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A caderneta de campo no último dia de Canudos

5 de outubro de 1897, sertão da Bahia: o arraial cai depois de meses de cerco, e o correspondente do Estado de S. Paulo anota a cena.

Arraial de Canudos, no vale do rio Vaza-Barris, no norte da Bahia, tomado em 5 de outubro de 1897 depois de quatro expedições militares.

Canudos, 1897: o arraial no vale do rio

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"A Nossa Vendéia", publicou O Estado de S. Paulo em 14 de março de 1897, em artigo de um engenheiro formado pela Escola Politécnica que ainda não tinha posto o pé no sertão da Bahia. O título comparava um arraial de casebres de taipa à revolta camponesa da Vendée, na França revolucionária, e a comparação diz mais sobre a cabeça do autor naquele março do que sobre o povoado que ele descrevia de longe.

Cinco meses depois, o mesmo autor viajou como correspondente do jornal junto à quarta expedição militar enviada contra o arraial. Levou caderneta de campo, hábito de engenheiro acostumado a anotar cota, distância e desnível, e passou a registrar o que via em vez do que supunha.

O povoado ficava no vale do rio Vaza-Barris, no norte da Bahia, num terreno de caatinga cercado por serras que os batalhões precisaram atravessar a pé. A comunidade tinha se formado em 1893 em torno de Antônio Conselheiro, e cresceu com gente vinda de fazendas de gado, de vilas do interior e de outros estados do Nordeste.

Entre novembro de 1896 e outubro de 1897, quatro expedições militares subiram contra o arraial. As três primeiras voltaram desfeitas, e a derrota da terceira, comandada pelo coronel Moreira César, transformou uma questão de polícia estadual em campanha nacional, com tropas de vários estados, artilharia pesada e cobertura de imprensa.

O que o correspondente anotou no vale do Vaza-Barris não coube no artigo de março. Coube num livro publicado cinco anos mais tarde, que inverte a tese inicial e devolve ao sertanejo o lugar de personagem central. A seção a seguir reconstrói a cena da tarde de 5 de outubro de 1897 como ela chegou até nós pelo papel: o terreno, a contagem dos casebres, a última resistência e o que o observador escreveu ali.

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I  O Episódio do Dia

A tarde em que a resistência acabou no Vaza-Barris

A queda de 5 de outubro de 1897 acontece num arraial já demolido pelo bombardeio, num vale de caatinga que hoje está debaixo da água de um açude.

Vale do Vaza-Barris, norte da Bahia, 5 de outubro de 1897. O arraial ocupava uma encosta baixa entre a margem do rio e a serra de Canabrava. As duas igrejas, a velha e a nova em construção, marcavam o centro; ao redor delas, casebres de taipa e cobertura de palha se espalhavam sem traçado de rua.

Nos meses de cerco, a artilharia federal bombardeou o núcleo do povoado a partir das elevações vizinhas. A igreja nova, ainda sem torre concluída, foi alvo permanente porque servia de ponto de referência para o tiro e de posição defensiva para quem estava dentro.

O correspondente do Estado de S. Paulo chegou ao acampamento em setembro, adoeceu, e deixou o teatro de operações antes do desfecho. A cena final ele reconstituiu com depoimento de oficiais, com o que anotara em campo e com a inspeção do terreno arrasado.

O que o texto dele fixa sobre a queda do arraial:

·  A data do fim da resistência organizada, 5 de outubro de 1897, ao cair da tarde
·  O número de defensores no último reduto, quatro, contra a tropa que fechava o cerco
·  A destruição sistemática dos casebres, incendiados e demolidos após a tomada
·  A contagem de habitações levantada no arraial arrasado, cinco mil e duzentas
·  A ausência de rendição negociada, ponto que o autor sublinha como exceção

Um observador enviado para confirmar a tese de uma revolta monárquica voltou com um caderno que desmontava a própria tese, e escolheu publicar a segunda versão.

Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo.

Euclides da Cunha, Os Sertões, 1902

A contagem dos casebres aparece no livro como número apurado no arraial derrubado, e é o dado que sustenta a dimensão do povoado. Cinco mil e duzentas habitações num vale de caatinga significavam uma das maiores concentrações humanas do interior baiano naquele fim de século.

O corpo de Antônio Conselheiro, morto semanas antes do desfecho por causa natural segundo o registro da campanha, foi desenterrado pela tropa para exame e identificação. A cabeça foi enviada à Faculdade de Medicina da Bahia para estudo craniométrico, prática comum na antropologia criminal da época.

O terreno onde ficava o arraial está hoje submerso pelo açude de Cocorobó, construído na década de 1960 no mesmo vale. A geografia que o correspondente mediu com passo e caderneta ficou embaixo da água.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

De 1893 ao livro que virou a versão oficial

O arraial se instala em 1893, quando o grupo que seguia Antônio Conselheiro ocupa uma fazenda abandonada às margens do Vaza-Barris. O conflito com o poder público começa por uma questão tributária e por uma remessa de madeira comprada e não entregue na vila de Juazeiro.

Entre a primeira expedição e a última, o episódio muda de escala três vezes: caso de polícia estadual, depois operação do Exército, por fim campanha nacional com comando de general e reforço de vários estados.

A sequência que a documentação da campanha permite montar:

·  1893: o grupo de Antônio Conselheiro ocupa a fazenda de Canudos, no vale do Vaza-Barris
·  1896: em novembro, a primeira expedição, com cerca de cem praças, é rechaçada em Uauá
·  1897: em janeiro, a segunda expedição recua depois do combate no Cambaio
·  1897: em março, a terceira expedição é desfeita e o coronel Moreira César morre em combate
·  1897: em junho, a quarta expedição parte com dois comandos e artilharia de sítio
·  1897: em setembro, o correspondente do Estado de S. Paulo chega ao acampamento
·  1897: em 5 de outubro, cai o último reduto e termina a resistência no arraial
·  1902: sai Os Sertões, escrito a partir das cadernetas e dos despachos de campo

A derrota da terceira expedição produziu, nas capitais, uma onda de acusação contra jornais e políticos tidos como monarquistas, com empastelamento de redações no Rio de Janeiro. A tese da conspiração restauradora circulava antes de qualquer prova, e o artigo de março do futuro correspondente ajudou a alimentá-la.

O livro de 1902 desfaz essa leitura. Descreve o sertanejo como produto do meio físico e do abandono do Estado, e classifica a campanha como crime cometido pelo litoral letrado contra o interior que ele não conhecia.

O que veio depois, verificável na documentação posterior:

·  Os Sertões teve edição esgotada no ano de lançamento e reedições sucessivas desde então
·  O autor foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1903, no ano seguinte ao livro
·  A cabeça de Antônio Conselheiro, examinada em Salvador, desapareceu em incêndio posterior
·  O açude de Cocorobó, concluído nos anos 1960, alagou a área do antigo arraial
·  O município de Canudos foi criado em 1985, com sede em local diverso do arraial original

A versão que ficou como oficial no país é a do livro, e não a dos relatórios militares. Um repórter que mudou de opinião no meio do trabalho acabou fixando o vocabulário com que o Brasil passou a falar do próprio sertão.

 

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III  O Documento na Íntegra

Onde o cerco virou papel guardado

O episódio se confere em cinco balcões: o Arquivo Histórico do Exército, no Rio de Janeiro, a Biblioteca Nacional, o acervo do jornal O Estado de S. Paulo, o Arquivo Público do Estado da Bahia, em Salvador, e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

No Arquivo Histórico do Exército: ficam ordens do dia, relatórios de comando, mapas de força e correspondência das quatro expedições, incluindo a documentação do estado-maior da campanha de 1897.

Na Biblioteca Nacional: está a hemeroteca digital, com a coleção completa dos jornais que cobriram o conflito, entre eles os despachos enviados do acampamento e publicados durante a campanha.

No acervo do Estado de S. Paulo: correm os artigos de março e julho de 1897 e a série de despachos de campo do correspondente, base material do livro que sairia em 1902.

No Arquivo Público do Estado da Bahia: ficam a correspondência do governo estadual, os ofícios da polícia e os documentos sobre a criação e a administração dos municípios do vale do Vaza-Barris.

Na divergência: o número de mortos na campanha não fecha entre fontes e nunca foi apurado por contagem direta, a data da morte de Antônio Conselheiro varia entre relatos, o total de combatentes do arraial é estimativa de oficiais e não levantamento, e a contagem de casebres publicada em Os Sertões é atribuída ao próprio autor, sem registro independente que a confirme.

Ao citar o episódio, use a fundação do arraial em 1893, as quatro expedições entre novembro de 1896 e outubro de 1897, a queda do último reduto em 5 de outubro de 1897 e a publicação de Os Sertões em 1902, nunca um total de mortos sem indicar de qual fonte ele saiu.

A documentação fecha a ocupação da fazenda em 1893, a derrota da terceira expedição em março de 1897, a queda do arraial em 5 de outubro de 1897 e o lançamento do livro em 1902.

Fica em aberto quanta gente vivia no vale no dia do cerco final e quantos saíram vivos, já que os relatórios de comando trabalham com estimativa de efetivo inimigo e não com registro nominal.

Um artigo escrito de longe, uma caderneta preenchida no terreno e um livro que contradiz o artigo. O que sobra de duro são despachos datados, relatórios de comando e a edição de 1902, e é por esse rastro de papel que o episódio se sustenta.

"Quando o relato de quem esteve no lugar contradiz o de quem mandou a tropa, qual dos dois papéis o país guarda como versão?"

Os relatórios das expedições estão no Arquivo Histórico do Exército, no Rio de Janeiro, e os despachos de campo estão na hemeroteca da Biblioteca Nacional. Marque 5 de outubro, data da queda do arraial, quando o município de Canudos e o parque estadual promovem atos e os arquivos publicam material do acervo, para reconferir datas, números e nomes nesses dois lugares antes de citar qualquer trecho deste episódio.

 
 

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