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Expedição Langsdorff, 1828: os diários esquecidos por 100 anos

Rio Juruena, começo de 1828: a febre derruba a expedição russa, o chefe perde a memória e os papéis param num arquivo de Leningrado.

Canoas da expedição Langsdorff paradas na margem do rio Juruena, 1828.

Rio Juruena, 1828: a expedição sob febre

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A Editora Fiocruz publicou em 1997, no Rio de Janeiro, três volumes com um título curto na capa: “Os Diários de Langsdorff”. Eram cadernos escritos entre 1824 e 1828 por um cônsul a serviço do czar da Rússia, e quase nenhum leitor brasileiro tinha posto os olhos neles até ali.

Os cadernos tinham atravessado cem anos sem leitor. Saíram do Brasil em caixotes, seguiram para São Petersburgo e ficaram em pastas que nenhum catálogo descrevia, enquanto a cidade trocava de nome duas vezes e virava Leningrado.

O autor era Georg Heinrich von Langsdorff, médico e naturalista nascido em 1774 na Alemanha, que entrou para o serviço russo e chegou ao Rio como cônsul-geral da Rússia em 1813. Na Fazenda Mandioca, sua propriedade na serra perto de Petrópolis, recebia cientistas europeus e juntava plantas, insetos e pássaros.

Em 1821, o czar Alexandre I aprovou o plano mais ambicioso do cônsul: atravessar o interior do Brasil por terra e por rio, descrevendo tudo o que encontrasse. Langsdorff contratou desenhistas, um astrônomo, um botânico e um zoólogo, e prometeu a São Petersburgo mapas, coleções e um relato completo.

A viagem passou por Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso. Em junho de 1826, os barcos da expedição deixaram Porto Feliz, no rio Tietê, rumo a Cuiabá, pela rota das monções (os comboios de canoas que levavam gente e carga para o oeste).

Em Cuiabá, o grupo se dividiu. Uma parte desceu pelo rio Guaporé; a outra, com Langsdorff, seguiu pelo Arinos e pelo Juruena, rios que correm para o norte, rumo ao Tapajós e ao Amazonas.

Ali, no trecho mais isolado da rota, a expedição encontrou um adversário que nenhum instrumento da bagagem sabia medir. O Episódio do Dia mostra o que a febre fez com os barcos, com os homens e com a cabeça do chefe.

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I  O Episódio do Dia

A febre que parou as canoas no Juruena

Rio Juruena, norte de Mato Grosso, começo de 1828. A expedição de Georg Heinrich von Langsdorff desce o rio em canoas carregadas de caixotes, papel de desenho e instrumentos. A bordo vão o cônsul, o desenhista francês Hercule Florence e o astrônomo russo Néster Rubtsov, além de remadores e guias.

Florence tinha entrado na viagem em 1825 como segundo desenhista. O primeiro, o alemão Johann Moritz Rugendas, deixara o grupo no ano anterior, brigado com Langsdorff.

O rio era bonito e perigoso. Cachoeiras obrigavam a descarregar as canoas e arrastá-las por terra, e as margens alagadas criavam o ambiente ideal para o mosquito.

A febre chegou aos poucos. Primeiro caíram os remadores, depois os cientistas. Hoje se sabe que a doença era malária (infecção transmitida pela picada do mosquito Anopheles), mas em 1828 os viajantes falavam em “febres intermitentes”, sem conhecer a causa.

Remédio havia pouco. A quina (casca de árvore da qual depois se extraiu o quinino) era o recurso disponível, e acabava rápido numa viagem de meses.

As cachoeiras pioravam o quadro. Cada descarga de canoa exigia horas de trabalho na água e na lama, e os doentes que ainda andavam eram chamados para carregar caixotes.

Florence registrou o abatimento do grupo: canoas paradas nas margens, homens deitados no fundo dos barcos, quase ninguém em condição de remar.

Rubtsov tinha uma tarefa que a febre não suspendeu: medir latitudes e longitudes ao longo do rio. Mesmo com o grupo abatido, ele seguiu anotando posições, e essas medidas permitiram desenhar o trajeto da expedição nos mapas.

No Juruena, a expedição perdeu ao mesmo tempo a força dos braços e a cabeça que a comandava.

Langsdorff piorou de forma diferente dos outros. A febre cedia e deixava nele confusão, esquecimento e frases sem sentido. O cônsul que tinha anotado cada dia durante quatro anos já não reconhecia o que estava fazendo.

Por volta de maio de 1828, os companheiros entenderam que a perda de memória não ia passar. Rubtsov e Florence assumiram as decisões da viagem e passaram a conduzir o chefe como passageiro.

A outra metade da expedição também sofria. No rio Guaporé, o jovem desenhista Aimé-Adrien Taunay se afogou em janeiro de 1828, ao tentar atravessar o rio a nado.

O grupo do Juruena alcançou o Tapajós, desceu até Santarém e seguiu para Belém, onde esperou a equipe do Guaporé. Em 1829, todos voltaram por mar ao Rio de Janeiro.

Langsdorff nunca se recuperou. Retornou à Europa em 1830 e viveu o resto da vida em Freiburg, na Alemanha, sem conseguir organizar o material que tinha juntado. Morreu lá em 1852, aos 77 anos.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

De Porto Feliz a Leningrado: a viagem e o sumiço

Os papéis da expedição levaram cem anos para voltar a ser lidos. Os marcos, pela edição dos diários publicada pela Editora Fiocruz em 1997:

• 1813: Langsdorff assume o consulado-geral da Rússia no Rio de Janeiro

• 1821: o czar Alexandre I aprova a expedição

• 1824: começa a viagem pelo interior de Minas Gerais

• Junho de 1826: os barcos partem de Porto Feliz, no rio Tietê

• Janeiro de 1827: a expedição chega a Cuiabá

• Janeiro de 1828: Aimé-Adrien Taunay se afoga no rio Guaporé

• Começo de 1828: a febre derruba o grupo no rio Juruena

• 1829: a expedição volta por mar ao Rio de Janeiro

• 1852: Langsdorff morre em Freiburg, na Alemanha

• 1930: os papéis são localizados no arquivo da Academia de Ciências, em Leningrado

• 1997: a Fiocruz publica os diários em português

O sumiço tem explicação conhecida. O material seguiu para São Petersburgo em remessas, sem um chefe capaz de descrevê-lo, e foi repartido entre o Jardim Botânico, o Museu Zoológico e o arquivo da Academia de Ciências. Sem relatório final, ninguém sabia o que procurar.

Florence fez o caminho inverso. Ficou no Brasil, casou-se e foi morar em Campinas, onde em 1833 criou um processo de fixar imagens com a luz e o chamou de photographie (fotografia, em francês).

Florence também criou a zoofonia (o registro dos sons dos animais em notação musical), tentativa de anotar no papel o canto das aves que tinha ouvido nos rios.

A expedição sobreviveu partida em duas metades: o relato de Florence no Brasil e as pastas sem catálogo em Leningrado.

O relato de Florence saiu em português em 1875, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, traduzido por Alfredo d'Escragnolle Taunay, sobrinho do desenhista afogado no Guaporé.

Na Rússia, a viagem ganhou um historiador. O etnógrafo Guenrikh Manizer, que esteve no Brasil numa expedição russa em 1914 e 1915, escreveu a história da expedição de Langsdorff; o livro saiu em 1948 e ganhou tradução brasileira em 1967, na coleção Brasiliana.

As pranchas também voltaram a circular. Aquarelas de Rugendas, Taunay e Florence passaram a ser reproduzidas em livros e exposições, e hoje são das imagens mais usadas para mostrar o interior do Brasil antes da fotografia.

Uma parte da história segue sem resposta. Vários desenhos da coleção não têm assinatura, e a autoria de alguns ainda é discutida entre os três artistas, porque eles trabalharam lado a lado e copiavam esboços uns dos outros.

 

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III  O Documento na Íntegra

As últimas páginas do caderno do cônsul

O documento central desta história é o próprio diário de Langsdorff. São cadernos em alemão, de letra apertada, que registram datas, distâncias, plantas, povos encontrados e problemas de dinheiro e de gente.

A edição da Fiocruz, organizada por Danuzio Gil Bernardino da Silva, traduziu os cadernos para o português e os publicou em três volumes, cobrindo de 1824 a 1828.

No diário de Langsdorff, 1828: as entradas finais encurtam, repetem informações e perdem a ordem das datas, até pararem no meio da descida do Juruena, quando o autor já não conseguia escrever.

No relato de Hercule Florence, “Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas”, 1875: o desenhista descreve o chefe febril e confuso e conta como ele e Rubtsov passaram a tomar as decisões que antes cabiam ao cônsul.

Nas pranchas da expedição: as aquarelas de Florence mostram indígenas apiacás e mundurucus, cachoeiras do Arinos e do Juruena e acampamentos montados na margem, com a data e o lugar anotados embaixo.

Lidos juntos, os três registros contam a mesma viagem por ângulos distintos. O diário mostra a cabeça do chefe se apagando; o relato de Florence mostra quem assumiu o comando; as pranchas guardam o que os dois viram no rio.

Os cadernos originais continuam na Rússia. Estão no arquivo da Academia de Ciências, em São Petersburgo, nome que a cidade recuperou em 1991.

A travessia dos papéis até o leitor brasileiro dependeu de pesquisadores dos dois países. Cópias dos cadernos vieram para o Brasil, foram transcritas do alemão manuscrito e traduzidas, um trabalho que levou anos até chegar à gráfica.

O diário também registra o custo da viagem: compra de canoas, salário dos remadores, falta de dinheiro vindo da Rússia e brigas com a equipe, assuntos que nenhum relatório oficial teria publicado.

A tradução brasileira permite ler o diário sem saber alemão. Quem abre o terceiro volume encontra, nas páginas de 1828, a letra de um cientista meticuloso virando, entrada após entrada, um registro cada vez mais curto.

O diário termina antes da viagem: o chefe parou de escrever no Juruena e a expedição seguiu sem ele saber.

“Se o chefe perdeu a memória no Juruena, quanto do Brasil de 1828 só chegou até nós porque um desenhista continuou anotando?”

Em janeiro de 2028, a febre do Juruena completa 200 anos. Nesse mês, reconfira no terceiro volume de “Os Diários de Langsdorff”, da Editora Fiocruz, a data da última entrada do cônsul antes de citá-la.

 
 
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No rio Guaporé, em janeiro de 1828, quem morreu afogado ao tentar atravessar o rio a nado?

AHercule Florence
BNéster Rubtsov
CAimé-Adrien Taunay
DJohann Moritz Rugendas

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