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Irani, 1912: o combate que abriu 4 anos de guerra no Contestado
Planalto catarinense, outubro de 1912: o Regimento de Segurança do Paraná ataca o acampamento do monge José Maria, e a guerra vai até 1916.
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Irani, 1912: o campo do primeiro combate
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E m 1966, a editora Civilização Brasileira publicou um livro do sociólogo Maurício Vinhas de Queiroz com um título longo e preciso: "Messianismo e conflito social: a guerra sertaneja do Contestado, 1912-1916". As duas datas do subtítulo marcam o começo e o fim de uma guerra que os livros escolares quase sempre resumem em uma linha.
O Contestado era o nome dado a uma faixa de mata de araucária e campos de erva-mate no planalto entre o Rio Iguaçu e o Rio Uruguai. Paraná e Santa Catarina brigavam pela área desde o Império, e cada estado mandava nela o que conseguia.
Os moradores eram caboclos (lavradores pobres, mestiços, sem título da terra), que viviam de roça, criação solta e extração de erva-mate. Poucos tinham papel que provasse a posse do chão onde moravam.
Entre 1908 e 1910, a Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande cortou o planalto. A concessão dava à empresa as terras dos dois lados dos trilhos, e uma madeireira do mesmo grupo americano, a Southern Brazil Lumber and Colonization Company, passou a derrubar pinheiros e a expulsar quem ocupava a mata.
Quando a ferrovia ficou pronta, milhares de trabalhadores trazidos para a obra foram dispensados no planalto, sem passagem de volta. Somaram-se aos posseiros despejados.
Nessa região circulavam monges (rezadores andarinos, sem ordem religiosa), que curavam com ervas e pregavam nas vilas. Em 1912 apareceu um que se apresentava como José Maria de Santo Agostinho.
Em agosto daquele ano, ele reuniu centenas de devotos na festa do Senhor Bom Jesus em Taquaruçu, no município catarinense de Curitibanos. O coronel Francisco de Albuquerque, chefe político local, telegrafou à capital acusando o grupo de defender a volta da monarquia.
A polícia de Santa Catarina foi mandada contra os devotos. José Maria e os seguidores atravessaram para o lado do Irani, terra que o Paraná considerava sua.
Em Curitiba, o governo paranaense leu a mudança como invasão de território. O Episódio do Dia começa na manhã em que a tropa do Paraná chegou ao acampamento.
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I O Episódio do Dia
A manhã no campo do Irani
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Irani, 22 de outubro de 1912. O Regimento de Segurança do Paraná, a polícia militar do estado, atacou o acampamento do monge José Maria de Santo Agostinho no campo do Irani, então área disputada entre Paraná e Santa Catarina e hoje município catarinense.
A tropa vinha sob o comando do coronel João Gualberto Gomes de Sá Filho, oficial de prestígio em Curitiba. Ele tinha recebido ordem de desalojar o grupo e devolver o lugar ao controle paranaense.
O acampamento reunia famílias inteiras: homens com facões de roça e algumas espingardas, mulheres, crianças e velhos. Os soldados levavam fuzis e uma metralhadora, segundo os relatos militares reunidos depois pelos historiadores.
O avanço se fez por um terreno de campo aberto cercado de mato. Os sertanejos atacaram a tropa de perto, a facão, antes que a vantagem das armas de fogo pesasse. A metralhadora travou nos primeiros minutos, de acordo com a mesma documentação.
O combate durou pouco. O coronel João Gualberto foi abatido em campo, junto com parte dos soldados. Do lado sertanejo caiu o próprio José Maria, atingido durante a luta.
O choque do Irani deixou os dois comandantes no chão: o coronel da tropa e o monge do acampamento.
Os soldados que sobraram recuaram e deixaram para trás armas e munição. Os sertanejos recolheram o equipamento, que passou a armar os acampamentos seguintes.
O corpo de José Maria foi enterrado ali mesmo, numa cova rasa coberta de tábuas. Os seguidores contavam que as tábuas eram para ele sair com facilidade quando voltasse.
A volta prometida ganhou forma de crença. Os devotos passaram a esperar José Maria à frente do Exército Encantado de São Sebastião, uma tropa de santos que viria julgar os poderosos e devolver a terra aos pobres.
Quem era o monge segue em parte sem resposta. Os registros policiais da época o identificam como Miguel Lucena de Boaventura, soldado desertor, e os historiadores ainda debatem os detalhes da vida dele antes de 1912.
Em Curitiba, a morte de João Gualberto causou comoção pública. O governo do Paraná culpou Santa Catarina pela presença do grupo, e a disputa de fronteira ficou mais azeda.
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II Neste Dia no Brasil
Do acampamento à guerra de 4 anos
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O Irani foi o primeiro combate. A sequência, pelos registros militares e pelos atos dos governos: |
| · 1904: o Supremo Tribunal Federal dá ganho de causa a Santa Catarina na disputa de limites, e o Paraná recorre | | · 1910: a Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande completa o trecho que cruza o planalto | | · 08/1912: José Maria reúne devotos na festa de Taquaruçu, em Curitibanos | | · 22/10/1912: combate do Irani, em que caem José Maria e o coronel João Gualberto | | · 12/1913: os devotos voltam a se juntar em Taquaruçu, à espera do monge | | · 08/02/1914: tropas federais e estaduais atacam o reduto de Taquaruçu | | · 09/1914: o general Fernando Setembrino de Carvalho assume o comando da campanha | | · 04/1915: cai o reduto de Santa Maria, o maior dos acampamentos | | · 08/1916: Adeodato Manoel de Ramos, o último chefe sertanejo, é preso | | · 20/10/1916: Paraná e Santa Catarina assinam o acordo de limites no Rio de Janeiro |
Depois do Irani, os sertanejos passaram a viver em redutos (vilas fortificadas, com igreja, quadro santo e guarda armada). Dentro deles valia a regra da partilha: ninguém comprava nem vendia, e o que havia se dividia.
Os redutos tinham comando próprio. Entre os líderes estavam a menina Maria Rosa, que dizia receber recados do monge, e mais tarde o tropeiro Adeodato, que manteve a guerra nos últimos anos.
O governo federal levou 4 anos e mobilizou parte do Exército para encerrar a revolta de um sertão sem estrada nem cidade grande.
Setembrino de Carvalho trocou o ataque direto pelo cerco: cortou o abastecimento dos redutos e usou vaqueanos (guias locais que conheciam a mata) para chegar aos acampamentos escondidos. Pela primeira vez no país, aviões foram mandados para reconhecimento militar, numa missão que terminou com a queda do aparelho e a morte do piloto Ricardo Kirk, em 1915.
A fome venceu os redutos antes das armas. Famílias saíram em fila para se entregar, e muitos sertanejos presos foram fuzilados sem julgamento, segundo depoimentos colhidos pelos historiadores do conflito.
Adeodato foi condenado a 30 anos de prisão e acabou morto numa tentativa de fuga, em 1923. O acordo de 1916, mediado pelo presidente Wenceslau Braz, dividiu a área e desenhou a divisa que ainda separa os dois estados.
A ferrovia que ajudou a acender o conflito seguiu em operação. As terras da madeireira só passaram ao controle da União em 1940, quando o governo de Getúlio Vargas incorporou os bens do grupo americano.
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