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A feitoria abandonada onde nasceu São Leopoldo

25 de julho de 1824, rio dos Sinos: 39 imigrantes vindos de estados alemães desembarcam na antiga Real Feitoria do Linho Cânhamo.

Galpão de feitoria colonial à margem de rio, com ferramentas de lavoura sobre o piso de terra batida.

Rio dos Sinos, 1824: a feitoria que virou colônia

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"Todas as outras Religiões serão permitidas com seu culto domestico, ou particular em casas para isso destinadas, sem fórma alguma exterior de Templo", publicou a Coleção das Leis do Império do Brasil ao imprimir a Constituição Política do Império, outorgada no Rio de Janeiro em 25 de março de 1824.

Quatro meses depois dessa frase impressa, 39 pessoas vindas de estados de língua alemã subiram o rio dos Sinos em barcos partidos de Porto Alegre e desembarcaram num terreno do Estado que já não produzia nada. A maioria delas era luterana, e a Carta recém-outorgada dizia que o templo delas não poderia ter torre, sino nem fachada de igreja.

O lugar do desembarque tinha nome oficial e passado industrial: Real Feitoria do Linho Cânhamo, estabelecimento montado pela Coroa portuguesa na década de 1780 para plantar e beneficiar cânhamo, a fibra com que se faziam cabos e cordoalha para os navios da esquadra. O trabalho ali era executado por pessoas escravizadas, a produção nunca alcançou a meta imaginada em Lisboa, e em 1824 a feitoria estava desativada.

Foi nesse conjunto de prédios vazios que a administração da província de São Pedro do Rio Grande do Sul alojou o primeiro grupo. O terreno passou a se chamar São Leopoldo, homenagem à imperatriz Maria Leopoldina de Habsburgo, arquiduquesa austríaca casada com D. Pedro I e interessada pessoalmente na vinda de colonos de língua alemã.

Três camadas de papel sustentam o episódio sem depender de memória de neto de colono: a legislação imperial recolhida nas coleções de leis impressas no século 19; a correspondência entre a presidência da província e o governo central, guardada em Porto Alegre e no Rio de Janeiro; e os registros paroquiais e listas de colonos que a administração da colônia passou a manter desde os primeiros meses.

A seção a seguir reconstrói o dia 25 de julho de 1824 pelo que a papelada da província registra: quem recebeu o grupo, quem fez o recrutamento na Europa, o que cada família recebeu de terra e de ferramenta, e o que ficou pendente na condição jurídica dessa gente.

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I  O Episódio do Dia

Trinta e nove nomes na margem do rio dos Sinos

Uma fábrica de corda sem uso virou o endereço de 39 recém-chegados.

Antiga Real Feitoria do Linho Cânhamo, província de São Pedro do Rio Grande do Sul, 25 de julho de 1824. José Feliciano Fernandes Pinheiro, presidente da província e depois conhecido como visconde de São Leopoldo, recebeu na feitoria desativada o primeiro grupo de imigrantes de língua alemã contratados pelo governo imperial, 39 pessoas entre homens, mulheres e crianças.

O recrutamento na Europa tinha sido conduzido por Georg Anton von Schäffer, agente a serviço do governo brasileiro que percorreu cidades e portos dos estados alemães oferecendo terra, ferramenta e cidadania a quem embarcasse. Os contratados atravessaram o Atlântico até o Rio de Janeiro e de lá seguiram por mar até Porto Alegre, antes da subida final pelo rio dos Sinos.

O acerto oferecido pelo governo tinha cinco pontos, conforme a papelada da província:

·  Terra, um lote medido em cada família, o chamado quinhão colonial, com frente para o rio ou para a picada aberta no mato
·  Dinheiro, um subsídio diário em réis pago pelo tesouro enquanto a lavoura não desse a primeira colheita
·  Ferramenta e semente, enxada, machado, foice e grão de plantio entregues pela administração da colônia
·  Animais, cabeças de gado e uma junta de bois por família, conforme a disponibilidade do rebanho da província
·  Cidadania, a naturalização prometida a quem se estabelecesse, com serviço militar na tropa imperial como contrapartida

A palavra "colônia", no vocabulário administrativo do período, designava tanto o núcleo inteiro quanto o lote individual entregue à família. Ler o documento sem essa chave faz o mesmo termo parecer contraditório de uma linha para a outra.

O que a feitoria oferecia no primeiro dia era abrigo coletivo, não casa: galpões de beneficiamento de fibra, sem divisórias, sem fogão e sem janela de morada, ocupados por famílias que esperavam a demarcação do próprio lote mato adentro.

São Cidadãos Brazileiros os estrangeiros naturalisados, qualquer que seja a sua Religião.

Constituição Política do Império do Brasil, artigo 6, 1824

O artigo citado abria a cidadania ao luterano naturalizado, e o artigo 5 da mesma Carta fechava a porta do templo com torre. A consequência prática apareceu na vida da colônia: o culto foi organizado em casas e em prédios sem forma exterior de igreja, e o pastor não tinha fé pública para registrar casamento e batismo com valor civil, atribuição que a lei reservava ao pároco católico.

O casamento entre protestantes só ganhou reconhecimento civil no Império pela legislação da década de 1860, e a lacuna criou problema de herança e de legitimidade de filho para as primeiras famílias da colônia. A cadeira de deputado também ficava fora do alcance do colono luterano, porque a Carta exigia a religião do Estado para o cargo.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

De 1783 a 1846, da fábrica de corda ao município

A vinda de 1824 não inaugurou a política de trazer estrangeiro para o sul. Ela executou uma linha aberta no governo de D. João, quando a Coroa passou a conceder sesmaria a estrangeiro e tentou fixar grupos de suíços e de alemães no território.

A sequência que a documentação legal e administrativa permite montar:

·  1783: a Coroa portuguesa instala no rio dos Sinos a Real Feitoria do Linho Cânhamo, com mão de obra escravizada, para abastecer a esquadra de cordoalha
·  1808: a carta de lei de 25 de novembro abre a concessão de sesmarias a estrangeiros residentes no Brasil
·  1818: a coroa portuguesa contrata a fundação de Nova Friburgo, na serra fluminense, com famílias suíças do cantão de Friburgo
·  1824: os primeiros 39 imigrantes de língua alemã chegam à feitoria desativada em 25 de julho, e o núcleo passa a se chamar São Leopoldo
·  1825: novas levas desembarcam e a colônia ultrapassa o primeiro milhar de moradores, com picadas abertas rio acima
·  1830: a Assembleia Geral corta a verba destinada à colonização estrangeira, e a entrada de contratados pelo governo imperial cessa por anos
·  1846: São Leopoldo é elevada à condição de vila, com câmara municipal própria instalada no ano seguinte

A colônia cresceu para dentro do mato. Cada família ocupava um lote estreito e comprido, com frente na picada e fundo na encosta, arranjo que espalhou o povoamento pelos vales do Sinos, do Caí e do Taquari.

A produção mudou a praça de Porto Alegre. Farinha de mandioca, feijão, batata e sobretudo banha de porco desceram das colônias para o mercado da capital, e o transporte por barco no rio dos Sinos virou negócio próprio.

O que a colonização de 1824 montou no Rio Grande do Sul, verificável em lei, registro e acervo:

·  A pequena propriedade familiar como padrão de ocupação, ao lado da estância de gado que dominava a campanha 
·  A Comunidade Evangélica de São Leopoldo, organizada pelos colonos luteranos nos primeiros anos, sem fachada de templo 
·  A imprensa em língua alemã no Brasil, com jornais e almanaques impressos na província a partir da década de 1850 
·  A rede de escolas comunitárias mantidas pelas próprias comunidades, com professor pago pelos moradores 
·  A colônia de Santa Cruz e outras fundações posteriores, abertas com o mesmo desenho de lote e picada 

A leitura do episódio mudou conforme a época. A historiografia do centenário, em 1924, tratou a chegada como fundação heroica de uma raça laboriosa, vocabulário que o Estado Novo inverteu ao reprimir o uso da língua alemã. A pesquisa recente examina o outro lado da conta: o lote entregue ao colono saía de terra tomada dos indígenas kaingang e guarani, e a colônia conviveu com a escravidão legal no Império, inclusive com colonos que compraram pessoas escravizadas.

 

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III  O Documento na Íntegra

Onde a chegada de 1824 se confere hoje

O episódio se confere em quatro balcões: o Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul em Porto Alegre, o Arquivo Nacional no Rio de Janeiro, o Museu Histórico Visconde de São Leopoldo na própria cidade e o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul em Porto Alegre.

No Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre: estão a correspondência da presidência da província e os papéis da administração da colônia, com listas de colonos, pedidos de subsídio e registros de demarcação de lote.

No Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro: está a documentação do governo imperial sobre colonização estrangeira, com os avisos e as ordens de despesa expedidos para a província de São Pedro.

No Museu Histórico Visconde de São Leopoldo, em São Leopoldo: ficam o acervo material dos primeiros colonos, os documentos de família recolhidos na região e a memória do terreno da antiga feitoria.

No Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre: estão as revistas e os estudos que publicaram, no século 20, as listas nominais e a cronologia da colonização alemã.

Na divergência: o total de 39 pessoas varia conforme a fonte, porque algumas listas contam só os adultos e outras somam as crianças, e a naturalidade de parte das famílias oscila entre regiões de língua alemã que ainda não formavam um país unificado.

Ao citar o episódio, use 25 de julho de 1824 para a chegada à antiga Real Feitoria do Linho Cânhamo, trate São Leopoldo como nome dado ao núcleo em homenagem à imperatriz Maria Leopoldina, e não confunda a chegada de 1824 com a elevação da colônia a vila, ocorrida em 1846.

A documentação fecha o dia, o lugar, o nome do presidente da província que recebeu o grupo, a origem do terreno como estabelecimento estatal de cânhamo e as condições oferecidas ao contratado.

Fica em aberto a lista nominal conferida dos 39, porque os registros de embarque e de recepção sobreviveram em cópias que divergem na grafia dos sobrenomes, e fica em aberto o destino das pessoas escravizadas que trabalhavam na feitoria até a desativação, porque a documentação da transferência delas não foi localizada.

Galpões vazios de uma fábrica de corda, 39 recém-chegados que não falavam a língua do país e uma Carta de quatro meses de idade que lhes dava cidadania sem lhes dar torre de igreja. O que sustenta o episódio são a legislação imperial impressa, a correspondência da província e os registros da própria colônia.

"Quanto de um estado cabe num terreno que o governo já tinha desistido de usar?"

O Museu Histórico Visconde de São Leopoldo fica em São Leopoldo e o Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul fica em Porto Alegre. Marque 25 de julho, quando os dois costumam publicar material sobre a chegada dos colonos, para reconferir o dia do desembarque, o tamanho do primeiro grupo e o nome do presidente da província nesses dois lugares antes de citar este episódio.

 
 
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Quem percorreu cidades e portos dos estados alemães recrutando os imigrantes que desembarcariam na feitoria do rio dos Sinos em 1824?

AJosé Feliciano Fernandes Pinheiro, presidente da província
BA imperatriz Maria Leopoldina de Habsburgo
CGeorg Anton von Schäffer, agente a serviço do governo brasileiro
DD. Pedro I, imperador do Brasil

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