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ED 012

A lâmina que faltava em Lassance

14 de abril de 1909, arraial de Lassance, no norte de Minas: o exame de uma menina de dois anos fecha vetor, parasita e doença no mesmo ano.

O vagão de trem que servia de laboratório na estação de Lassance, no norte de Minas, onde Carlos Chagas examinou o sangue da primeira paciente em 14 de abril de 1909.

Lassance, norte de Minas, 14 de abril de 1909

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Norte de Minas Gerais, 1907. A Estrada de Ferro Central do Brasil empurrava o trilho rumo a Pirapora, no rio São Francisco, e a obra parava sozinha. Os trabalhadores caíam com febre em série, e o canteiro ficava sem turma para tocar o serviço.

O Instituto Oswaldo Cruz, em Manguinhos, mandou um médico de 29 anos resolver o problema. Carlos Chagas já tinha comandado campanha contra a malária em Itatinga, no interior de São Paulo, e chegou com a mesma encomenda: derrubar o mosquito e devolver os homens ao trilho.

Lassance não tinha laboratório, nem hospital, nem casa para hóspede. Chagas montou a bancada dentro de um vagão parado no pátio da estação, que servia ao mesmo tempo de quarto, de cozinha e de sala de microscópio.

As casas do arraial eram de pau a pique: vara amarrada, barro socado por cima, fresta em toda parede. Na fresta morava um inseto que os ferroviários conheciam pelo hábito de picar o rosto de quem dormia. Por causa da picada no rosto, o povo o chamava de barbeiro.

O bicho trabalhava no escuro. Saía do reboco depois que a lamparina apagava, picava e voltava, e de manhã a marca no rosto era a única prova de que ele tinha passado por ali.

Foi um ferroviário que apontou o barbeiro ao médico, junto com a queixa de sempre. Chagas dissecou o intestino do inseto e encontrou lá dentro um flagelado que ninguém tinha descrito antes.

A ordem normal da medicina de então era outra. Primeiro se via a doença nos doentes, depois se procurava o agente, e o transmissor vinha por último. Em Lassance a fila entrou ao contrário, e o que faltava era justamente o começo dela.

Faltava um doente de verdade, com o mesmo parasita no sangue, examinado por quem já sabia o que procurar.

A peça que faltava não estava no vagão nem no microscópio. Estava a poucos metros do trilho, dentro de uma casa de barro do arraial.

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I  O Episódio do Dia

O microscópio no vagão da estação

Faltava um doente com aquele parasita no sangue.

Quarta-feira, 14 de abril de 1909, arraial de Lassance, norte de Minas Gerais. Chagas é chamado a uma casa perto da estação para ver uma criança com febre havia dias.

A menina se chamava Berenice, tinha dois anos e morava numa das casas de pau a pique do arraial. Estava com o rosto inchado, o fígado e o baço aumentados e gânglios palpáveis no pescoço.

O médico colheu uma gota de sangue, montou a lâmina e levou ao microscópio do vagão. Entre as hemácias havia flagelados em movimento, iguais aos que ele tinha visto no intestino do barbeiro.

Era a primeira vez que o parasita aparecia no sangue de uma pessoa com nome e endereço.

O caminho até ali tinha começado pelo lado errado. Em 1908, com o inseto na mão, Chagas achou o flagelado no tubo digestivo dele e não sabia se aquele bicho adoecia alguém.

Mandou barbeiros vivos para Manguinhos. No Rio, Oswaldo Cruz deixou os insetos picarem saguis do instituto e mandou examinar o sangue dos animais.

Cerca de um mês depois, os saguis tinham o parasita circulando. Estava provado que o bicho da parede transmitia e que o flagelado se instalava em sangue de mamífero.

Chagas descreveu gênero e espécie e deu ao parasita o nome do chefe: Schizotrypanum cruzi, hoje escrito Trypanosoma cruzi.

Faltava o elo doméstico. Ele encontrou o mesmo parasita no sangue de um gato de uma casa do arraial, o que punha o ciclo dentro de casa, e não no mato.

Em menos de um ano, o mesmo pesquisador descreveu o transmissor, o parasita, o hospedeiro doméstico e a doença no homem. A história da medicina não registra um segundo caso assim.

Da estação saiu telegrama para Manguinhos. O trabalho completo saiu em agosto, com desenho, medida e ciclo.

Nova tripanozomiaze humana. Estudos sobre a morfolojia e o ciclo evolutivo do Schizotrypanum cruzi n. gen., n. sp., ajente etiolojico de nova entidade morbida do homem.

Título do trabalho de Carlos Chagas, Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, tomo 1, fascículo 2, agosto de 1909

O reconhecimento veio rápido. Em 1910 ele entrou para a Academia Nacional de Medicina, em 1912 recebeu o prêmio Schaudinn, em Hamburgo, e foi levado ao Nobel em 1913 e em 1921.

A contestação veio junto. Entre 1916 e 1923, colegas questionaram na própria Academia se a doença existia no tamanho anunciado, e parte da crítica pegou: ele tinha atribuído ao parasita o bócio comum na região, e nesse ponto errou.

Defendeu o quadro em sessão pública e trabalhou até 1934 sem ver a discussão encerrada. A confirmação ampla veio depois, com o sinal descrito por Cecílio Romaña na Argentina, em 1935, e com o posto de Emmanuel Dias em Bambuí, em 1943.

Berenice cresceu, casou e passou a vida no norte de Minas. Em 1961, um exame feito nela recuperou o parasita vivo, cinquenta e dois anos depois da lâmina de abril.

Ela chegou a 1981, aos setenta e três anos, sem a forma grave que a doença provoca no coração de parte dos infectados.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

De Washington ao salão do Concórdia

O 14 de abril já tinha duas marcas antes do microscópio de Lassance: a sessão de Washington que criou a união das repúblicas americanas, em 1890, e a fundação do Santos Futebol Clube, em 1912.

A primeira é de mesa de conferência. A Primeira Conferência Internacional Americana abriu em Washington em outubro de 1889 e só encerrou em abril do ano seguinte.

Eram dezoito países na sala e uma pauta longa: união aduaneira, arbitragem, moeda comum para o comércio. Quase nada saiu do papel, e o que sobrou foi um escritório.

Em 14 de abril de 1890, os delegados aprovaram a criação da União Internacional das Repúblicas Americanas e de um escritório comercial permanente na capital dos Estados Unidos.

Aquele escritório mudou de nome duas vezes: virou União Pan-Americana e, em 1948, Organização dos Estados Americanos.

A delegação brasileira saiu de casa representando um império e voltou representando uma república. A Proclamação aconteceu em 15 de novembro de 1889, com a conferência em andamento, e o time foi refeito no meio do caminho: Lafayette Rodrigues Pereira, Salvador de Mendonça e Amaral Valente.

Em 1930, o conselho da União Pan-Americana escolheu a data da votação de 1890 para o Dia das Américas, celebrado desde o ano seguinte.

A segunda marca é de salão alugado. Em 14 de abril de 1912, na cidade de Santos, um grupo de rapazes se reuniu no salão do Concórdia Club e fundou o Santos Futebol Clube, juntando o que restava de clubes extintos da cidade.

O time passou os primeiros anos em campo emprestado e só levantou o primeiro Campeonato Paulista em 1935.

As marcas do dia nasceram de métodos diferentes de escolher data. A de 1890 saiu da pauta de uma conferência diplomática. A de 1912 saiu de uma convocação entre rapazes de uma cidade portuária.

A de 1909 não foi escolhida por ninguém. Foi o dia em que uma criança do arraial amanheceu com febre e o médico do vagão estava a poucos metros dali, com a pergunta pronta.

O calendário voltou a passar por ali muito depois. Em 2019, a Assembleia Mundial da Saúde marcou o 14 de abril como dia mundial da doença, observado pela primeira vez em 2020, e uma lei federal brasileira do mesmo ano criou a data nacional de combate a ela.

Nos dois primeiros casos, quem definiu a data já sabia o que ia comemorar. No terceiro, a data ficou marcada por causa de uma lâmina que podia não ter dado em nada.

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III  O Documento na Íntegra

Onde a nota de 1909 pode ser lida

O episódio se confere em seis balcões: a revista do instituto, o arquivo de Manguinhos, a bibliografia que reconstituiu a disputa, a hemeroteca, o laboratório e o terreno em Minas.

Na revista: o trabalho completo saiu nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, tomo 1, fascículo 2, de agosto de 1909, entre as páginas 159 e 218. O texto está digitalizado e vem na ortografia simplificada que o instituto adotava, com j no lugar de g em várias palavras.

Na nota prévia: o caso humano foi anunciado antes do trabalho completo no Brasil-Médico, periódico que os médicos do Rio liam toda semana.

No arquivo: o Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz, em Manguinhos, guarda o fundo Carlos Chagas, com correspondência, papéis de campo e o acervo fotográfico de Lassance, com imagens do vagão.

No estudo de referência: Doença de Chagas, Doença do Brasil: Ciência, Saúde e Nação, 1909-1962, de Simone Petraglia Kropf, publicado pela Editora Fiocruz em 2009, reconstrói a descoberta e a disputa que veio atrás dela.

Nos anais da polêmica: as sessões da Academia Nacional de Medicina de 1922 e 1923 estão nos anais da instituição, com o texto de quem atacou e de quem defendeu.

Na hemeroteca: em memoria.bn.br, procure Chagas nos jornais do Rio a partir de agosto de 1909, e não em abril. O exame da menina não virou notícia no dia; virou depois da publicação e no período das sessões da Academia.

No laboratório: o exame de 1961 recuperou o parasita da própria paciente e deu origem à cepa Berenice; outra amostra foi isolada no ano seguinte, e as duas ainda aparecem em estudo de genética.

No terreno: Lassance é hoje município do norte de Minas, na mesma linha da antiga Central do Brasil, e em Bambuí o posto de 1943 produziu a série mais longa de dados de campo sobre a doença.

Na divergência: a idade de Berenice aparece como dois e como três anos conforme o texto, o gênero do parasita foi publicado como Schizotrypanum e hoje se escreve Trypanosoma, e o total de infectados muda com a estimativa, com a Organização Mundial da Saúde na faixa de 6 a 7 milhões.

Ao citar o caso, anote a página do fascículo de agosto de 1909 e o nome com que o parasita foi batizado ali. Nome atualizado sem a forma original manda a citação para o lugar errado.

A documentação fecha a data, o lugar, o nome da paciente e a sequência dos experimentos.

Fica em aberto o tamanho do que Chagas viu em 1909: parte do quadro clínico foi confirmada, parte foi corrigida por quem veio atrás, e a conta de quantos brasileiros carregam o parasita ainda muda conforme o método.

A doença mais estudada da medicina brasileira foi descrita inteira num vagão de trem parado, por um médico que tinha ido até lá para combater outra coisa.

"Quando o transmissor aparece antes do doente, quanto tempo o resto do sistema leva para acreditar no achado?"

 
 
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O que Carlos Chagas encontrou na gota de sangue da menina de dois anos, em Lassance?

AO mesmo flagelado que ele já tinha visto no intestino do barbeiro
BO plasmódio da malária que ele tinha ido combater na ferrovia
CUm verme trazido pela água do rio das Velhas
DNenhum parasita, apenas sinais de anemia
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