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A plateia que latiu no Municipal
15 de fevereiro de 1922, segunda noite da Semana de Arte Moderna: Ronald de Carvalho abre Os Sapos e o Theatro Municipal responde em coro.
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Segunda noite da Semana, 15 de fevereiro de 1922
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Praça Ramos de Azevedo, centro de São Paulo. O Theatro Municipal abriu em 12 de setembro de 1911 com a ópera Hamlet, de Ambroise Thomas, num prédio de Ramos de Azevedo copiado do molde da Ópera de Paris, com mármore, bronze e camarote de veludo.
A cidade vivia do café e queria se ver europeia quando olhava pro próprio centro. O teatro era a prova em pedra dessa vontade: quem tinha assinatura de camarote ali tinha assento na conversa da capital.
Dentro daquela sala, o gosto tinha regra escrita. Poesia boa era verso medido, rima rica e vocabulário de dicionário grande, a herança parnasiana que os poetas recitavam de cor e que o público comprava ingresso pra ouvir. Quem escrevia fora da régua ficava fora do programa.
A capital já tinha mostrado o que fazia com quem saía da régua. Em dezembro de 1917, Monteiro Lobato publicou em O Estado de S. Paulo um artigo contra a exposição de pintura moderna de Anita Malfatti, e o texto virou o retrato do que a opinião culta paulista aceitava pendurar na parede.
Cinco anos depois, no ano do centenário da Independência, um grupo de escritores, pintores e músicos alugou justamente aquele endereço por três noites: 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922. Chamaram a temporada de Semana de Arte Moderna.
O saguão recebeu uma exposição de quadros e esculturas, e o palco recebeu conferência, leitura e concerto. O dinheiro do café bancou a conta, a imprensa da cidade anunciou as sessões com preço de ingresso, e a plateia que apareceu foi a de sempre, a mesma que assinava noite de ópera.
O convite dizia arte moderna. Quase ninguém na sala tinha visto de perto o que a expressão significava, e boa parte foi conferir com a curiosidade de quem vai ver até onde os rapazes se atrevem.
Das três noites, a do meio é a que o país guardou. O motivo tem autor, título e quatro versos que ninguém na sala conseguiu ouvir até o fim.
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I O Episódio do Dia
O verso que a sala não deixou terminar
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Uma sexta-feira de fevereiro no teatro mais caro de São Paulo. Quatro versos de sátira aos parnasianos bastaram pra sala inteira responder em coro, e o leitor do palco seguiu até o fim por cima do barulho.
Sexta-feira, 15 de fevereiro de 1922, Theatro Municipal de São Paulo, segunda sessão da Semana. Antes de a plateia sentar, o público atravessou o saguão virado em galeria: telas de Anita Malfatti, Emiliano Di Cavalcanti, Zina Aita, Vicente do Rego Monteiro e John Graz, e as esculturas de Victor Brecheret encaixadas entre as colunas.
O programa da noite era de conferência e leitura. Menotti del Picchia subiu pra falar de estética moderna e apresentar poemas e trechos de prosa dos autores novos: Oswald de Andrade, Luiz Aranha, Sérgio Milliet, Tácito de Almeida, Ribeiro Couto, Mário de Andrade, Plínio Salgado e Agenor Barbosa.
A resposta chegou antes do fim da primeira fala. Vaias, e logo em seguida barulho de bicho: miado, latido, grunhido e relincho, que se alternavam e se misturavam com palmas, sem que ninguém no palco conseguisse separar uma coisa da outra.
Oswald de Andrade leu um fragmento do romance Os Condenados e enfrentou a mesma parede sonora. A sala tinha descoberto, em poucos minutos, que dava pra participar do espetáculo sem sair da poltrona.
Então Ronald de Carvalho tomou o lugar da leitura com Os Sapos, de Manuel Bandeira. O autor não estava no teatro: doente, tinha ficado no Rio de Janeiro, e nunca viu de perto a cena que os versos dele provocaram naquela sexta-feira.
O poema é uma sátira em redondilha aos parnasianos, escrita à maneira de Jules Laforgue. A plateia reconheceu o alvo nos primeiros versos, porque o alvo era o gosto que ela mesma defendia, e fez coro por cima da leitura.
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Enfunando os papos, Saem da penumbra, Aos pulos, os sapos. A luz os deslumbra.
Manuel Bandeira, Os Sapos, em Carnaval (1919)
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Mais adiante o poema chama o sapo-tanoeiro de parnasiano aguado e ainda o faz se gabar do cancioneiro bem martelado, do hiato comido e da rima que nunca cai em termo cognato. Era a régua da casa recitada em voz alta, ponto por ponto, no palco que a casa pagava.
A plateia devolveu em coaxar. Ronald de Carvalho seguiu a leitura por cima do coro, e o texto chegou ao fim atravessado por um barulho que ninguém no teatro tentou conter.
Nem tudo naquela noite virou vaia. Guiomar Novaes, a pianista mais celebrada do país, tocou no intervalo e foi aplaudida sem disputa nenhuma. Entre os poetas apresentados, Agenor Barbosa saiu como o único do programa que a sala aplaudiu.
No intervalo, Mário de Andrade falou pro público no saguão, cercado pelos mesmos quadros que a maioria tinha atravessado sem parar na entrada.
A sessão terminou com o teatro se esvaziando pela escada de mármore, e o assunto na saída era o barulho, não o programa. Foi essa sexta-feira, e não a abertura nem o encerramento, que ficou como a lembrança principal da Semana inteira.
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II Neste Dia no Brasil
As datas que cercam aquela sexta
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A primeira noite tinha sido dois dias antes, em 13 de fevereiro de 1922, e correu bem mais civilizada. Graça Aranha abriu a temporada com a conferência A Emoção Estética na Arte Moderna, o público aplaudiu no fim, e ninguém saiu do teatro falando em vaia.
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A terceira noite veio em 17 de fevereiro de 1922, reservada à música de Heitor Villa-Lobos. Foi nela que o compositor entrou de casaca com um pé de sapato e outro de chinelo, e a sala leu o pé calçado errado como provocação futurista e vaiou sem trégua.
O chinelo de Villa-Lobos entrou na noite errada da história contada de boca em boca.
A explicação do próprio Villa-Lobos veio depois, e era prosaica: um calo inflamado, que não deixava o sapato entrar. A cena vale como episódio de 17 de fevereiro, e o programa das três sessões guarda a data. Quem conta a Semana de memória costuma juntar o chinelo com as vaias a Os Sapos, e assim empurra o compositor pra noite da leitura, dois dias antes do concerto dele.
A exposição do saguão ficou montada nas três noites, e quem comprou ingresso pra uma sessão passou pelos quadros na entrada e na saída. Boa parte da irritação da plateia começava ali, antes de qualquer palavra dita no palco.
O rótulo usado na época também não era o que ficou. A imprensa paulista chamava o grupo de futurista, palavra emprestada da vanguarda italiana, e os próprios autores discutiam entre si se aceitavam o nome. Modernismo é etiqueta que a crítica consolidou depois, quando a temporada já tinha virado marco.
O ano em volta também ajuda a entender a sala. 1922 era o centenário da Independência, São Paulo crescia com o dinheiro do café e o país inteiro se preparava pra comemorar em setembro, no Rio de Janeiro, com exposição internacional e discurso oficial.
Depois daquela semana, as datas seguem. Ainda em 1922, Mário de Andrade publicou Paulicéia Desvairada, o livro de poemas sobre a cidade que os leitores do Municipal atravessavam todo dia. Em 18 de março de 1924, Oswald de Andrade publicou no Correio da Manhã o Manifesto da Poesia Pau-Brasil.
Em maio de 1928, saiu o Manifesto Antropófago, na Revista de Antropofagia, com a proposta de engolir a cultura estrangeira em vez de copiá-la. Vinte anos depois da temporada, em 1942, Mário de Andrade fez a conferência O Movimento Modernista e cobrou o próprio grupo pelo que a Semana tinha e não tinha entregado.
Entre 1922 e 1928, três noites de teatro alugado viraram um programa com manifesto publicado em jornal e em revista de circulação nacional.
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III O Documento na Íntegra
Onde conferir a noite de 1922
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O que sobrou daquela sexta em papel está em acervo público, e a conferência é de graça. A Hemeroteca Digital Brasileira, mantida pela Fundação Biblioteca Nacional, guarda jornais brasileiros digitalizados página por página, com o Correio Paulistano entre os títulos paulistas do período.
No acervo: entre em memoria.bn.br, abra a busca por periódico, escolha o Correio Paulistano e o ano de 1922. O anúncio da temporada saiu em 29 de janeiro de 1922, marcando a Semana de Arte no Theatro Municipal entre 11 e 18 de fevereiro.
Na data: vá direto às edições de 14, 16 e 18 de fevereiro de 1922, os dias seguintes a cada uma das três noites. É ali que a cobertura do dia anterior aparece, junto com a agenda de espetáculos da cidade.
Na busca: O Estado de S. Paulo mantém acervo próprio, fora da Hemeroteca, e nele estão os anúncios da temporada com programa e preço de ingresso, incluindo o anúncio publicado em 17 de fevereiro de 1922, na página 5.
Na citação: ao salvar a imagem, anote o título do jornal, a data e o número da página. São os três dados que permitem a outra pessoa abrir exatamente a mesma página, no mesmo dia, sem depender da sua palavra.
Um aviso prático: a leitura automática de texto erra bastante em impressão de 1922, com papel manchado e tipo miúdo. Busca por título, ano e data exata devolve a página inteira em fac-símile, do jeito que o assinante recebeu em casa.
A grafia também muda o que você digita na busca. Em 1922 o teatro aparecia escrito com th, a palavra publico saía sem acento e o nome da temporada podia vir como Semana de Arte ou Semana de Arte Moderna, dependendo do dia e do jornal. Vale testar as variantes antes de concluir que a página não existe.
Vale separar o que o documento fecha e o que ele deixa em aberto. As datas das três sessões, o programa de cada noite, os nomes lidos e os anúncios com preço estão registrados no papel da época.
O detalhe sonoro é outra história. A lista de miados, latidos, grunhidos e relinchos vem em boa parte de memórias e depoimentos escritos anos depois pelos próprios participantes, que tinham interesse na cena. Trate a trilha da vaia como testemunho, e a data como registro.
A sexta-feira está guardada em papel, e o papel está aberto pra quem quiser abrir.
"Qual página você abriria primeiro no jornal de 16 de fevereiro de 1922?"
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Quiz da edição
Na noite de 15 de fevereiro de 1922, quem leu o poema Os Sapos no palco do Theatro Municipal enquanto a plateia coaxava por cima dos versos?
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