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ED 047
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A geada negra de 1975 e o adeus do café paranaense

18 de julho de 1975, norte do Paraná: uma madrugada de frio queima os cafezais e o estado líder na colheita passa à soja.

Cafezal queimado pela geada no norte do Paraná, com folhas escurecidas e o solo coberto de gelo ao amanhecer.

Norte do Paraná, julho de 1975: o cafezal queimado

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O jornal Folha de S.Paulo registrou o estrago da madrugada anterior na edição de 19 de julho de 1975, sob a linha "Geada destrói lavouras de café no Paraná". A reportagem falava em folhas pretas, terra branca de gelo e lavradores parados na beira do talhão, sem o que fazer.

O apelido que ficou veio da cor. Os cafeicultores do norte paranaense chamaram o fenômeno de geada negra porque a folha do cafeeiro, queimada pelo frio extremo, escurece em poucas horas e cai seca, como se a planta tivesse passado pelo fogo.

O Paraná chegava àquele inverno como o maior produtor de café do Brasil nos levantamentos de produção agrícola do IBGE, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. O café tinha puxado a ocupação do norte do estado desde os anos 1930, sustentava cidades inteiras, pagava o comércio de Londrina e de Maringá e empregava colono, meeiro e trabalhador de safra em regime de cadeia.

A cultura, porém, vivia num lugar de risco. O cafeeiro é planta de clima tropical e o norte paranaense fica na faixa subtropical, onde massas de ar polar entram pelo continente em pleno inverno. O estado já tinha levado geadas grandes em 1953, 1955, 1962 e 1972, e cada uma delas custou safra.

A entrada de ar frio de julho de 1975 foi de outra ordem. O Instituto Nacional de Meteorologia, o Inmet, e as estações estaduais registraram temperaturas abaixo de zero em grande parte do norte e do oeste do Paraná, com céu limpo e vento fraco na madrugada, a combinação que faz o calor do solo escapar e o termômetro despencar perto do chão.

A seção adiante reconstrói a madrugada de 17 para 18 de julho: onde o frio bateu mais forte, o que ele faz com o tecido do cafeeiro, quem perdeu o emprego na semana seguinte e por que o pé queimado daquela vez não rebrotou como nas geadas anteriores.

Continue lendo ↓

 
 

I  O Episódio do Dia

A madrugada em que a folha do cafeeiro ficou preta

Uma noite de frio bastou para matar o cafezal que sustentava o norte do Paraná.

Norte do Paraná, madrugada de 17 para 18 de julho de 1975. A geada negra de 1975 entrou pelo estado com uma massa de ar polar de origem antártica, avançou pelo interior do continente e encontrou céu limpo, ar seco e vento calmo sobre os cafezais de Londrina, Maringá, Apucarana, Cornélio Procópio e Cambé.

O frio desse tipo age em dois tempos. A temperatura do ar cai abaixo de zero, o calor acumulado no solo escapa para o céu aberto e a camada de ar junto ao chão fica mais gelada ainda, fenômeno que os agrônomos chamam de inversão térmica, quando o ar quente fica por cima e o frio se acumula embaixo, justo na altura da planta.

A água dentro do tecido do cafeeiro congela e rompe a parede das células. A folha perde a estrutura, escurece, seca e cai. Quando o frio alcança o caule e desce até a região do colo, a planta morre inteira, e não sobra gema viva para rebrotar na primavera seguinte.

As geadas anteriores tinham queimado o ponteiro e a folhagem alta. A planta perdia a safra, era recepada rente ao chão e voltava a produzir em dois ou três anos. A de 1975 matou o pé, e o cafeicultor que saiu para olhar a lavoura naquela sexta-feira encontrou talhão inteiro de madeira seca.

O calendário agravou o golpe. Julho pega o cafeeiro em plena formação da florada que daria a colheita do ano seguinte, de modo que a perda contabilizou a safra de 1976 inteira e também o capital plantado, a árvore em si, que leva de três a quatro anos entre o plantio e a primeira colheita comercial.

O efeito na mão de obra apareceu em dias. A cafeicultura paranaense funcionava com famílias de colonos morando dentro da fazenda e com turmas de trabalhadores contratados por safra. Sem colheita pela frente e sem lavoura a tratar, o proprietário dispensou gente na semana seguinte à geada.

A geada negra de 1975 levou a lavoura inteira do Paraná: o pé morto exigia replantio de anos, e a maioria dos proprietários decidiu que não valia a pena esperar o cafeeiro crescer outra vez na faixa de risco.

O que a madrugada mexeu, pela leitura dos órgãos oficiais e da imprensa da época:

·  A lavoura em si, com cafezais mortos no norte e no oeste do estado, do velho norte pioneiro às frentes mais novas perto do rio Paraná
·  O emprego rural, com colonos e trabalhadores de safra dispensados e famílias saindo para Londrina, Maringá e para as frentes de ocupação em Rondônia e no Mato Grosso
·  O preço internacional, com a arroba brasileira pressionada nas bolsas estrangeiras porque o Brasil respondia pela maior fatia da oferta mundial
·  A política federal do setor, conduzida pelo Instituto Brasileiro do Café, o IBC, autarquia criada em 1952 para comprar estoque, fixar preço e decidir onde o país plantaria café

O governo federal montou linhas de crédito de emergência e programas de replantio, com condição: o IBC queria o café concentrado em áreas de menor risco de geada, o que empurrou a cultura para o norte e para o oeste de outros estados e deixou o Paraná com a porta aberta para outra coisa.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

De 1975 a 1985, a troca do cafeeiro pela soja

A rota do episódio se acompanha pelos censos agropecuários do IBGE, pelos registros meteorológicos do Inmet e pelos boletins do Instituto Agronômico do Paraná, o Iapar, criado em 1972 para a pesquisa agrícola do estado.

A sequência dos fatos, pela documentação disponível:

·  Anos 1930 a 1950: o café ocupa o norte do Paraná com a venda de lotes pela companhia de colonização britânica que fundou Londrina e Maringá, e o estado vira fronteira agrícola do produto
·  1953, 1955, 1962 e 1972: geadas grandes atingem a lavoura paranaense, derrubam safra e mostram o risco climático da faixa subtropical
·  17 e 18 de julho de 1975: a massa polar cobre o norte e o oeste do estado, o termômetro cai abaixo de zero e a geada negra mata o cafeeiro, com efeito também no norte paulista e no sul mineiro
·  Segundo semestre de 1975: vem o crédito emergencial, o IBC redesenha a política de plantio e o preço do café dispara nas bolsas internacionais
·  1976 a 1980: a soja e o trigo avançam sobre a área do café no Paraná, em rotação de duas safras por ano, e a cana ocupa parte do norte próximo às usinas
·  Anos 1980: o estado consolida a posição de grande produtor de grão, com maquinário, armazém e cooperativa dimensionados para a nova cultura

A substituição pegou porque a soja já estava pronta para entrar. A cultura tinha semente adaptada, mercado externo aquecido, colheita mecanizada e um calendário que permitia o trigo no inverno, sobre a mesma terra, o que dobrava o uso do talhão no ano.

O efeito social veio junto. A lavoura de café empregava muita gente por hectare, a de grão emprega pouca, e o norte do Paraná trocou população rural por população urbana em poucos anos, num movimento que os censos registram como salto na taxa de urbanização do estado entre 1970 e 1980.

O que a geada deixou registrado, verificável em censo, boletim técnico e imprensa:

·  A saída do Paraná da liderança nacional do café, posto que migrou para Minas Gerais nas décadas seguintes
·  A consolidação da soja e do trigo como par de culturas do estado, em rotação de inverno e verão
·  O esvaziamento do campo no norte paranaense, com crescimento rápido de Londrina, Maringá e das cidades médias da região
·  Um acervo de fotografias de lavoura queimada, boletins técnicos e recortes de jornal que sustenta a pesquisa acadêmica sobre o período
 

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III  O Documento na Íntegra

Onde a geada de 1975 se confere hoje

O episódio se confere em quatro balcões: o IBGE, o Inmet, o Instituto Agronômico do Paraná e a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

No IBGE: estão o Censo Agropecuário de 1975 e o de 1980, além da série da Produção Agrícola Municipal, que mostram a área plantada e a colheita de café por município paranaense antes e depois da geada, com o avanço da soja e do trigo na mesma tabela.

No Inmet: ficam os registros das estações meteorológicas de julho de 1975, com temperatura mínima por dia e por estação, o material que confirma onde o termômetro cruzou o zero naquela madrugada.

No Instituto Agronômico do Paraná, em Londrina: estão os boletins técnicos sobre dano de frio em cafeeiro, com a descrição do que o congelamento faz no tecido da planta e as recomendações de manejo criadas depois do episódio.

Na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional: estão as edições de jornal de 19 a 31 de julho de 1975, com a cobertura diária do prejuízo, as declarações do IBC e o noticiário sobre crédito de emergência ao produtor.

Na divergência: o número de pés de café perdidos varia bastante conforme a fonte, porque cada levantamento usou critério próprio para separar a planta morta da planta recuperável, e a contagem foi feita no calor do prejuízo, com estimativa de campo.

Ao citar o episódio, trate a geada negra como o evento de 17 e 18 de julho de 1975, e não a confunda com as geadas de 1953, 1955, 1962 e 1972, que queimaram folhagem e ponteiro sem matar a lavoura.

A documentação fecha a data, a área atingida, o comportamento do frio naquela madrugada, o efeito no tecido do cafeeiro e a troca de cultura que veio depois, medida pelos censos.

Fica em aberto quantos trabalhadores rurais deixaram o campo por causa da geada, porque ninguém fez o levantamento nominal na época e os censos captam o saldo da década inteira, com outras causas misturadas na mesma conta.

Uma madrugada de céu limpo, a folha preta no pé, o estado líder da colheita brasileira de café e a soja entrando no talhão no ano seguinte. O que sustenta o episódio são os censos do IBGE, os registros do Inmet e os jornais paranaenses do fim de julho de 1975.

"Quanto de uma região cabe numa planta que o frio de uma noite apagou?"

O IBGE e o Inmet publicam as séries na internet e o Iapar atende pesquisador com agendamento. Marque 18 de julho, aniversário da geada, quando os institutos paranaenses e os museus históricos de Londrina e Maringá costumam publicar material sobre o episódio, e reconfira nesses dois lugares a data, as temperaturas mínimas registradas e a área de café do estado antes de citar o caso.

 
 
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Quiz da edição

Segundo o texto, o que tornou a geada de 18 de julho de 1975 mais destrutiva que as geadas anteriores de 1953, 1955, 1962 e 1972 no Paraná?

AEla atingiu só Londrina, sem chegar às outras cidades produtoras
BEla durou uma semana inteira de frio contínuo, não uma madrugada
CEla matou o cafeeiro até o colo, sem gema viva para rebrotar, enquanto as anteriores só queimavam a copa
DEla veio com granizo que destruiu os grãos já armazenados nos depósitos

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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