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O texto mais revelador sobre a Gazeta do Rio de Janeiro foi escrito pela própria Gazeta. A redação imprimiu nas suas páginas um aviso que explicava ao leitor de quem era o jornal e por quem o governo respondia.
Na Gazeta do Rio de Janeiro, 1808: “Esta gazeta, ainda que pertença por privilégio aos oficiais da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, não é contudo oficial; e o governo somente responde por aqueles papéis que nela mandar imprimir em seu nome.”
O aviso separava dois tipos de texto. Os decretos e editais publicados em nome do governo eram oficiais; as notícias, traduções e comentários eram responsabilidade dos funcionários que redigiam a folha.
A separação existia no papel. Os redatores eram servidores da secretaria, a oficina pertencia à Coroa e a junta lia tudo antes da impressão, então nenhuma linha chegava ao leitor contra a vontade do governo.
No relato de John Armitage, “História do Brasil”, 1836: o inglês, que viveu no Rio nos anos 1830, resumiu o conteúdo da Gazeta como uma folha dedicada a informar a saúde dos príncipes, os aniversários da família real e as odes em louvor da corte.
Na crítica de Hipólito José da Costa: o Correio Braziliense atacou a Gazeta várias vezes nas suas páginas londrinas, acusando o jornal do Rio de gastar papel com elogio e de esconder do leitor o que acontecia no reino.
As fontes concordam no essencial. A Gazeta foi o primeiro jornal impresso no Brasil, circulou de 1808 a 1822 e nunca publicou crítica ao governo. O ponto em debate entre os historiadores da imprensa é se ela deve ser lida como jornal ou como diário de governo com outro título.
Os exemplares sobreviventes estão guardados na Biblioteca Nacional, no Rio, que digitalizou a coleção e a deixou aberta para consulta gratuita na Hemeroteca Digital, com busca por palavra em cada página.
Quem abre o número 1 hoje encontra a folha sem ilustração, em colunas de letra miúda, com o brasão real no alto e as notícias da Europa ocupando quase todo o espaço.
O valor da Gazeta hoje está no que ela registrou sem querer: preços, navios, leilões, nomes de fugitivos e a rotina de uma corte europeia instalada nos trópicos.
O aviso dizia que a Gazeta não era oficial; a junta, o redator e o prelo diziam outra versão.
“Se o primeiro jornal do país só publicava o que o governo aprovava, quem contou o que a corte preferia esconder?”
Em 10 de setembro de 2027, a Gazeta do Rio de Janeiro completa 219 anos. Nessa data, reconfira o fac-símile do número 1 na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional antes de citar o aviso de 1808.
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