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A carta régia que abriu o porto de Salvador

28 de janeiro de 1808, Salvador: seis dias após desembarcar, D. João assina a ordem que abre os portos do Brasil às nações amigas.

Carta régia manuscrita de 1808 aberta sobre mesa de arquivo, ao lado do selo da Coroa portuguesa.

Salvador, 1808: a ordem que abriu as alfândegas

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"Sejam admitidos nas Alfândegas do Brasil todos e quaisquer gêneros, fazendas e mercadorias transportados em navios estrangeiros das Potências que se conservam em paz e harmonia com a Minha Real Coroa", publicou a Collecção das Leis do Brazil, impressa pela Imprensa Nacional no Rio de Janeiro em 1891, ao reproduzir a carta régia assinada em Salvador em 28 de janeiro de 1808.

Carta régia, no vocabulário do período, era a ordem escrita e assinada pelo próprio príncipe regente, endereçada a uma autoridade nomeada, com força de lei enquanto não fosse revogada. A desta manhã foi dirigida a D. João de Saldanha da Gama, conde da Ponte, governador e capitão-general da capitania da Bahia.

O documento tem endereço e calendário exatos. Foi assinado na cidade de Salvador, então sede do governo da capitania da Bahia, seis dias depois que a esquadra vinda de Lisboa lançou âncora na baía de Todos os Santos, em 22 de janeiro de 1808, com a família real, a corte e os arquivos do Estado português a bordo.

Três camadas de papel sustentam o episódio sem depender de memória de cronista: o texto legal, recolhido nas coleções de leis impressas no século 19; a correspondência entre a Coroa e os governadores das capitanias, guardada em Lisboa e no Rio de Janeiro; e os escritos econômicos publicados na mesma década por quem defendia o comércio aberto, entre eles o desembargador José da Silva Lisboa, morador de Salvador e funcionário da Mesa de Inspeção, o órgão que fiscalizava o açúcar e o tabaco embarcados na praça.

A medida não nasceu de uma tese de gabinete. Nasceu de um bloqueio militar: a metrópole estava ocupada por tropas francesas, e o porto de Lisboa, que por lei intermediava toda mercadoria que entrava ou saía do Brasil, tinha deixado de funcionar como intermediário.

A seção a seguir reconstrói a manhã de 28 de janeiro pelo que o próprio documento e a papelada da capitania registram: quem assinou, para quem, que alíquota foi fixada, o que ficou de fora da abertura e quanto tempo a regra deveria durar.

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I  O Episódio do Dia

Seis dias entre o desembarque e a assinatura

A escala obrigatória em Lisboa caiu numa manhã.

Cidade de Salvador, capitania da Bahia, 28 de janeiro de 1808. O príncipe regente D. João, que governava Portugal em nome da mãe, a rainha D. Maria I, assinou a carta régia dirigida ao conde da Ponte e liberou as alfândegas do Brasil para receber navios de nações em paz com a Coroa portuguesa.

O texto resolve cinco pontos práticos, e cada um deles aparece escrito no próprio documento.

·  Quem pode entrar, navios portugueses e navios das potências que mantinham paz e harmonia com a Coroa portuguesa
·  O que pode entrar, gêneros, fazendas e mercadorias de qualquer procedência, sem passar por Lisboa
·  Quanto se paga, 24% sobre o valor declarado da mercadoria estrangeira e 16% sobre a que viesse em embarcação portuguesa, conforme a tabela fixada pela própria carta
·  O que pode sair, todo produto colonial embarcado para fora, com exceção do pau-brasil, que a Coroa manteve sob monopólio
·  Por quanto tempo, provisoriamente, até que uma decisão posterior organizasse a matéria em definitivo

A cobrança ficava com as alfândegas das capitanias, e a arrecadação passou a entrar direto no caixa do governo instalado no Brasil.

A palavra "provisoriamente" no texto não foi formalidade de escrivão. O governo tratava a abertura como resposta a uma emergência e contava com recompor o sistema antigo ao fim da guerra na Europa. A regra provisória sobreviveu à guerra e nunca voltou atrás.

Dos 300 anos de comércio colonial, o que a carta régia derrubou numa manhã foi a obrigação de passar por Lisboa: a mercadoria que saía de Salvador podia seguir direto para o comprador, e o navio que chegava podia descarregar sem escala na metrópole.

A liberdade do comércio é o primeiro princípio da riqueza das nações, e o maior benefício que os governos podem conceder aos povos.

Princípios de Economia Política, José da Silva Lisboa, 1804

José da Silva Lisboa estava em Salvador havia anos, tinha publicado em Lisboa, em 1804, os Princípios de Economia Política, e defendia a abertura em memórias e cartas dirigidas à administração. A historiografia diverge sobre o peso real da conversa dele com o príncipe regente naqueles seis dias, porque não sobreviveu registro de audiência que prove o teor do encontro. O que está documentado é a posição pública do autor antes de janeiro de 1808 e a nomeação dele, meses depois, para cargos ligados ao comércio.

O ministro D. Rodrigo de Souza Coutinho, conde de Linhares, que acompanhava a corte na travessia, defendia desde os anos 1790 um império luso-brasileiro com o centro econômico deslocado para a América. A carta régia coincide com o programa que ele vinha escrevendo.

O beneficiário imediato foi o comércio britânico, que já abastecia Lisboa e escoltara a esquadra portuguesa no Atlântico. Antes de qualquer tratado, os navios ingleses passaram a entrar nos portos brasileiros pagando a taxa de qualquer estrangeiro.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

De 1785 a 1815, do alvará que proibia à corte que ficou

A abertura de janeiro cancelou um sistema que a própria Coroa havia apertado poucas décadas antes. O alvará de 1785, ato normativo assinado pela rainha D. Maria I, mandara fechar as fábricas e manufaturas têxteis do Brasil, com ressalva para o pano grosso de algodão usado na roupa de trabalhadores e no ensacamento de gêneros.

A sequência que a documentação legal permite montar:

·  1785: o alvará de 5 de janeiro proíbe fábricas e manufaturas no Brasil, com ressalva para o tecido grosso de algodão
·  1807: a corte portuguesa embarca em Lisboa no fim de novembro, sob a ameaça da tropa francesa que avançava sobre a cidade
·  1808: a esquadra chega à baía de Todos os Santos em 22 de janeiro, e a carta régia é assinada em Salvador em 28 de janeiro
·  1808: o alvará de 1 de abril revoga a proibição de 1785 e libera fábricas e manufaturas no Brasil
·  1810: os tratados de comércio e navegação e de aliança com a Grã-Bretanha, assinados em 19 de fevereiro, baixam a taxa da mercadoria britânica para 15%, abaixo da paga pelo produto português
·  1815: a carta de lei de 16 de dezembro eleva o Brasil à condição de Reino Unido a Portugal e Algarves
·  1821: D. João, já rei, retorna a Lisboa em abril e deixa D. Pedro no Rio de Janeiro

A corte seguiu de Salvador para o Rio de Janeiro e desembarcou lá em 7 de março de 1808. A Bahia, que recebeu a assinatura, perdeu para o Rio a sede do governo e a máquina administrativa.

A taxa de 15% concedida aos britânicos em 1810 deixou o comerciante português instalado no Brasil pagando mais pela mesma carga do que o concorrente inglês. A vantagem britânica durou até a década de 1840, quando a Tarifa Alves Branco recompôs as alíquotas.

O que a abertura montou no Brasil, verificável em lei, decreto e acervo:

·  A Imprensa Régia, criada por decreto de 13 de maio de 1808, primeira tipografia oficial autorizada a funcionar no país 
·  O Banco do Brasil, criado por alvará de 12 de outubro de 1808 para atender ao governo instalado no Rio de Janeiro 
·  A Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação, reinstalada no Rio em 1808 
·  As alfândegas das capitanias, que passaram a arrecadar direto para o erário sediado no Brasil 
·  A Biblioteca Real, formada com os volumes trazidos de Lisboa e aberta ao público estudioso em 1814 

A leitura do episódio mudou conforme a época. A historiografia do século 19 tratou a carta régia como gesto fundador da independência econômica. A pesquisa recente examina o outro lado da conta: o comércio brasileiro trocou a intermediação obrigatória de Lisboa pela dependência da indústria e do crédito britânicos, e a lavoura exportadora que mais lucrou com a abertura seguia movida por trabalho escravizado, com o tráfico atlântico ativo por mais quatro décadas.

 

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III  O Documento na Íntegra

Onde a carta régia se confere hoje

O episódio se confere em quatro balcões: o Arquivo Nacional no Rio de Janeiro, a Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro, o Arquivo Histórico Ultramarino em Lisboa e o Arquivo Público do Estado da Bahia em Salvador.

No Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro: está a documentação da administração joanina transferida com a corte, com os registros de ordens e avisos expedidos pelo governo a partir de 1808.

Na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro: estão os exemplares da Collecção das Leis do Brazil, que reproduz o texto integral da carta régia, e as edições dos Princípios de Economia Política de José da Silva Lisboa.

No Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa: estão os papéis avulsos da capitania da Bahia, com a correspondência entre o conde da Ponte e o governo central no período da chegada da corte.

No Arquivo Público do Estado da Bahia, em Salvador: ficam os livros da administração provincial e os registros da praça mercantil que recebeu a ordem em primeira mão.

Na divergência: o peso da conversa entre José da Silva Lisboa e o príncipe regente varia conforme o autor, porque nenhum registro de audiência sobreviveu, e a atribuição da autoria material do texto oscila entre o desembargador e a chancelaria que acompanhava a corte.

Ao citar o episódio, use 28 de janeiro de 1808 para a assinatura em Salvador, 22 de janeiro de 1808 para a chegada da esquadra à baía de Todos os Santos, e trate a alíquota de 15% concedida à mercadoria britânica como resultado dos tratados de 19 de fevereiro de 1810, não da carta régia.

A documentação fecha o dia, o lugar, o destinatário da ordem, as alíquotas fixadas, a exceção do pau-brasil e o caráter provisório declarado no texto.

Fica em aberto quem redigiu materialmente a carta régia, porque a minuta original não foi localizada em nenhum dos acervos, e fica em aberto o volume exato de carga estrangeira desembarcada nos meses seguintes, porque os livros de alfândega da Bahia daquele ano sobreviveram com lacunas.

Seis dias de terra firme, uma ordem escrita a um governador e o fim da escala obrigatória em Lisboa. O que sustenta o episódio são o texto legal impresso nas coleções do século 19, a correspondência da capitania e os escritos econômicos publicados antes da assinatura.

"Quanto de um país cabe numa ordem escrita às pressas para durar pouco?"

O Arquivo Público do Estado da Bahia fica em Salvador e o Arquivo Nacional fica no Rio de Janeiro. Marque 28 de janeiro, quando os dois costumam publicar material sobre a chegada da corte, para reconferir a data da assinatura, o nome do destinatário e as alíquotas nesses dois lugares antes de citar qualquer trecho deste episódio.

 
 
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