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A tarde de Råsunda e a primeira taça erguida longe de casa
29 de junho de 1958, Solna: a Suécia abre o placar aos quatro minutos e o Brasil devolve cinco, dois deles de um garoto de 17 anos.
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Solna, 1958: a taça que veio de fora
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O Jornal dos Sports, do Rio de Janeiro, estampou "Campeão do mundo" na capa de 30 de junho de 1958, e a expressão entrava pela primeira vez no vocabulário esportivo brasileiro. Até aquela semana o país tinha quatro participações em Copa e nenhuma taça no armário.
O título viera na véspera, em Solna, cidade colada em Estocolmo, dentro do Råsunda, estádio nacional sueco inaugurado em 1937 e escolhido para a decisão do torneio. A Suécia jogava em casa, dirigida pelo inglês George Raynor, e chegou à decisão invicta na fase final, com o estádio inteiro do seu lado e a imprensa local dando o troféu como assunto resolvido.
No Brasil era domingo à tarde e o jogo chegou pelo rádio. A televisão engatinhava no país, não havia transmissão direta da Europa, e as imagens só desembarcaram dias depois nos cinejornais, os noticiários filmados que os cinemas exibiam antes da sessão principal.
A viagem tinha sido montada como expedição. Paulo Machado de Carvalho chefiou a delegação, Vicente Feola treinou o time, Hilton Gosling respondeu pela parte médica, Mário Trigo tratou os dentes do elenco e João Carvalhaes aplicou testes psicológicos nos jogadores, um arranjo que nenhuma seleção brasileira tinha levado a um Mundial até ali.
O clima interno do país destoava dessa preparação. Nelson Rodrigues batizou de "complexo de vira-latas" a inferioridade que o brasileiro sentia diante do estrangeiro, expressão que ele cunhou em crônica daquele ano e repetiria pelo resto da vida, e a imprensa esportiva embarcou para a Suécia dividida entre a esperança e a desconfiança.
A seção a seguir reconstrói os noventa minutos de 29 de junho: quem abriu o placar, em que minuto cada gol caiu, o que o garoto de 17 anos fez com a bola no peito dentro da área sueca e como a tarde terminou no gramado.
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I O Episódio do Dia
O gol sueco aos quatro minutos e os cinco que vieram depois
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Um domínio de peito dentro da área sueca abriu o caminho da primeira taça brasileira.
Solna, arredores de Estocolmo, tarde de 29 de junho de 1958. O árbitro francês Maurice Guigue apitou o início e Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, entrou em campo com 17 anos e oito meses completos, o mais novo dos vinte e dois jogadores que pisaram o gramado do Råsunda naquela decisão.
O começo foi o pior possível para quem tinha vindo de longe. Aos quatro minutos, Nils Liedholm carregou a bola pela entrada da área, limpou dois marcadores e abriu o placar para a Suécia. Era a primeira vez na campanha que a seleção brasileira saía atrás.
A resposta levou cinco minutos. Garrincha arrancou pela ponta direita, deixou o lateral sueco para trás e cruzou rasteiro para Vavá empurrar para a rede. Aos trinta e dois do primeiro tempo a jogada se repetiu quase igual, pela mesma ponta, e Vavá fez o segundo. O intervalo chegou com 2 a 1.
Aos dez minutos do segundo tempo veio o lance que correu o mundo. Pelé dominou um cruzamento no peito dentro da área, deu um chapéu em Bengt Gustavsson, jogada em que o atacante levanta a bola por cima do marcador e vai buscá-la do outro lado, e completou de voleio antes de a bola tocar o chão. O terceiro gol saiu ali.
Zagallo, ponta-esquerda que recuava para ajudar na marcação, fez o quarto depois de a bola bater na trave. Agne Simonsson descontou para os suecos. Nos minutos finais, Zagallo cruzou da esquerda e Pelé subiu sozinho para fazer o quinto de cabeça.
O time que Vicente Feola mandou a campo na decisão:
| · Gilmar, goleiro do Corinthians, que terminou a Copa com dois gols sofridos em quatro dos seis jogos | | · De Sordi e Nílton Santos, os laterais, o segundo já veterano da campanha anterior e um dos líderes do vestiário | | · Bellini e Orlando, a dupla de zaga, com Hilderaldo Bellini na braçadeira de capitão | | · Zito e Didi, o meio de campo, com Didi encarregado de sair jogando e de armar as jogadas | | · Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo, o ataque de quatro homens do esquema 4-2-4, com quatro defensores, dois meias e quatro atacantes |
Com os dois gols daquela tarde, Pelé se tornou o jogador mais jovem a marcar numa final de Copa do Mundo, marca que segue de pé mais de seis décadas depois.
O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Nelson Rodrigues, À Sombra das Chuteiras Imortais, 1993 |
O apito final pegou Pelé chorando no ombro de Gilmar, cena que os fotógrafos suecos registraram e que rodou os jornais do mundo inteiro na manhã seguinte. Bellini recebeu a taça Jules Rimet das mãos do rei Gustavo VI Adolfo da Suécia e a ergueu acima da cabeça, gesto que virou padrão nas premiações que vieram depois.
Antes de deixar o campo, os jogadores brasileiros deram a volta no gramado carregando uma bandeira sueca, e a torcida da casa aplaudiu o time que acabara de vencê-la. Didi foi eleito o melhor jogador do torneio pelos jornalistas credenciados.
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II Neste Dia no Brasil
De 8 a 29 de junho, os seis jogos da campanha sueca
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A campanha inteira coube em três semanas, e o time que começou o torneio não foi o mesmo que terminou. |
A sequência dos jogos, pelo registro do relatório oficial do torneio e pela cobertura diária da imprensa:
| · 8 de junho de 1958: estreia contra a Áustria, vitória por 3 a 0, com dois gols de José João Altafini, o Mazzola, e um de Nílton Santos | | · 11 de junho de 1958: 0 a 0 com a Inglaterra, o primeiro jogo sem gols da história das Copas do Mundo | | · 15 de junho de 1958: Pelé e Garrincha entram como titulares pela primeira vez contra a União Soviética, e Vavá marca os dois gols da vitória | | · 19 de junho de 1958: quartas de final contra o País de Gales, 1 a 0, com o gol solitário de Pelé, o primeiro dele num Mundial | | · 24 de junho de 1958: semifinal contra a França, 5 a 2, com três gols de Pelé no segundo tempo, além dos de Vavá e Didi | | · 29 de junho de 1958: final contra a Suécia, 5 a 2, dois de Vavá, dois de Pelé e um de Zagallo | | · Julho de 1958: a delegação desembarca no Rio de Janeiro e desfila em carro aberto do Corpo de Bombeiros, com repetição do percurso em São Paulo |
A entrada de Pelé e de Garrincha no time titular a partir do terceiro jogo mudou a campanha. Os dois eram os mais jovens da delegação junto com Zito, e a decisão de escalá-los foi tomada pela comissão técnica depois de dois jogos de ataque travado.
O esquema com quatro defensores também rendeu discussão técnica no Brasil e fora dele. Zagallo recuava pela esquerda para formar um meio de campo com três homens quando o adversário tinha a bola, arranjo que a imprensa europeia passou a copiar nos anos seguintes.
O que a campanha de 1958 deixou plantado, verificável em relatório, súmula e acervo de imprensa:
| · A comissão técnica multidisciplinar, com médico, dentista e psicólogo viajando junto, que virou padrão nas delegações seguintes | | · A eleição de Didi como melhor jogador do torneio, primeiro brasileiro a receber a distinção | | · A vitrine internacional do elenco, que abriu a temporada de excursões do Santos e as propostas de clubes europeus por jogadores brasileiros | | · O esquema 4-2-4 documentado em relatório técnico e reproduzido por seleções e clubes fora do Brasil | | · Um acervo extenso de filmes, fotografias e coleções de jornal, que sustenta a pesquisa sobre a campanha |
A leitura do episódio mudou com o tempo. A crônica da época tratou o título como redenção coletiva. A pesquisa acadêmica das últimas décadas, entre ela o trabalho de Ronaldo Helal sobre identidade nacional e futebol, examina o uso político da conquista.
A taça levantada por Bellini ainda não pertencia ao Brasil. A Jules Rimet circulava entre os campeões e só se tornaria posse definitiva da Confederação Brasileira de Desportos com o terceiro título, em 1970.
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