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A escadaria do Passo e a Palma de Ouro de 1962

23 de maio de 1962, Cannes: o júri premia um longa rodado numa ladeira de Salvador, e nenhum outro filme brasileiro repetiu a conquista.

Escadaria de pedra de igreja colonial em Salvador, com uma cruz de madeira apoiada no degrau mais alto e a porta fechada ao fundo.

Salvador, 1962: a cruz na ladeira do Passo

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O jornal francês Le Monde registrou o encerramento do 15º Festival de Cannes na edição de 24 de maio de 1962 sob a linha "La Palme d'Or à un film brésilien", a Palma de Ouro para um filme brasileiro. Era a estreia do país no principal prêmio do festival, criado em 1946 na Riviera Francesa e transformado em vitrine das cinematografias nacionais no pós-guerra.

O filme premiado tinha orçamento modesto, elenco de teatro e uma história que cabia num quarteirão de Salvador. Chamava-se O Pagador de Promessas, adaptava uma peça escrita por Alfredo de Freitas Dias Gomes e fora dirigido por um ator paulista de Salto que trocara a frente da câmera pela direção poucos anos antes.

O cinema brasileiro chegava a 1962 sem nenhuma conquista desse porte no exterior. A Vera Cruz, companhia paulista que tentara instalar uma indústria de estúdio nos moldes de Hollywood, tinha encerrado as atividades no começo da década. A geração que viria a ser chamada de Cinema Novo rodava seus primeiros longas com equipe reduzida, câmera na mão e locação de rua, e disputava com a produção de estúdio a definição do que seria um filme nacional.

A delegação brasileira em Cannes naquele maio era pequena e desacreditada pela própria imprensa que a acompanhava. O produtor bancou parte da viagem com recursos da distribuidora que mantinha, a cópia exibida foi legendada às pressas e a sessão oficial aconteceu numa faixa de horário sem o prestígio das noites de gala.

A decisão do júri, presidido pelo escritor e diplomata japonês Tetsuro Furukaki, saiu na noite de 23 de maio e inverteu a expectativa da crítica europeia, que dava o troféu a nomes já consagrados do circuito de festivais. A seção a seguir reconstrói o filme que subiu naquela escadaria: quem o dirigiu, quem o interpretou, onde as câmeras foram montadas e qual conflito o enredo coloca diante do leitor logo nos primeiros minutos.

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I  O Episódio do Dia

Uma cruz na ladeira e o padre que trancou a porta

A cruz que um lavrador carregou por sete léguas parou na porta de uma igreja de Salvador.

Salvador, Ladeira do Passo, 1961. Anselmo Duarte, ator de trinta e tantos filmes brasileiros das décadas de 1940 e 1950, montou a equipe na escadaria que liga a Rua do Passo à Igreja do Santíssimo Sacramento e ali rodou o núcleo do longa que levaria o Brasil ao pódio de Cannes no ano seguinte.

A história que ele adaptou vinha do teatro. Dias Gomes escreveu O Pagador de Promessas no fim dos anos 1950, e a peça subiu ao palco em 1960, no Rio de Janeiro e depois na capital paulista, com boa carreira nos palcos até a chegada do convite do cinema.

O enredo cabe em uma frase e se complica em todas as outras. Zé do Burro, lavrador do interior baiano, promete a Santa Bárbara que carregará uma cruz de madeira até uma igreja de Salvador se o seu burro de carga sobreviver a um ferimento grave. O animal sobrevive. Ele cumpre a caminhada de sete léguas com a cruz nas costas, chega à escadaria e encontra a porta fechada.

O motivo da recusa é o pivô do filme. Zé do Burro fez a promessa dentro de um terreiro de candomblé, religião de matriz africana em que Santa Bárbara é associada a Iansã, e o padre Olavo entende o gesto como culto herético. A cruz fica do lado de fora, na escadaria, e a praça ao redor se enche de gente que dá a cada um o seu próprio significado.

O elenco veio quase inteiro do teatro:

·  Leonardo Villar, ator paulista formado nos palcos, no papel de Zé do Burro, o lavrador que carrega a cruz
·  Glória Menezes, como Rosa, a mulher de Zé, assediada por um cafetão do Pelourinho enquanto o marido negocia com a igreja
·  Dionísio Azevedo, como o padre Olavo, que recusa a entrada da cruz e trata a promessa como profanação
·  Geraldo Del Rey, como Bonitão, o malandro que circula pela praça e explora o desamparo do casal
·  Othon Bastos, como o repórter que transforma o impasse em manchete e vende o lavrador como líder camponês

Cada personagem da praça reinterpreta a promessa de Zé do Burro conforme o próprio interesse, e o lavrador, que só queria entregar a cruz, termina transformado em bandeira de causas que ele não escolheu.

Promessa é dívida.

Dias Gomes, O Pagador de Promessas, 1960

A fotografia ficou a cargo do inglês Chick Fowle, radicado no Brasil desde os tempos da Vera Cruz, e a trilha, de Gabriel Migliori, misturou orquestra e percussão de terreiro. O produtor Oswaldo Massaini, da Cinedistri, bancou a produção e inscreveu a cópia em Cannes por conta própria, sem apoio oficial do governo brasileiro.

O desfecho, que a plateia de 1962 recebeu em silêncio, inverte a disputa: o corpo de Zé do Burro entra na igreja carregado pela multidão sobre a própria cruz, contra a vontade do padre que passara o filme inteiro barrando aquela madeira.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

De 1960 ao Oscar de 1963, a rota do filme

A carreira do longa se conta pelos registros do festival, pela cobertura da imprensa da época e pelos arquivos da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

A sequência dos fatos, pela documentação disponível:

·  1960: a peça de Dias Gomes estreia nos palcos brasileiros e chama a atenção pelo conflito entre a fé popular e a instituição religiosa
·  1961: as filmagens acontecem em Salvador, com a escadaria da Igreja do Passo e as ruas do centro histórico como cenário principal
·  7 a 23 de maio de 1962: transcorre o 15º Festival de Cannes, com júri presidido pelo japonês Tetsuro Furukaki
·  23 de maio de 1962: o longa recebe a Palma de Ouro na cerimônia de encerramento, e Anselmo Duarte sobe ao palco para retirar o troféu
·  Segundo semestre de 1962: o filme entra em cartaz no circuito comercial brasileiro, já com o prêmio francês estampado nos cartazes
·  Abril de 1963: a produção concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro na cerimônia da Academia, a primeira indicação brasileira nessa categoria
·  Décadas seguintes: cópias e material de produção passam por trabalhos de preservação e restauro em instituições de arquivo brasileiras

A vitória reorganizou a discussão interna sobre cinema. Duarte não pertencia ao grupo do Cinema Novo e vinha da tradição de estúdio que aquela geração criticava, o que gerou desconfiança entre críticos que queriam ver a renovação estética premiada antes da narrativa clássica.

O debate sobre religiosidade também pegou fogo. Setores da Igreja Católica leram o filme como ataque ao clero, defensores do candomblé apontaram que a matriz africana aparecia pela primeira vez num longa de grande circulação sem caricatura, e a repercussão virou discussão pública sobre intolerância religiosa em pleno começo dos anos 1960.

O que a conquista deixou registrado, verificável em acervo de festival, catálogo e imprensa:

·  A entrada do Brasil na lista de países com Palma de Ouro, posição que o país ocupa sozinho na América do Sul
·  A primeira indicação brasileira ao Oscar de filme estrangeiro, que abriu a rota seguida por produções nacionais nas décadas seguintes
·  A projeção internacional de Leonardo Villar e de Glória Menezes, com convites de produções estrangeiras
·  O reconhecimento de Salvador como locação de cinema, adotada por dezenas de produções depois de 1962
·  Um acervo de cópias, cartazes, fotos de set e recortes de jornal que sustenta a pesquisa acadêmica sobre o período

A leitura crítica mudou com o tempo. A resenha de 1962 discutiu filiação estética e disputa de escola. A pesquisa universitária das décadas seguintes examina o filme como documento sobre sincretismo religioso e sobre o lugar da cultura popular baiana na tela.

O troféu segue único. Sessenta e poucos anos depois daquela noite na Riviera Francesa, nenhum outro longa brasileiro voltou a receber a Palma de Ouro, embora produções do país tenham conquistado prêmios de direção, de atuação e de júri no mesmo festival.

 

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III  O Documento na Íntegra

Onde a Palma de 1962 se confere hoje

O episódio se confere em quatro balcões: a Cinemateca Brasileira, o arquivo do Festival de Cannes, a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional e a biblioteca da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

Na Cinemateca Brasileira, na capital paulista: ficam cópias do longa, material de divulgação, fotografias de produção e documentação da Cinedistri, a produtora de Oswaldo Massaini, com consulta mediante agendamento.

No arquivo do Festival de Cannes: está o palmarès oficial de 1962, com a composição do júri, a lista dos filmes em competição e a ata dos prêmios entregues na cerimônia de encerramento.

Na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional: estão as edições brasileiras de 24 e 25 de maio de 1962, com a repercussão imediata do resultado, além da cobertura da estreia comercial no segundo semestre daquele ano.

Na biblioteca Margaret Herrick, da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas: estão os registros da indicação ao Oscar de filme estrangeiro apreciada na cerimônia de 1963, com a ficha da produção inscrita pelo Brasil.

Na divergência: a data exata das filmagens em Salvador varia conforme a fonte, porque a produção não publicou cronograma detalhado e os depoimentos da equipe, colhidos anos depois, discordam entre si sobre quantas semanas a equipe passou na cidade.

Ao citar o episódio, trate a Igreja do Santíssimo Sacramento, na Ladeira do Passo, como a locação da escadaria, e não a confunda com a Igreja de Santa Bárbara mencionada no enredo, que pertence à ficção construída por Dias Gomes.

A documentação fecha quem dirigiu, a data da premiação, a composição do júri, a origem teatral do enredo, o elenco principal e a condição de único longa brasileiro com a Palma de Ouro.

Fica em aberto quanto do texto teatral foi reescrito durante a filmagem, porque o roteiro de filmagem anotado não veio a público na íntegra e as versões que circulam trazem marcações sem autoria identificada.

Uma escadaria em Salvador, uma cruz barrada na porta, um júri francês em 1962 e um prêmio que o país guarda sozinho até hoje. O que sustenta o episódio são o palmarès do festival, os jornais brasileiros do fim de maio de 1962 e os acervos de cinemateca.

"Quanto de um país cabe numa cruz que a porta da igreja recusa?"

A Cinemateca Brasileira atende com agendamento prévio e a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional fica aberta na internet. Marque 23 de maio, aniversário da premiação, quando o arquivo do Festival de Cannes e as casas brasileiras de acervo costumam publicar material sobre o filme, e reconfira nesses dois lugares a data da cerimônia, a composição do júri e a ficha técnica da produção antes de citar o episódio.

 
 
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Começar pelo dia 1 →

 
Quiz da edição

No filme O Pagador de Promessas, por que o padre Olavo recusa a entrada da cruz na igreja?

APorque a cruz era grande demais para caber na porta
BPorque o bispo de Salvador havia proibido promessas populares
CPorque a promessa foi feita dentro de um terreiro de candomblé
DPorque Zé do Burro chegou atrasado à igreja

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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