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Angicos, a grota cercada antes do amanhecer
28 de julho de 1938, Sergipe: a volante de João Bezerra fecha o cerco sobre o bando de Lampião e leva onze latas de querosene para Piranhas.
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Angicos, 1938: a grota cercada ao amanhecer
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O cangaço durou quase quarenta anos porque dependia de uma coisa que nenhuma polícia estadual conseguia comprar no varejo: informação em tempo útil. Cada bando andava apoiado numa rede de coiteiros, fazendeiros, vaqueiros e moradores de estrada que forneciam comida, munição, remédio, cavalo e, acima de tudo, o aviso de que a tropa estava a meio dia de marcha.
A rede não era caridade nem simpatia romântica. Era contrato. O bando garantia que a fazenda do coiteiro não seria assaltada e que desafeto dele levaria recado armado; o coiteiro devolvia abrigo, rota limpa e silêncio diante do delegado. Quem entrava no arranjo comprava proteção num sertão onde o Estado chegava atrasado e mal armado.
A partir do começo dos anos 1930 o poder público mudou o alvo. Em vez de perseguir o bando pelo mato, passou a atacar a rede que o sustentava: prisão e processo para coiteiro identificado, prêmio em dinheiro por informação útil, cadastro de fazendas suspeitas e pressão econômica sobre quem vendia munição sem registro.
Junto veio equipamento. As volantes de Alagoas, Sergipe, Pernambuco e Bahia passaram a combinar deslocamento por telégrafo e telefone, ganharam fuzis e metralhadoras leves, e trocaram a caçada em coluna larga pela emboscada armada sobre ponto de pouso conhecido.
O cerco se fechou também no mapa. O bando comandado por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, foi sendo empurrado para a faixa de divisa entre Sergipe e Alagoas, no vale do rio São Francisco, região de grotas fundas e caatinga fechada, boa para esconder gente e péssima para alimentar gente.
Em 1938 o grupo principal já não passava de algumas dezenas de pessoas, contando mulheres, e circulava por um circuito curto de fazendas amigas. Um bando que precisa voltar sempre aos mesmos pontos de água vira previsível, e previsibilidade é o começo de qualquer emboscada bem-sucedida.
Faltava só a peça que o dinheiro do prêmio existia para comprar: alguém de dentro do circuito disposto a dizer, com precisão de véspera, em que grota o bando dormiria.
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I O Episódio do Dia
A grota cercada às cinco e meia da manhã
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Angicos foi decidida no papel antes da encosta.
28 de julho de 1938, grota de Angicos, no sertão do rio São Francisco, então município de Poço Redondo, Sergipe. Antes do sol nascer, cerca de cinco dezenas de policiais alagoanos ocupam as encostas que fecham a grota e esperam a claridade suficiente para enxergar o acampamento lá embaixo.
A tropa era uma volante da polícia de Alagoas, comandada pelo tenente João Bezerra da Silva, então alferes, com o cabo Aniceto Rodrigues da Silva à frente do grupo de assalto. Um contingente alagoano operando em solo sergipano, o que já mostra o tamanho da coordenação entre governos estaduais montada para aquele cerco.
A informação que levou a tropa ali veio de dentro do circuito de coiteiros, entregue por um homem que conhecia a rotina do bando e sabia o ponto exato de pouso. A identificação do delator, e o quanto ele recebeu, é o ponto em que os relatos ainda divergem entre si.
O terreno fez o resto. Angicos é uma grota estreita, com paredões nos dois lados e uma única saída boa, com água disponível e sombra, exatamente o tipo de lugar que um bando cansado escolhe para dormir e exatamente o tipo de lugar em que ninguém consegue sair correndo.
A sequência do amanhecer, na ordem em que aconteceu:
| · A volante ocupa as encostas ainda no escuro e distribui as armas longas nos dois flancos | | · O acampamento acorda em rotina normal, sem sentinela avançada nos pontos altos | | · O primeiro fogo parte de cima, com fuzil e metralhadora leve, sobre a área de barraca | | · O grupo se fragmenta na grota, parte tenta a subida, parte busca a saída de água | | · Em poucos minutos o enfrentamento cessa no fundo da grota; a maioria do bando escapa pelas encostas |
O que decidiu Angicos não foi arma melhor, foi endereço certo entregue com um dia de antecedência. Sem a informação de véspera, aquela mesma volante teria passado meses subindo e descendo serra atrás de rastro frio. A técnica antiga de bater mato não venceu nada.
Onze pessoas do bando ficaram na grota, entre elas Virgulino Ferreira da Silva e Maria Gomes de Oliveira, a Maria Bonita. Os demais romperam o cerco pelas encostas e seguiram dispersos pelo sertão nos meses seguintes.
O que aconteceu depois virou o símbolo do episódio. As onze cabeças foram separadas e acondicionadas em latas de querosene com cal e aguardente, método usado no sertão para transportar material orgânico em viagem longa sob calor, e levadas de comboio até a cidade de Piranhas, em Alagoas.
A exibição das cabeças não foi excesso de tropa exaltada. Foi política deliberada de prova pública, num sertão em que a autoridade estadual precisava mostrar fisicamente que o cangaço tinha sido vencido. Frederico Pernambucano de Mello, Guerreiros do Sol: Violência e Banditismo no Nordeste do Brasil, 2004 |
Em Piranhas, as latas foram abertas e o conteúdo disposto na escadaria da prefeitura, ao lado de armas, chapéus, bornais e joias apreendidas, e fotografado. A fotografia circulou em jornal, revista e cartão postal, e é hoje a imagem mais reproduzida do cangaço.
A exposição continuou em turnê oficial. O material passou por Santana do Ipanema, chegou a Maceió e terminou em Salvador, onde ficou no Museu Nina Rodrigues, ligado à Faculdade de Medicina da Bahia, sob argumento de estudo antropológico, permanecendo em vitrine por três décadas.
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II Neste Dia no Brasil
Quarenta anos de volante atrás de um bando
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O cangaço não nasceu com Lampião nem terminou de vez em Angicos. A prática de bando armado percorrendo o sertão, ora a serviço de família poderosa, ora por conta própria, é anterior à República e atravessa a Primeira República inteira como forma de resolver disputa onde não havia tribunal funcionando. |
O que mudou no século XX foi a escala. O bando deixou de ser braço de uma única família e virou empresa itinerante, com rota de vários estados, contabilidade de resgate cobrado, fornecedor de munição e capacidade de negociar diretamente com prefeito e fazendeiro.
A linha do tempo do circuito que terminou na grota:
| · 1897: nasce Virgulino Ferreira da Silva, em Vila Bela, hoje Serra Talhada, Pernambuco | | · 1922: já com bando próprio, passa a operar entre Pernambuco, Paraíba e Ceará | | · 1926: recebe patente irregular de capitão para combater a Coluna Prestes, logo cassada | | · 1930: Maria Bonita passa a acompanhar o grupo, e outras mulheres entram nos bandos | | · 1936: o mascate Benjamin Abrahão filma e fotografa o bando no sertão de Pernambuco | | · 1938: cerco de Angicos, na divisa de Sergipe com Alagoas, em 28 de julho |
O Estado aprendeu devagar e caro. Durante anos, a resposta oficial foi mandar volante atrás de rastro, com tropa mal paga, mal armada e sem mapa confiável, o que produzia marcha de semanas, população local hostil e quase nenhum resultado.
A virada veio pelo bolso e pelo cadastro. Prêmio em dinheiro por informação, processo criminal contra coiteiro, controle de venda de munição e comunicação por telégrafo entre delegacias de estados vizinhos valeram mais que qualquer aumento de efetivo no mato.
O que o cerco de 1938 mudou de imediato, sem disputa entre as fontes:
| · O circuito de coiteiros do São Francisco se desfez em poucos meses, por medo de processo | | · Os grupos remanescentes se dividiram e perderam capacidade de assalto a povoado | | · Corisco manteve bando ativo no sertão baiano até 1940, quando também foi cercado | | · A imprensa do Sul e do Sudeste tratou o caso como fim de uma era, e não como uma ação policial |
A parte final da história levou trinta e um anos para ser fechada. Em 1969, depois de pedidos insistentes de familiares e de uma campanha pública com apoio de intelectuais, o material exposto no museu de Salvador foi retirado da vitrine e sepultado, encerrando a exibição.
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