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O episódio se confere em seis balcões: a revista do instituto, o arquivo de Manguinhos, a bibliografia que reconstituiu a disputa, a hemeroteca, o laboratório e o terreno em Minas.
Na revista: o trabalho completo saiu nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, tomo 1, fascículo 2, de agosto de 1909, entre as páginas 159 e 218. O texto está digitalizado e vem na ortografia simplificada que o instituto adotava, com j no lugar de g em várias palavras.
Na nota prévia: o caso humano foi anunciado antes do trabalho completo no Brasil-Médico, periódico que os médicos do Rio liam toda semana.
No arquivo: o Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz, em Manguinhos, guarda o fundo Carlos Chagas, com correspondência, papéis de campo e o acervo fotográfico de Lassance, com imagens do vagão.
No estudo de referência: Doença de Chagas, Doença do Brasil: Ciência, Saúde e Nação, 1909-1962, de Simone Petraglia Kropf, publicado pela Editora Fiocruz em 2009, reconstrói a descoberta e a disputa que veio atrás dela.
Nos anais da polêmica: as sessões da Academia Nacional de Medicina de 1922 e 1923 estão nos anais da instituição, com o texto de quem atacou e de quem defendeu.
Na hemeroteca: em memoria.bn.br, procure Chagas nos jornais do Rio a partir de agosto de 1909, e não em abril. O exame da menina não virou notícia no dia; virou depois da publicação e no período das sessões da Academia.
No laboratório: o exame de 1961 recuperou o parasita da própria paciente e deu origem à cepa Berenice; outra amostra foi isolada no ano seguinte, e as duas ainda aparecem em estudo de genética.
No terreno: Lassance é hoje município do norte de Minas, na mesma linha da antiga Central do Brasil, e em Bambuí o posto de 1943 produziu a série mais longa de dados de campo sobre a doença.
Na divergência: a idade de Berenice aparece como dois e como três anos conforme o texto, o gênero do parasita foi publicado como Schizotrypanum e hoje se escreve Trypanosoma, e o total de infectados muda com a estimativa, com a Organização Mundial da Saúde na faixa de 6 a 7 milhões.
Ao citar o caso, anote a página do fascículo de agosto de 1909 e o nome com que o parasita foi batizado ali. Nome atualizado sem a forma original manda a citação para o lugar errado.
A documentação fecha a data, o lugar, o nome da paciente e a sequência dos experimentos.
Fica em aberto o tamanho do que Chagas viu em 1909: parte do quadro clínico foi confirmada, parte foi corrigida por quem veio atrás, e a conta de quantos brasileiros carregam o parasita ainda muda conforme o método.
A doença mais estudada da medicina brasileira foi descrita inteira num vagão de trem parado, por um médico que tinha ido até lá para combater outra coisa.
"Quando o transmissor aparece antes do doente, quanto tempo o resto do sistema leva para acreditar no achado?"
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