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A mala de Bregaro e a decisão do Ipiranga

7 de setembro de 1822, riacho do Ipiranga: o correio Paulo Bregaro alcança D. Pedro com as cartas do Rio, e ele resolve antes de chegar a São Paulo.

Colinas do riacho do Ipiranga, na província de São Paulo, onde o correio Paulo Bregaro entregou a D. Pedro o maço de papéis vindo do Rio de Janeiro em 7 de setembro de 1822.

São Paulo, 1822: o caminho do Ipiranga

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"O pomo está maduro, colhe-o já, senão apodrece." A frase foi escrita por José Bonifácio de Andrada e Silva no Rio de Janeiro, no começo de setembro de 1822, dentro do maço de papéis que um correio da Guarda de Honra levou para São Paulo. Ela circula desde o século XIX em coletâneas de documentos da independência e virou a linha mais citada de toda a correspondência daqueles dias.

O correio chamava-se Paulo Emílio Bregaro. Era oficial da Guarda de Honra do príncipe regente, corpo montado criado meses antes para acompanhá-lo em viagem, e saiu do Rio de Janeiro com a incumbência de entregar o maço em mão, não de deixá-lo em estação de posta.

A distância entre as duas cidades se vencia a cavalo, por caminho de tropa, com troca de montaria em pousos ao longo da serra e do vale do Paraíba. O trajeto tomava dias, e a ordem era não parar mais do que o necessário para comer e trocar de animal.

O destinatário estava em movimento. D. Pedro tinha descido a serra até Santos, cuidava de assuntos militares na província e voltava para São Paulo por estrada, com escolta pequena e sem hora marcada de chegada. Um correio que sai atrás de um príncipe em viagem não tem endereço, tem rastro.

Dentro do maço não havia uma carta só. Havia papel do governo do Rio, papel da princesa e papel oficial vindo de Lisboa, e cada peça pesava de um jeito diferente na conta que o regente vinha fazendo desde janeiro daquele ano.

O que interessa nesse dia não é o cavalo nem o cansaço do mensageiro. É o que estava escrito nas folhas que ele carregava, e o fato de a resolução ter sido tomada em terreno aberto, com a comitiva parada, antes que o príncipe alcançasse qualquer prédio de governo.

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I  O Episódio do Dia

O que vinha dentro do maço de Bregaro

A resolução de 7 de setembro de 1822 se decide na estrada, com um maço de papéis do Rio de Janeiro aberto em terreno raso e nenhum escrivão por perto.

Província de São Paulo, colinas do riacho do Ipiranga, 7 de setembro de 1822. O lugar era a orla do povoado, ponto de passagem de quem subia de Santos rumo à cidade. Não era praça, não era palácio, não era câmara: era estrada, com um córrego ao lado e um pequeno grupo de cavaleiros parado no fim da tarde.

D. Pedro voltava de Santos. Com ele seguiam poucos homens, entre eles o padre Belchior Pinheiro de Oliveira, seu capelão, e oficiais da Guarda de Honra. Foi essa comitiva que Bregaro alcançou, depois de rodar a cidade atrás do paradeiro do regente e receber a informação de que ele vinha pela estrada do mar.

O maço trazia três blocos de papel. O primeiro eram os despachos do governo do Rio de Janeiro, assinados pelo ministro José Bonifácio. O segundo era a correspondência da princesa Maria Leopoldina, que dias antes presidira sessão do Conselho de Estado na ausência do marido. O terceiro eram as ordens vindas de Lisboa.

Esse terceiro bloco era o mais cortante. As Cortes portuguesas vinham aprovando medidas que desmontavam a autonomia montada no Rio desde o ano anterior, anulando atos do príncipe regente e mandando que ele voltasse a Portugal.

A ordem em que a cena aparece nos relatos recolhidos ao longo do século XIX:

·  Chegada do correio à comitiva já em movimento, na estrada entre Santos e São Paulo
·  Entrega do maço em mão, com os papéis do Rio e as ordens vindas das Cortes portuguesas
·  Leitura feita ali mesmo, com a comitiva parada em terreno aberto
·  Rompimento anunciado de viva voz aos homens que estavam presentes
·  Entrada em São Paulo naquela mesma noite, com a resolução já tomada na estrada

A cena não tem ata, não tem escrivão e não tem assinatura. O que existe de papel firme é o que chegou dentro do maço, e o que saiu depois, quando o rompimento virou decreto e proclamação impressos no Rio de Janeiro.

Como é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, diga ao povo que fico.

D. Pedro, resposta à representação do Senado da Câmara do Rio de Janeiro, 9 de janeiro de 1822

Naquela mesma noite houve entrada na cidade, com repique de sinos e uma ida ao teatro, e a comitiva passou a usar como distintivo uma fita com as cores que o novo governo adotaria. O gesto público veio horas depois da leitura na estrada, e não no lugar onde a leitura aconteceu.

O quadro que quase todo brasileiro tem na cabeça foi pintado 66 anos mais tarde. Pedro Américo entregou a tela Independência ou Morte em 1888, com cavalos de guerra, uniforme de gala e tropa alinhada, elementos que a documentação do dia não sustenta.

Montaria, traje de viagem e tamanho do grupo aparecem bem mais modestos nos relatos de quem esteve na estrada. A tela é peça de comemoração do Império tardio, não registro do dia.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

De 9 de janeiro à sessão do Conselho de Estado

A conta começou a fechar em janeiro de 1822, quando o príncipe recusou o chamado de volta a Portugal e permaneceu no Rio de Janeiro. A partir daquele ponto, cada medida tomada no Brasil e cada decreto votado em Lisboa empurraram os dois governos para posições que não cabiam no mesmo reino.

O governo do Rio criou tribunais próprios, convocou assembleia e tratou tropas leais a Lisboa como força hostil. Lisboa respondeu anulando esses atos.

A sequência que a documentação impressa da época permite montar:

·  26 de fevereiro de 1821: a Corte no Rio de Janeiro jura obediência à Constituição que as Cortes preparavam em Lisboa
·  26 de abril de 1821: D. João VI embarca de volta a Portugal e deixa o filho como regente no Brasil
·  9 de janeiro de 1822: o regente recusa o chamado de retorno e permanece no Rio de Janeiro
·  16 de janeiro de 1822: José Bonifácio de Andrada e Silva assume o ministério do Reino e dos Estrangeiros
·  3 de junho de 1822: é convocada Assembleia Geral Constituinte e Legislativa para o Brasil
·  1 de agosto de 1822: decreto declara inimigas as tropas que desembarcarem sem consentimento do governo do Rio
·  2 de setembro de 1822: Maria Leopoldina preside sessão do Conselho de Estado na ausência do marido
·  7 de setembro de 1822: o correio alcança a comitiva nas colinas do Ipiranga e entrega o maço
·  12 de outubro de 1822: aclamação como imperador constitucional no Rio de Janeiro
·  1 de dezembro de 1822: cerimônia de coroação na capital

A princesa não era figura decorativa. Arquiduquesa austríaca, casada com o regente desde 1817, assinava expediente de Estado quando o marido viajava, e a sessão do começo de setembro correu sob a presidência dela.

O ministério de José Bonifácio operava a máquina de papel. Cada resolução saía como decreto, aviso ou proclamação, imprimia-se na tipografia da Corte e seguia por correio para as províncias.

O que veio depois de 1822, verificável na documentação posterior:

·  A resistência das tropas leais a Lisboa se estendeu por Bahia, Maranhão, Pará e Cisplatina até 1823
·  Portugal reconheceu a separação no tratado assinado no Rio de Janeiro em 29 de agosto de 1825
·  Pedro Américo entregou em 1888 a tela que fixou a cena na memória escolar brasileira
·  O Monumento à Independência foi inaugurado no alto do Ipiranga em 7 de setembro de 1922
·  O Museu Paulista, erguido no mesmo terreno, guarda acervo e documentação sobre o episódio
 

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III  O Documento na Íntegra

Onde os papéis daquele dia podem ser lidos

O episódio se confere em quatro balcões: o Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, o Museu Paulista da Universidade de São Paulo, o Arquivo Público do Estado de São Paulo e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, além da bibliografia que trabalhou sobre a documentação de 1822.

No Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro: correm os decretos, avisos e proclamações do governo do príncipe regente, a correspondência do ministério de José Bonifácio e a papelada da administração que operava na Corte naquele ano.

No Museu Paulista da Universidade de São Paulo: ficam acervo documental sobre o episódio, a tela de Pedro Américo e a coleção formada em torno do terreno do Ipiranga desde o fim do século XIX.

No Arquivo Público do Estado de São Paulo: estão registros da administração provincial paulista, papéis de câmaras municipais e documentação sobre estradas, pousos e correios da província.

Na bibliografia especializada: 1822, de Laurentino Gomes (Nova Fronteira, 2010), D. Pedro I, de Isabel Lustosa (Companhia das Letras, 2006), e os volumes de documentos da independência publicados pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro reúnem cartas, decretos e relatos do período.

Na divergência: a frase pronunciada na estrada varia de relato para relato, a hora exata da chegada do correio não bate entre as fontes, o número de homens da comitiva muda conforme quem conta, e há discussão sobre quanto do relato do capelão foi registrado no calor do fato ou décadas depois.

Ao citar o episódio, use a data de 7 de setembro de 1822, as colinas do riacho do Ipiranga como lugar, a entrega do maço vindo do Rio de Janeiro e a resolução tomada na estrada antes da entrada em São Paulo, nunca a composição da tela de 1888 como descrição do que se viu no dia.

A documentação fecha a permanência do regente em 9 de janeiro de 1822, a convocação da Assembleia em 3 de junho de 1822, o decreto sobre tropas estrangeiras em 1 de agosto de 1822, a sessão do Conselho de Estado em 2 de setembro de 1822 e a aclamação em 12 de outubro de 1822.

Fica em aberto a redação exata do que foi dito na estrada e quantas peças de papel vinham dentro do maço, já que os relatos descrevem o conteúdo por assunto e não por lista.

A cena que virou quadro nacional aconteceu sem escrivão. O que sobra de duro são cartas datadas, decretos impressos e a viagem de um correio, e é por esse rastro de papel que o dia se sustenta.

"Quando a ordem chega por carta e a resposta sai na estrada, quem escreve a história é o documento ou a testemunha?"

Os decretos e a correspondência do governo do regente estão sob guarda do Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, e o acervo do episódio fica no Museu Paulista da Universidade de São Paulo. Marque 7 de setembro, data em que o museu e os arquivos abrem programação sobre o tema e as peças voltam à consulta, para reconferir datas, nomes e a redação dos documentos nesses dois lugares antes de citar qualquer trecho deste episódio.

 
 

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AJosé Bonifácio de Andrada e Silva
BMaria Leopoldina
CBelchior Pinheiro de Oliveira
DPaulo Emílio Bregaro

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