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Itaquicê, 1932: o navio que pagou a Olimpíada com sacas de café

Junho de 1932: a delegação brasileira embarca num cargueiro para Los Angeles, e Maria Lenk, de 17 anos, vira a primeira sul-americana em Jogos.

Atletas brasileiros no convés do cargueiro Itaquicê, 1932.

Itaquicê, 1932: o convés virou raia de treino

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M aria Lenk publicou em 1986 o livro de memórias "Braçadas e abraços", e as primeiras braçadas do livro acontecem num rio de São Paulo. A nadadora aprendeu a nadar no Tietê, ainda menina, levada pelo pai depois de uma pneumonia.

Paul Lenk era imigrante alemão e professor de ginástica. Acreditava que a água fortalecia o pulmão da filha, nascida em São Paulo em 15 de janeiro de 1915. A menina passou a treinar nas raias de clube e nas margens do rio, num tempo em que mulher de maiô ainda causava escândalo nas arquibancadas.

Em 1932, o Brasil vivia um ano sem dinheiro sobrando. A queda da Bolsa de Nova York, em 1929, tinha derrubado o preço do café, principal produto de exportação do país. O governo de Getúlio Vargas comprava e queimava sacas encalhadas para tentar segurar a cotação.

Naquele mesmo ano, os Estados Unidos sediavam os Jogos Olímpicos, marcados para Los Angeles entre 30 de julho e 14 de agosto. A viagem do Rio de Janeiro até a Califórnia levava semanas de mar e custava mais do que as federações esportivas brasileiras tinham em caixa.

O Comitê Olímpico Brasileiro precisava de uma saída barata. O governo federal ofereceu duas peças: um navio do Lloyd Brasileiro, a companhia estatal de navegação, e uma carga de café que a delegação poderia vender nas escalas para custear hospedagem, comida e inscrições.

Para os atletas, a proposta trocava conforto por chance. Ninguém viajaria em paquete de passageiros, com cabine e salão de jantar. A delegação dormiria num navio de carga, dividiria espaço com as sacas e treinaria onde houvesse convés livre. Quem recusasse ficava em terra, porque não existia segundo plano.

Maria Lenk tinha 17 anos e era a única mulher convocada. Seria a primeira atleta da América do Sul a disputar uma Olimpíada.

O Episódio do Dia acompanha a viagem do cargueiro e o desembarque na Califórnia, onde a conta do café não fechou.

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I  O Episódio do Dia

Um porão de café rumo à Califórnia

Rio de Janeiro, junho de 1932. A delegação olímpica brasileira embarcou no Itaquicê, cargueiro do Lloyd Brasileiro, com destino ao porto de Los Angeles. No porão, ia a carga de café cedida pelo governo; no convés, atletas de remo, atletismo, natação, polo aquático e tiro, entre outras modalidades.

O plano era simples no papel. Em cada porto do caminho, os dirigentes desembarcariam sacas, venderiam a carga a comerciantes locais e guardariam o dinheiro para as despesas nos Estados Unidos.

A prática saiu diferente. O preço do café estava no chão em todo o mundo, e os compradores dos portos do Caribe e da costa do Pacífico ofereciam pouco. Boa parte das sacas seguiu viagem sem comprador.

A rotina a bordo virou treino improvisado. Os remadores faziam exercícios no convés, os corredores davam voltas entre as escotilhas e Maria Lenk, sem piscina, treinava os movimentos de braço no seco, segundo o relato que ela deixou nas memórias.

O navio passou pelo Canal do Panamá e subiu a costa até a Califórnia. Lá veio o problema que o café não resolveu: as autoridades americanas cobravam uma taxa por pessoa desembarcada, de 1 dólar por atleta segundo o registro do Comitê Olímpico Brasileiro, e a delegação não tinha o valor para todos.

O Brasil chegou à Olimpíada sem dinheiro para pôr todos os seus atletas em terra.

Os dirigentes escolheram quem descia. Desembarcaram os competidores com prova marcada e mais chance de resultado, e Maria Lenk estava entre eles. Os demais ficaram a bordo, e o Itaquicê seguiu para San Francisco tentando vender o resto da carga.

Um dos que ficaram foi o corredor Adalberto Cardoso, inscrito nos 10.000 metros. Segundo a história contada pelo próprio Comitê Olímpico Brasileiro, ele desceu em San Francisco, viajou por terra até Los Angeles e chegou ao estádio pouco antes da largada.

A história de Cardoso tem lacunas. O tempo exato da travessia e o meio de transporte variam conforme quem conta, e os jornais americanos da época deram ao caso poucas linhas.

Cardoso correu e completou a prova, sem chance de medalha, e a plateia aplaudiu a chegada do atleta que tinha atravessado a Califórnia para estar ali.

Na piscina, Maria Lenk nadou os 100 metros livre, os 200 metros peito e os 100 metros costas. Foi eliminada nas eliminatórias das três provas. O resultado ficou menor que o feito: uma sul-americana em Jogos, pela primeira vez, em 1932.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

Da raia do Tietê ao recorde mundial

A viagem de 1932 foi a primeira de uma carreira longa. A sequência, pelos registros do Comitê Olímpico Brasileiro e dos jornais da época:

·  15/01/1915: Maria Lenk nasce em São Paulo, filha de imigrantes alemães
·  1929: a quebra da Bolsa de Nova York derruba o preço do café brasileiro
·  06/1932: o Itaquicê deixa o Rio de Janeiro com a delegação e a carga de café
·  09/07/1932: começa em São Paulo a Revolução Constitucionalista, com o navio já em alto-mar
·  30/07/1932: abertura dos Jogos Olímpicos de Los Angeles
·  08/1932: Maria Lenk disputa as provas de natação e cai nas eliminatórias
·  1936: Maria Lenk volta aos Jogos, em Berlim, junto com outras nadadoras brasileiras
·  1939: bate dois recordes mundiais, nos 200 e nos 400 metros peito
·  1940: os Jogos marcados para Tóquio e depois Helsinque são cancelados pela Segunda Guerra

A Revolução Constitucionalista de 1932 explica parte do silêncio em torno da viagem. Enquanto a delegação navegava, São Paulo pegava em armas contra o governo Vargas, e os jornais do país ocuparam as páginas com a guerra paulista.

Maria Lenk era paulista e soube do conflito longe de casa. Voltou a um estado derrotado em outubro, depois de três meses de combates entre as tropas paulistas e as federais.

Em Berlim, quatro anos depois, ela levou para a piscina um estilo novo no nado de peito: os dois braços saíam juntos da água, por cima, movimento que mais tarde ganhou nome próprio e virou o nado borboleta.

A nadadora que treinou braçada no convés de um cargueiro chegou ao recorde mundial 7 anos depois.

Os recordes de 1939 foram batidos no Rio de Janeiro, e Maria Lenk era a favorita para os Jogos de 1940. A guerra cancelou aquela Olimpíada e a de 1944, e a nadadora encerrou a carreira de competição sem a chance de disputar uma medalha no auge.

O nado de braços por cima da água acabou separado do peito pelas regras internacionais na década de 1950, e o borboleta passou a ter provas próprias nos Jogos.

Depois das piscinas, ela foi para a sala de aula. Ajudou a fundar a Escola Nacional de Educação Física, no Rio de Janeiro, e dirigiu a instituição. Seguiu nadando em provas de categoria máster até depois dos 90 anos.

Maria Lenk viveu até 2007, quando tinha 92 anos. O parque aquático construído para os Jogos Pan-Americanos do Rio, naquele ano, recebeu o nome dela.

 

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III  O Documento na Íntegra

As memórias, o navio e o arquivo

A viagem do Itaquicê se confere em quatro fontes de acesso público: um livro, um acervo esportivo, os jornais da época e o registro olímpico internacional.

Em "Braçadas e abraços", de Maria Lenk, 1986: a nadadora conta a infância no Tietê, os treinos no convés e a chegada a Los Angeles. É o único relato em primeira pessoa de uma atleta da delegação feminina de 1932, porque ela era a delegação feminina inteira.

No acervo do Comitê Olímpico Brasileiro: o COB mantém a lista dos atletas de 1932, as modalidades disputadas e a versão oficial da taxa de desembarque e da venda do café. O material aparece nas publicações comemorativas da entidade e no site do Time Brasil.

Na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional: os jornais do Rio de Janeiro de junho a agosto de 1932 noticiam a partida do navio e os resultados nos Jogos. A cobertura disputa espaço com a Revolução Constitucionalista e encolhe a partir de julho.

No relatório oficial dos Jogos de 1932: o comitê organizador de Los Angeles publicou o relatório completo da edição, com a lista de países, inscritos e resultados. O documento está digitalizado na biblioteca do Comitê Olímpico Internacional.

As memórias de Maria Lenk são a fonte mais rica das quatro. Ela descreve o navio, a comida, o calor do porão e a escolha de quem desembarcava com a voz de quem estava lá e tinha 17 anos.

O relatório de Los Angeles conta a mesma participação com outro foco. Nele, o Brasil aparece como uma das delegações inscritas, sem nenhuma linha sobre café, navio ou atletas que ficaram a bordo.

Na divergência: o número exato de atletas que viajaram e o de sacas embarcadas variam entre as fontes, e esta edição não encontrou contagem oficial consolidada. Quanto a venda do café rendeu também não aparece em documento com autor e ano, e fica fora desta conta.

As fontes concordam na viagem no Itaquicê, na carga de café, na taxa de desembarque e na participação de Maria Lenk como primeira sul-americana. Discordam no tamanho da delegação e no destino final da carga.

Um cargueiro, um porão de café e uma nadadora de 17 anos: o Brasil foi à Olimpíada de 1932 vendendo o próprio produto pelo caminho.

"Quanto vale um dólar no cais quando ele decide quem compete?"

Em 30/07/2027, a abertura dos Jogos de Los Angeles completa 95 anos. Nessa data, reconfira na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional os jornais do Rio de Janeiro de junho de 1932 e, no site do Time Brasil, a lista de atletas da delegação antes de citar a viagem.

 
 
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