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Cabanagem: a noite em que Belém caiu
Belém, 7 de janeiro de 1835: os cabanos tomam o palácio e o Grão-Pará passa às mãos de Malcher e dos Vinagre.
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Belém, 7/1/1835: os cabanos no palácio
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Domingos Antônio Raiol deu um título seco à história do Pará que começou a publicar no Rio de Janeiro em 1865: "Motins políticos". O livro trata como motim a revolta que, em 7/1/1835, entregou Belém a lavradores, remadores e soldados rasos.
Raiol tinha motivo pessoal para o tom. Era filho de um homem morto pelos cabanos no interior da província, e escreveu décadas depois, já como político do Império, com os papéis oficiais na mesa.
A província do Grão-Pará era então um território imenso, que ia do litoral atlântico até a fronteira com o Peru. Belém concentrava o porto, a alfândega, o palácio do governo e os comerciantes portugueses que controlavam o cacau, o cravo e a borracha que desciam os rios.
Fora da capital viviam os cabanos, nome tirado das cabanas de palha e barro à beira dos igarapés (pequenos braços de rio). Eram indígenas destribalizados, negros livres e escravizados, mestiços e pequenos lavradores, gente recrutada à força para a tropa e para as obras públicas.
A Independência chegou ao Pará tarde e armada. A adesão ao Rio só veio em agosto de 1823, e em outubro daquele ano mais de 250 presos morreram sufocados no porão do brigue Palhaço, no porto de Belém. A memória do porão ainda circulava na província uma década depois.
Em 1833, a Regência mandou para Belém o presidente Bernardo Lobo de Souza. Ele reforçou o recrutamento forçado, perseguiu jornais e mandou prender líderes da oposição liberal.
O mais conhecido deles era o cônego João Batista Gonçalves Campos, padre e jornalista, que se escondeu no interior e morreu ali no último dia de 1834, de uma infecção. Sem ele, a oposição perdeu o nome que segurava os mais exaltados.
O Episódio do Dia acompanha a madrugada em que esses exaltados entraram em Belém.
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I O Episódio do Dia
Madrugada no largo do Palácio
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Uma neblina na barra abriu o porto do ouro a um corsário.
Canoas nos igarapés, e ao amanhecer o Grão-Pará tinha outro dono.
Belém, madrugada de 7/1/1835. Grupos armados entram na cidade pelos caminhos da mata e pelos igarapés, em canoas, e se dividem entre o quartel e o palácio do governo. À frente estão os irmãos Francisco Pedro Vinagre e Antônio Vinagre, lavradores do rio Itapecuru, e o jovem Eduardo Angelim, cearense que vivia no Pará.
O plano vinha sendo preparado desde o ano anterior. Em outubro de 1834, tropas do governo atacaram a fazenda de Félix Clemente Malcher, no rio Acará, onde a oposição se reunia. Malcher, dono de terras e coronel da Guarda Nacional (milícia de cidadãos armados), foi preso e levado para Belém.
O ataque de janeiro contava com gente de dentro. Soldados do quartel aderiram na hora e abriram caminho, e o depósito de armas caiu quase sem combate.
O comandante das armas, Joaquim José da Silva Santiago, foi abatido no quartel. Era o chefe militar da província e o segundo nome mais odiado depois do presidente.
Lobo de Souza tentou sair do palácio a pé. Foi alcançado no largo em frente e morto a tiros pelos rebeldes nas primeiras horas da manhã. Os corpos dos dois ficaram expostos à população.
Com o palácio e o quartel tomados, os cabanos foram à cadeia e soltaram os presos políticos. Malcher saiu dali para o governo.
Antes do fim da manhã, os rebeldes aclamaram Félix Clemente Malcher presidente da província, e Francisco Vinagre ficou com o comando das armas: pela primeira vez no Império, gente das cabanas controlava uma capital de província.
A escolha de Malcher mostra como a revolta começou. Os lavradores e soldados que fizeram o ataque puseram no poder um proprietário rico, com escravos e fazenda, alguém que falava a língua das elites de Belém.
Malcher logo se declarou fiel ao imperador menino, dom Pedro II, então com 9 anos, e disse que só governaria até a maioridade dele. Os cabanos armados esperavam outro programa: o fim do recrutamento e castigo para os portugueses que mandavam no comércio.
A aliança durou pouco mais de um mês. Malcher tentou desarmar parte dos combatentes e prender Eduardo Angelim, e Francisco Vinagre ficou do lado das tropas.
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II Neste Dia no Brasil
Três presidentes em oito meses
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O palácio tomado em janeiro trocou de mão três vezes até o fim do ano, e cada troca foi decidida pelas armas. |
A sequência, pela obra de Raiol e pelos ofícios dos presidentes enviados ao Rio:
| · Outubro de 1834: tropas do governo atacam a fazenda de Malcher no Acará e o prendem | | · 31/12/1834: o cônego Batista Campos morre escondido no interior | | · 7/1/1835: os cabanos tomam Belém, Lobo de Souza e Santiago são mortos, Malcher é aclamado presidente | | · 21/2/1835: Malcher é deposto pelas tropas de Francisco Vinagre e morto a caminho da prisão | | · Junho de 1835: Francisco Vinagre entrega o governo ao marechal Manuel Jorge Rodrigues, enviado da Regência | | · 14/8/1835: os cabanos voltam a atacar Belém, Antônio Vinagre é morto no combate | | · Agosto de 1835: Eduardo Angelim assume a presidência aos 21 anos |
Depois da queda de Malcher, Francisco Vinagre governou por conta própria, mas mandou dizer ao Rio que entregaria o cargo a quem a Regência nomeasse. Cumpriu a palavra quando o marechal Rodrigues chegou com navios de guerra.
A entrega não trouxe paz. O novo presidente mandou prender cabanos e o próprio Francisco Vinagre, e os chefes que estavam no interior reagruparam os homens.
Em agosto, milhares de rebeldes voltaram a Belém. Lutaram rua a rua durante nove dias, e Antônio Vinagre, o irmão que tinha liderado o ataque de janeiro, levou um tiro no primeiro dia. Rodrigues abandonou a cidade e se refugiou na ilha de Tatuoca, na baía do Guajará.
Angelim tinha nome completo de Eduardo Francisco Nogueira Angelim. Nasceu no Ceará em 1814 e chegou ao Pará ainda adolescente, com a família que fugia da seca. Trabalhou em lavoura no rio Acará, onde conheceu Malcher e os Vinagre, e escrevia com facilidade, raro entre os chefes cabanos.
Eduardo Angelim assumiu com 21 anos. Governou Belém até maio de 1836, com a cidade cercada por navios imperiais, sem comida suficiente e com epidemias correndo nos bairros pobres.
Em 13/5/1836, o brigadeiro Francisco José de Souza Soares de Andréa desembarcou com tropas e retomou a capital. Angelim fugiu para o interior e foi capturado em outubro, no rio Pequeno.
A guerra continuou pelos rios por mais quatro anos: os últimos grupos cabanos só depuseram as armas depois da anistia de 1840, concedida quando Pedro II teve a maioridade antecipada.
Angelim foi mandado preso para o Rio e depois para Fernando de Noronha. Voltou ao Pará anos mais tarde, viveu no interior e morreu em 1882, sem nunca ter sido julgado por um tribunal civil.
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