.

A escolha do francês tinha alvo. A guerra era acompanhada pelos jornais de Paris e de Londres, e Taunay quis mostrar aos leitores europeus uma tropa que recuou sem debandar.

O livro transformou uma derrota militar num dos relatos de guerra mais lidos da literatura brasileira.

Depois da Laguna, Taunay seguiu na guerra. Acompanhou o conde d'Eu, marido da princesa Isabel, na campanha final contra López, encerrada em 1870, e escreveu também o diário dessa fase.

Em 1872, publicou Inocência, romance passado no sertão de Mato Grosso, com os campos e os tipos que tinha conhecido na marcha. O livro virou leitura escolar e ganhou filme em 1983.

Taunay também desenhava. Muitas das descrições de paisagem do relato saíram de croquis feitos no caderno de campo, com a posição dos morros, dos rios e dos capões de mato.

A carreira política veio em seguida. Taunay foi deputado, presidiu as províncias de Santa Catarina e do Paraná e chegou ao Senado. Em 1889, recebeu de Dom Pedro II o título de visconde de Taunay.

O relato ganhou várias traduções para o português. A mais reeditada saiu pelas mãos do filho, o historiador Afonso d'Escragnolle Taunay, que dirigiu o Museu Paulista por quase três décadas.

O nome do guia também ficou no mapa. A antiga fazenda Jardim deu origem ao município de Guia Lopes da Laguna, em Mato Grosso do Sul, batizado em homenagem ao sertanejo e à retirada.

 

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III  O Documento na Íntegra

A placa deixada para os coléricos

O documento desta edição é A Retirada da Laguna, o relato de Taunay impresso em 1871, e a passagem mais lembrada é a do acampamento onde os doentes ficaram para trás.

Segundo o livro, o comando deixou os coléricos numa clareira, com um cartaz preso a uma árvore para pedir clemência aos paraguaios que viessem atrás:

“Compaixão para os coléricos!” (Taunay, A Retirada da Laguna, 1871)

O relato organiza a marcha em três frentes, que se revezam de capítulo a capítulo:

1. O inimigo, com a cavalaria e o fogo no capim.

2. A natureza, com rios cheios, chuva e fome.

3. A doença, com o cólera nas últimas semanas.

A ordem das ameaças acompanha o calendário da marcha. O tiro domina o começo; o cólera, o fim. Taunay registra cada mudança com data e lugar, como engenheiro que mede o terreno.

O texto poupa pouco o próprio comando. Taunay descreve Camisão como um chefe atormentado pela acusação de Corumbá, que entrou no Paraguai para limpar o nome e saiu dele carregado numa padiola.

Taunay escreve na primeira pessoa do plural, como quem fala pela tropa inteira. O recurso põe o leitor dentro do quadrado, marchando no passo dos soldados e esperando o próximo ataque.

O relato dá nome também aos que ficaram pelo caminho: oficiais, praças, carreteiros e o guia sertanejo. Para muitos deles, o livro é o único registro que sobrou.

O livro guardou os nomes que o Exército preferia esquecer.

A edição de 1871 está digitalizada no acervo da Biblioteca Nacional, e as traduções brasileiras seguem em catálogo. O texto ainda serve de fonte para historiadores da Guerra do Paraguai.

“Por que um oficial brasileiro escreveu em francês a derrota da própria coluna?”

Porque queria leitores na Europa. O francês era a língua culta da época, e Taunay quis que a marcha fosse lida como prova de disciplina, longe da versão paraguaia da guerra.

Em 29 de maio de 2027, a morte do coronel Camisão completa 160 anos; a edição de 1871 está na Biblioteca Nacional Digital, reconfira o relato lá nessa data.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual oficial assumiu o comando da coluna depois que Camisão e Juvêncio sucumbiram ao cólera?

 
 
Quiz da edição

Segundo o Episódio do Dia, quem sucumbiu ao cólera primeiro na retirada?

AJosé Francisco Lopes, o Guia Lopes
BCarlos de Morais Camisão
CJuvêncio Manuel Cabral de Menezes
DAlfredo d'Escragnolle Taunay

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