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Duguay-Trouin e o resgate do Rio em 1711

Rio de Janeiro, 1711: um corsário francês toma a cidade e cobra ouro, açúcar e bois para devolvê-la.

Navios de guerra franceses a vela bombardeando uma cidade colonial à beira de uma baía cercada de morros.

Baía de Guanabara, 1711: a esquadra francesa

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As memórias de René Duguay-Trouin, impressas na França em 1740, dão à conta cobrada do Rio de Janeiro um rótulo seco: "la rançon de la ville", o resgate da cidade. O valor fechado com os moradores foi de 610 mil cruzados, 100 caixas de açúcar e 200 bois.

O cruzado era a moeda portuguesa de 400 réis. Os 610 mil cruzados saíram em ouro, prata e moeda recolhidos às pressas do cofre real, das igrejas e dos comerciantes da cidade ocupada.

O Rio de 1711 tinha acabado de ganhar peso novo. O ouro achado nas Minas Gerais na última década do século anterior descia a serra e embarcava ali para Lisboa. Quem controlava a baía de Guanabara controlava a saída da maior riqueza do império português.

Portugal estava em guerra com a França. Era a Guerra de Sucessão Espanhola (1701 a 1714, a disputa das coroas europeias pelo trono vago de Madri), e Lisboa tinha ficado ao lado da Inglaterra. Navio francês que cruzasse com carga portuguesa podia tomá-la como presa legítima.

Em 1710, o capitão francês Jean-François Duclerc tentou tomar o Rio. Desembarcou em Guaratiba com cerca de mil homens, marchou pelo interior e foi derrotado nas ruas da cidade. Os sobreviventes viraram prisioneiros.

Duclerc ficou preso numa casa do centro. Em 18/3/1711, homens mascarados entraram ali e o mataram. Ninguém foi julgado pela morte, e a corte de Luís XIV tratou o caso como afronta à bandeira francesa.

Duguay-Trouin era corsário (capitão particular autorizado pelo rei a atacar navios inimigos, pago com a parte do que capturasse). Ele usou a morte de Duclerc para convencer armadores (investidores que bancavam navios de corso) e o próprio rei a financiar uma expedição maior.

A seção I acompanha essa esquadra desde a entrada na barra até a madrugada em que o governador largou a cidade.

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I  O Episódio do Dia

Neblina na barra e uma cidade vazia

Uma neblina na barra abriu o porto do ouro a um corsário.

Baía de Guanabara, 12/9/1711. A esquadra de René Duguay-Trouin, com 17 navios e perto de 5.700 homens, aproveita a neblina da manhã e entra pela barra do Rio. Passa sob o fogo das fortalezas de Santa Cruz e de São João e ancora dentro da baía antes que a defesa se organize.

O governador Francisco de Castro Morais tinha recebido aviso de Lisboa sobre uma frota francesa a caminho. Chegou a pôr tropas em alerta nas praias, mas as desmobilizou quando os navios demoraram a aparecer.

Havia também uma esquadra portuguesa no porto, sob o comando de Gaspar da Costa de Ataíde. Diante da entrada francesa, parte dos navios foi encalhada e incendiada pelas próprias tripulações, para não cair nas mãos do inimigo.

No dia seguinte, os franceses tomaram a ilha das Cobras, a poucas centenas de metros do cais. Ali montaram baterias de canhão apontadas para o casario, os armazéns e o morro de São Bento.

Os desembarques seguiram pela costa. Tropas francesas ocuparam elevações em volta do núcleo urbano e fecharam o cerco por terra. Os canhões da ilha e dos navios passaram a bater a cidade dia e noite.

O comandante tinha 38 anos e fama feita no Atlântico. Nascido em Saint-Malo, porto bretão de armadores, capturou dezenas de navios ingleses e holandeses nas guerras de Luís XIV e recebeu do rei título de nobreza por serviços no mar.

Em 19/9, Duguay-Trouin mandou ao governador uma intimação (ordem formal de rendição). Castro Morais respondeu que defenderia a praça.

Na noite de 20/9 para 21/9, sob temporal, o governador ordenou a retirada e a população fugiu para o interior com o que podia carregar, deixando para trás o ouro guardado, os armazéns cheios e a cidade aberta.

Quando amanheceu, os franceses entraram numa cidade quase deserta. Seguiram-se dias de saque: casas arrombadas, igrejas esvaziadas, barris de vinho abertos nos armazéns do porto. O próprio Duguay-Trouin registra nas memórias que teve dificuldade para conter os soldados.

Uma das primeiras providências foi abrir as prisões. Os sobreviventes da expedição de Duclerc, presos desde o ano anterior, voltaram às fileiras francesas.

Faltava transformar a ocupação em lucro. Casas saqueadas não pagavam os armadores, e a esquadra não podia ficar meses parada num porto cercado por tropas portuguesas vindas do interior.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

Um acordo fechado com a cidade ocupada

Christie saiu do Brasil em 1863, chamado de volta por Londres. A sentença de Leopoldo I, que ele próprio ajudou a provocar, desmontou a acusação central dele: o rei concluiu que a polícia do Rio aplicou a lei brasileira aos três oficiais sem premeditar ofensa e sem ofender a Marinha britânica.

A sequência dos fatos, pelos papéis diplomáticos publicados pelos dois governos:

Duguay-Trouin buscava dinheiro para quem tinha pagado os navios, e nenhuma posse territorial para a França. A ameaça que usou na negociação foi arrasar a cidade: queimar casas, igrejas e armazéns se o governador, refugiado no interior, não pagasse.

A sequência, pelas memórias do corsário e pelos papéis do processo aberto em Lisboa contra o governador:

·  Setembro de 1710: Jean-François Duclerc desembarca em Guaratiba e é derrotado nas ruas do Rio
·  18/3/1711: Duclerc é morto por mascarados na casa onde estava preso
·  12/9/1711: a esquadra de Duguay-Trouin entra na baía de Guanabara sob neblina
·  13/9/1711: os franceses tomam a ilha das Cobras e montam baterias
·  21/9/1711: a população e o governador abandonam a cidade durante a noite de temporal
·  10/10/1711: Castro Morais assina o acordo de resgate
·  13/11/1711: a esquadra francesa deixa o porto

A negociação correu enquanto a cidade seguia ocupada. Castro Morais alegou não ter a soma pedida. Duguay-Trouin recusou a primeira oferta e mandou atear fogo em alguns pontos para mostrar que a ameaça valia.

O acordo fixou os 610 mil cruzados, pagos em parcelas, e acrescentou 100 caixas de açúcar e 200 bois. O açúcar era carga vendável na Europa. Os bois alimentariam milhares de homens na travessia de volta.

Os bois tinham ainda outro uso imediato. A esquadra estava havia semanas no Rio, com tripulações cansadas e doentes, e carne fresca era a única garantia de chegar à França sem perder homens de fome no caminho.

O dinheiro veio de onde havia. Saiu do cofre da Fazenda Real, da prata das irmandades religiosas e de empréstimos forçados a comerciantes. O ouro das Minas guardado na cidade, que os franceses não tinham achado no saque, entrou na conta.

Dias depois da assinatura chegou do interior Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, governador de São Paulo e Minas do Ouro, com milhares de homens armados. Encontrou o acordo firmado e cumpriu o que o governador do Rio tinha assinado.

Os franceses zarparam em 13/11/1711 com o resgate a bordo, e a volta cobrou o próprio preço: uma tempestade perto dos Açores afundou os navios Magnanime e Fidèle, com parte do ouro nos porões.

Mesmo com as perdas, a expedição rendeu lucro aos armadores, segundo o próprio Duguay-Trouin. Em Lisboa, Castro Morais respondeu a processo pela entrega da cidade e foi condenado ao degredo perpétuo (exílio sem volta) na Índia.

 

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III  O Documento na Íntegra

As memórias de Duguay-Trouin

O ataque de 1711 se confere em quatro acervos: as memórias do corsário, o processo contra o governador, os papéis do Conselho Ultramarino e as crônicas portuguesas da época.

Nas Mémoires de M. Du Guay-Trouin, 1740: o livro foi reeditado várias vezes no século XVIII. Duguay-Trouin descreve a entrada pela neblina, o bombardeio, o saque e a negociação, e chama o pagamento de "la rançon de la ville" (o resgate da cidade). É a versão do vencedor, escrita para mostrar ao rei e aos armadores que o investimento valeu.

No processo contra Francisco de Castro Morais: a devassa (inquérito judicial da Coroa portuguesa) ouviu testemunhas sobre a desmobilização das tropas, a retirada noturna e o acordo. Ali está a versão de quem acusava o governador de covardia e a defesa dele.

No Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa: os documentos do Conselho Ultramarino (órgão que administrava as colônias portuguesas) sobre o Rio em 1711 trazem cartas, listas de prejuízos e ordens de Lisboa. Boa parte está digitalizada pelo Projeto Resgate, catálogo aberto de papéis coloniais do Brasil.

Na Biblioteca Nacional do Rio: relatos portugueses impressos depois do ataque e estudos sobre a ocupação guardam a versão dos moradores, com as igrejas saqueadas e a fuga sob chuva.

Na divergência: a morte de Duclerc em 1711 continua sem autoria. Os mascarados nunca foram identificados, a investigação da época não apontou culpados, e as suspeitas correram entre rivais pessoais e agentes do próprio governo. Sem confissão nem sentença, a pergunta segue sem resposta documentada.

Na historiografia brasileira: o episódio aparece nas obras gerais sobre o Rio colonial como a pior humilhação militar da cidade no período português. Depois de 1711, Lisboa reforçou as fortalezas da barra e, em 1763, transferiu a capital do Estado do Brasil de Salvador para o Rio.

As fontes concordam nas datas, na soma, no açúcar e nos bois. Discordam na culpa: a memória francesa vê coragem própria, e o processo português vê um governador que abriu mão da cidade.

Uma esquadra que entrou pela neblina, uma cidade vazia após uma noite de temporal e 610 mil cruzados: o Rio pagou para voltar a ser português.

"Uma cidade que foge na chuva ainda pode ser chamada de derrotada?"

Em 10/10/2026, o acordo de resgate completa 315 anos. Nessa data, reconfira no catálogo do Projeto Resgate, na série do Rio de Janeiro do Arquivo Histórico Ultramarino, as cartas sobre a ocupação, e na Biblioteca Nacional as Mémoires de 1740 antes de citar os números do resgate.

 
 

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Além dos 610 mil cruzados, o que mais o acordo de resgate do Rio em 1711 obrigou a cidade a entregar a Duguay-Trouin?

A100 caixas de açúcar e 200 bois
B50 navios e 300 escravos
C200 caixas de tabaco e 100 cavalos
D300 barris de vinho e 50 canhões

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