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Faltava alguém com poder de assinar papel ouvindo do outro lado.
Domingo, 3 de junho de 1900, cidade de São Paulo. O aparelho de emissão fica no alto da Avenida Paulista. O de recepção fica no morro de Santana, do outro lado da várzea, a cerca de oito quilômetros.
Landell de Moura não convidou apenas curiosos. Chamou jornalistas da imprensa paulistana e, principalmente, o cônsul britânico na cidade, Charles Peter Lupton, que representava a maior potência de comunicação da época.
A escolha do cônsul não foi vaidade. Era a única testemunha ali cuja assinatura valia num escritório de patentes do outro lado do Atlântico, e o padre já pensava no passo seguinte.
A demonstração transmitiu voz articulada de um ponto ao outro, sem fio ligando as duas estações, com o vale do Tietê no meio do caminho.
Não era telegrafia. Não havia operador traduzindo ponto e traço na chegada: quem estava na estação receptora ouvia palavra formada.
O relato da imprensa é curto e é justamente por ser curto que serve. Uma nota no Jornal do Commercio, em junho de 1900, registrou as experiências de transmissão à distância feitas pelo padre em São Paulo, com o cônsul entre os presentes.
Nota de jornal contemporânea é o tipo de documento que resiste. Ela não prova o alcance exato nem a qualidade do som, mas amarra três coisas que a memória costuma embaralhar: o nome, o lugar e o mês.
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Aparelho destinado à transmissão fonética à distância, com ou sem fios, através do espaço, terra e elemento aquoso.
Descrição do privilégio de invenção nº 3.279, concedido pelo governo brasileiro em 9 de março de 1901
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A carta patente brasileira 3.279 é o documento que transforma a tarde de domingo em fato administrativo: pedido protocolado em 1900, concessão em março de 1901, com o objeto descrito em uma linha.
Com o papel na mão, o padre foi para os Estados Unidos em 1901 e ficou lá até 1904, morando modestamente e mexendo nos aparelhos entre uma audiência e outra no escritório de patentes.
De lá saíram três certificados, todos de 1904. O primeiro, nº 771.917, protege um transmissor de ondas, e leva a data de 11 de outubro daquele ano.
Os outros dois vieram juntos, em novembro: um telefone sem fio, nº 775.337, e um telégrafo sem fio, nº 775.846.
Três patentes concedidas por um escritório estrangeiro exigente não provam que o aparelho funcionava bem. Provam que a descrição técnica era original o bastante para passar no exame de novidade de 1904.
Ele voltou ao Brasil em 1905 e não encontrou comprador. O governo não financiou, a Marinha não adotou, e o clero em parte da imprensa tratou o padre inventor como figura excêntrica.
Landell de Moura passou os últimos anos em Porto Alegre, dando aula e cuidando de paróquia, e faleceu na cidade em 1928. Parte dos seus aparelhos e papéis se perdeu, e uma parte foi recolhida depois por institutos gaúchos.
O reconhecimento veio meio século atrasado, por decreto e por efeméride, quando já não havia com quem discutir prioridade.
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