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A pedra da Ponta do Boi no março de 1916

Março de 1916, Ilhabela: um transatlântico espanhol encosta demais na costa paulista em noite de neblina e some da superfície em poucos minutos.

Lajes de granito da Ponta do Boi, no extremo sul da ilha de São Sebastião, em noite de neblina fechada sobre o canal, em março de 1916.

Ilhabela, 1916: a pedra da Ponta do Boi

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"Naufragou na costa de São Sebastião o vapor hespanhol Príncipe de Astúrias", estampou o Correio Paulistano de 7 de março de 1916. A nota do jornal ocupava poucas linhas e já trazia em aberto quase tudo que importava: quanta gente vinha a bordo, a hora exata do choque contra a pedra e quantos tinham sido recolhidos do mar.

O navio fazia a carreira que ligava o Mediterrâneo ao Prata. Saía de Barcelona, tocava portos espanhóis, cruzava o Atlântico com escala em Las Palmas, parava no Rio de Janeiro, em Santos e em Montevidéu, e terminava em Buenos Aires. A bordo iam emigrantes espanhóis e italianos com passagem de terceira classe, passageiros de câmara, correspondência e carga geral.

A Europa estava no segundo ano de guerra. A Espanha se mantinha neutra, e a neutralidade fazia dos vapores espanhóis a rota mais procurada por quem queria cruzar o Atlântico fora da zona de bloqueio. Cada viagem saía lotada, e a companhia Pinillos, Izquierdo y Cía, dona do navio, mantinha a linha em ritmo cheio.

O Príncipe de Astúrias era navio novo. Fora entregue à companhia em 1914, tinha casco de aço, duas chaminés e capacidade para mais de mil passageiros nas três classes. Naquela viagem, a última escala antes de Santos havia sido o Rio de Janeiro, e a derrota seguia colada ao litoral paulista.

O trecho entre a saída da baía de Guanabara e a entrada do porto de Santos passa por costa recortada, com ilhas próximas da terra firme. A ilha de São Sebastião, hoje município de Ilhabela, fecha o lado sul do caminho, e sua ponta mais exposta, a Ponta do Boi, avança sobre a água em lajes de granito que caem direto para a profundidade.

Na madrugada de 5 de março de 1916, a neblina baixou sobre o canal. O que aconteceu nos minutos seguintes deixou rastro em três lugares diferentes: o inquérito da capitania, a lista de recolhidos que chegou a Santos e a coleção dos jornais da semana. A seção a seguir reconstrói a cena a partir do que esses três rastros registram, e do que eles nunca fecharam.

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I  O Episódio do Dia

Cinco minutos entre a laje e o fundo

Uma madrugada de neblina em 1916 deixa o casco de um transatlântico no fundo da Ponta do Boi.

Ponta do Boi, extremo sul da ilha de São Sebastião, litoral norte de São Paulo, madrugada de 5 de março de 1916. O navio vinha em marcha de viagem, com a costa à direita e a visibilidade reduzida a poucas dezenas de metros. O casco encostou na pedra submersa pela borda de boreste, rasgou chapa abaixo da linha d'água e escorou.

A água entrou pelas caldeiras. A explosão que se seguiu apagou a iluminação e a máquina, e com elas a possibilidade de manobrar, de lançar sinal e de baixar os botes com gente dentro. O navio adernou e afundou em poucos minutos, ainda de madrugada, com a maior parte dos passageiros de terceira classe nos alojamentos de proa.

A profundidade ali não dá margem a encalhe. A laje da Ponta do Boi desce em rampa fechada, e o casco escorregou dela para o fundo, onde permanece. Quem alcançou o convés a tempo pulou n'água no escuro, agarrado a destroço ou a nada.

O que o inquérito e a documentação da época registram sobre a noite:

·  A data do naufrágio, madrugada de 5 de março de 1916, com o navio a caminho de Santos
·  O ponto do choque, a pedra submersa junto à Ponta do Boi, no extremo sul da ilha de São Sebastião
·  A condição do tempo, neblina fechada sobre o canal, apontada por sobreviventes e pelo comando do navio de socorro
·  O intervalo entre o choque e o desaparecimento do casco, contado em minutos, nunca em horas
·  O total de mortos, superior a quatrocentos, sem contagem nominal completa em nenhuma das listas

Um navio de casco novo, com rádio a bordo e comandante experiente, sumiu da superfície num trecho de costa que a própria companhia percorria todo mês.

Príncipe de Astúrias. Vapor de aço, dois parafusos, construído em 1914, armador Pinillos, Izquierdo y Cía, Cádiz.

Lloyd's Register of Shipping, edição de 1915-1916

O socorro veio de outro navio da mesma carreira. O vapor Vega, que navegava nas proximidades, chegou ao ponto ainda com o mar coberto de destroço, recolheu os que boiavam e seguiu para Santos com os sobreviventes a bordo. O desembarque em Santos foi o primeiro momento em que autoridade brasileira teve gente do naufrágio na frente para tomar depoimento.

Corpos e pedaços de carga apareceram nos dias seguintes nas praias da ilha e do continente, e o recolhimento coube a moradores, pescadores e à capitania. Os sepultamentos foram feitos ali mesmo, sem identificação na maioria dos casos.

O comandante José Lotina Abrisqueta não sobreviveu. Sua conduta na madrugada virou disputa entre a companhia, a imprensa espanhola e os sobreviventes, e por que a derrota corria tão junto da costa em noite fechada nunca teve resposta documental.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

Do cais de Barcelona ao farol de São Sebastião

A costa onde o navio se perdeu já era trecho de risco conhecido antes de 1916. O canal de São Sebastião encurta a viagem entre o Rio e Santos, e a passagem colada à ilha economiza horas de máquina, mas exige sondagem e visibilidade que a neblina de março tira do navegante em minutos.

O farol da Ponta do Boi, erguido na mesma ponta que rasgou o casco, é anterior ao naufrágio e serve de baliza para quem vem do norte. Um farol, porém, só resolve o problema de quem consegue enxergá-lo, e a neblina apagou a referência no ponto em que ela era necessária.

A sequência que a documentação permite montar:

·  1914: o Príncipe de Astúrias é entregue à companhia Pinillos, Izquierdo y Cía e entra na linha do Prata
·  1914: começa a guerra na Europa e a bandeira espanhola neutra vira caminho preferido de emigrante
·  1916: em fevereiro, o navio deixa Barcelona rumo a Buenos Aires com escalas na Espanha e em Las Palmas
·  1916: em março, o navio deixa o Rio de Janeiro em direção a Santos, colado ao litoral paulista
·  1916: na madrugada de 5 de março, o casco bate na pedra da Ponta do Boi e afunda
·  1916: no mesmo dia, o vapor Vega recolhe sobreviventes e os desembarca em Santos
·  1916: nas semanas seguintes, destroço e corpos aparecem nas praias da ilha e do continente

A repercussão saiu do noticiário de acidente e entrou na página política. A imprensa espanhola cobrou explicação da companhia sobre a rota, a lotação e o estado dos botes. No Brasil, o caso reabriu a discussão sobre balizamento e socorro marítimo num litoral em que o resgate dependia de quem passasse por perto.

Junto com a discussão técnica cresceu a outra, mais duradoura. Falou-se de ouro em barra na carga, de estátua de bronze destinada a Buenos Aires, de munição em navio de país neutro. Nenhuma das três versões foi confirmada por manifesto publicado, e todas seguem circulando um século depois.

O que veio depois, verificável na documentação posterior:

·  O casco permaneceu no ponto do naufrágio, em profundidade que só mergulho técnico alcança
·  A localização do sítio foi retomada por mergulhadores brasileiros na década de 1980 
·  Objetos recolhidos do fundo passaram a circular entre coleções particulares e acervos locais 
·  A área da Ponta do Boi foi incorporada ao Parque Estadual de Ilhabela, com restrição de acesso
·  A companhia Pinillos seguiu operando a linha do Prata depois do desastre 

Na ilha, a memória do naufrágio nunca dependeu de arquivo. Famílias de pescadores da Ponta do Boi e do Bonete guardaram por gerações onde cada sepultamento foi feito, e parte do que se sabe sobre aquela semana vem dessa transmissão oral, não de papel.

 

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III  O Documento na Íntegra

Onde o naufrágio virou processo e registro

O episódio se confere em cinco balcões: o Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, a Biblioteca Nacional, o Arquivo do Serviço de Documentação da Marinha, o Arquivo Público do Estado de São Paulo e o Archivo Histórico Provincial de Cádiz, na Espanha.

No Arquivo do Serviço de Documentação da Marinha: ficam os papéis de capitania sobre acidente de navegação no litoral paulista, os registros de balizamento e faróis do trecho e a correspondência sobre socorro marítimo do período.

Na Biblioteca Nacional: está a hemeroteca digital, com as coleções do Correio Paulistano, do Jornal do Commercio, do Estado de S. Paulo e das revistas ilustradas que cobriram o desembarque dos sobreviventes em Santos.

No Arquivo Público do Estado de São Paulo: correm os papéis das autoridades de Santos e do litoral norte, incluindo os registros de desembarque, de sepultamento e de recolhimento de destroço nas praias.

No Archivo Histórico Provincial de Cádiz: ficam os papéis da companhia armadora e a documentação de matrícula do navio, que é onde as listas de embarque e o manifesto de carga teriam de estar para fechar a contagem.

Na divergência: o número de pessoas a bordo varia entre as fontes espanholas e brasileiras, o total de sobreviventes muda conforme a lista consultada, a hora exata do choque não está fechada e a composição da carga nunca foi confirmada por manifesto publicado.

Ao citar o episódio, use a data de 5 de março de 1916, o ponto da Ponta do Boi na ilha de São Sebastião, o socorro prestado pelo vapor Vega e o desembarque dos sobreviventes em Santos, nunca um total de vítimas sem indicar de qual fonte ele saiu.

A documentação fecha a data do naufrágio, o lugar do choque, a existência do socorro e o destino do casco, que continua no fundo do mesmo ponto onde bateu.

Fica em aberto quanta gente embarcou de fato em cada escala, já que as listas foram feitas por porto e por classe e nunca foram somadas numa relação nominal única, e o que o navio levava no porão, já que o manifesto correspondente não veio a público.

Uma pedra a poucos metros da costa, um casco novo e uma lista de embarque incompleta. O que sobra de duro são o inquérito de capitania, o registro do socorro e a coleção dos jornais da semana, e é por esse rastro de papel que o episódio se sustenta.

"Quando a contagem de quem embarcou nunca foi fechada, o que exatamente se está contando ao repetir o número de vítimas?"

Os papéis de capitania estão no Serviço de Documentação da Marinha, no Rio de Janeiro, e as coleções dos jornais da semana estão na hemeroteca da Biblioteca Nacional. Marque 5 de março, data do naufrágio, quando os acervos costumam liberar material sobre o caso, para reconferir datas, números e nomes nesses dois lugares antes de citar qualquer trecho deste episódio.

 
 

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AO Infanta Isabel, outro vapor da Pinillos
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CUm navio de guerra brasileiro enviado da capitania
DBarcos de pescadores da Ponta do Boi

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