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Congonhas, os doze profetas anotados em livro
1800 a 1805, Congonhas do Campo: as figuras de pedra-sabão sobem uma a uma no adro, e cada pagamento fica lançado pela irmandade.
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Congonhas, 1805: os profetas no adro
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"Traços biográficos relativos ao finado Antônio Francisco Lisboa", publicou Rodrigo José Ferreira Bretas no Correio Oficial de Minas, em Ouro Preto, em 1858. O texto é a primeira biografia do escultor conhecido como Aleijadinho, escrita mais de quatro décadas depois do fim da vida dele, montada sobre depoimento de gente que ainda lembrava do homem e da oficina.
Bretas trabalhou com memória alheia porque quase nada de pessoal havia sobrado no papel. O escultor não assinava obra, não deixou correspondência, não teve inventário rico, e a documentação que o alcança é de outra natureza: contábil, seca, feita por terceiros que precisavam prestar contas de dinheiro de irmandade.
Essa papelada existe e continua em Congonhas do Campo. Os livros de receita e despesa da Irmandade do Bom Jesus de Matosinhos registram, ano a ano, quanto saiu do caixa da devoção, para quem foi, por qual serviço e em que data a mesa administrativa aprovou o lançamento. O escultor aparece ali como fornecedor de trabalho, com valor ao lado do nome.
A moeda desses lançamentos era o ouro em pó, medido em oitavas, unidade corrente na capitania de Minas Gerais mesmo depois que a produção das lavras já vinha caindo havia décadas. Uma obra sacra de grande porte se contratava, se media e se pagava naquela unidade, etapa por etapa.
A pedra que recebeu o trabalho também é local. A pedra-sabão de Minas sai mole da lavra, aceita o formão sem estilhaçar e vai endurecendo na exposição ao tempo, comportamento que permitiu talhar figuras de porte humano em prazo curto e assentá-las ao ar livre, sem cobertura, expostas à chuva da serra.
O que a irmandade contratou entre 1800 e 1805, e mandou lançar em livro parcela por parcela, foi um conjunto de doze figuras para o adro do santuário. Vamos ao que está lá em cima.
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I O Episódio do Dia
Doze figuras no adro e a conta em oitavas
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O conjunto de Congonhas se decide na contabilidade da irmandade, que registrou etapa por etapa quem recebeu para talhar cada figura.
Congonhas do Campo, adro do santuário do Bom Jesus de Matosinhos, entre 1800 e 1805. As figuras chegam uma a uma da oficina, sobem a escadaria em carro de boi e braço de ajudante, e vão sendo assentadas sobre a balaustrada e os patamares que dominam o vale.
São doze profetas do Antigo Testamento, todos em pedra-sabão, todos de porte próximo ao humano, todos com um filactério desenrolado nas mãos ou junto ao corpo. Cada faixa traz uma passagem em latim, tirada do livro bíblico daquele profeta, esculpida em letra que se lê de baixo, do pé da escadaria.
Alguns se reconhecem pelo atributo antes do nome. Jonas aparece com o grande peixe. Daniel vem acompanhado do leão. Os demais se identificam pelo texto do filactério, que funciona como legenda de pedra para quem sabia latim e como ornamento para quem não sabia.
As figuras não estão paradas em pose de altar. Os corpos torcem, os panejamentos giram, as cabeças se voltam para direções diferentes, e o conjunto foi disposto para ser visto em movimento, por quem sobe a escadaria e vira o rosto de patamar em patamar.
O contrato de uma obra dessas seguia um percurso administrativo que a documentação da irmandade permite reconstituir:
| · Deliberação da mesa administrativa aprovando a despesa da nova etapa | | · Ajuste do valor com o mestre, medido em oitavas de ouro | | · Extração e transporte dos blocos de pedra-sabão das lavras da região | | · Desbaste e talha na oficina, com oficiais e aprendizes trabalhando sob o mestre | | · Assentamento da figura no adro e lançamento do pagamento no livro de despesa |
Nenhuma das doze figuras está assinada. A prova documental da autoria não vem da pedra, vem do livro contábil que a irmandade era obrigada a manter para justificar cada oitava que saía do caixa da devoção.
Ecce virgo concipiet et pariet filium. Filactério do profeta Isaías, adro do santuário de Congonhas do Campo, entre 1800 e 1805 |
A oficina que produziu o conjunto não era de um homem só. Bretas descreve, em 1858, um escultor já muito debilitado por doença degenerativa iniciada por volta de 1777, com perda de movimento nas mãos e nos pés, transportado ao trabalho e auxiliado por ajudantes que preparavam a pedra e executavam partes sob orientação dele.
Os livros da irmandade registram pagamentos a esses auxiliares em nome próprio, com serviço discriminado. A folha da obra tinha mais gente do que a biografia romântica do gênio solitário admite, e é a contabilidade que devolve os outros nomes ao canteiro.
Antônio Francisco Lisboa era filho do mestre de obras português Manuel Francisco Lisboa e de Isabel, mulher escravizada da casa. Nasceu por volta de 1730 em Vila Rica, foi alforriado ainda criança e aprendeu o ofício dentro do estaleiro do pai, entre risco de planta, talha de madeira e cantaria.
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II Neste Dia no Brasil
A promessa de Feliciano Mendes e o calendário do adro
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O santuário existe por causa de uma promessa particular. Feliciano Mendes, português que trabalhava nas lavras de Minas, atribuiu a cura de uma doença grave ao Bom Jesus de Matosinhos, devoção do norte de Portugal, e passou a recolher esmolas para levantar uma capela no morro de Congonhas, a partir de 1757. |
A construção atravessou a segunda metade do século XVIII com dinheiro de esmola, de doação e de irmandade, e não com verba de Coroa. Quem administrava a obra era um corpo leigo, com mesa, tesoureiro e livro aberto à fiscalização dos irmãos, e é justamente essa exigência de prestação de contas que produziu o arquivo.
A sequência que a documentação e a bibliografia permitem montar:
| · 1757: Feliciano Mendes inicia a arrecadação de esmolas para a capela do morro | | · por volta de 1730: nasce em Vila Rica Antônio Francisco Lisboa, filho de mestre de obras e de mulher escravizada | | · por volta de 1777: começa a doença degenerativa que reduz o movimento das mãos e dos pés do escultor | | · 1796 a 1799: são executadas as figuras dos Passos da Paixão, em cedro policromado, para as capelas do caminho | | · 1800 a 1805: são executadas e assentadas as doze figuras de pedra-sabão do adro | | · 1814: encerra-se a vida do escultor, em Vila Rica, em condição pobre | | · 1858: Rodrigo José Ferreira Bretas publica a primeira biografia, no Correio Oficial de Minas |
O calendário da obra acompanha a curva da própria capitania. A produção de ouro das lavras mineiras vinha em queda acentuada desde as últimas décadas do século XVIII, a arrecadação da Coroa apertava, e a riqueza que sustentava encomenda sacra de grande porte já estava minguando quando o adro recebeu a primeira figura.
O conjunto de Congonhas também fecha um percurso devocional que começa embaixo. O fiel subia o caminho passando pelas capelas dos Passos, com as cenas da Paixão em madeira policromada e tamanho natural, e chegava ao adro para encontrar, em pedra, as vozes que anunciaram aquela mesma história séculos antes.
O que veio depois de 1805, verificável na documentação posterior:
| · As figuras permaneceram ao ar livre desde o assentamento, sem cobertura, expostas à chuva e à variação térmica da serra | | · O conjunto foi inscrito no Livro de Belas Artes pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1939 | | · O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional conduziu campanhas de conservação e limpeza da pedra ao longo do século XX e do século XXI | | · O santuário e o conjunto de Congonhas entraram na lista do Patrimônio Mundial da Unesco em 1985 | | · O Museu de Congonhas, aberto na cidade em 2016, passou a tratar da história do santuário e da região mineradora |
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