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A batalha que o Exército adotou como certidão

19 de abril de 1648, montes Guararapes, em Jaboatão: três terços esperam a tropa neerlandesa no brejo entre os morros.

Mapa antigo da capitania de Pernambuco aberto sobre mesa de arquivo, com os montes Guararapes assinalados a tinta.

Guararapes, 1648: o brejo entre os morros

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"Triunfo da Liberdade", chamou Frei Manuel Calado do Salvador ao subtítulo de O Valeroso Lucideno, crônica da guerra em Pernambuco impressa em Lisboa em 1648, no mesmo ano do combate. O cronista era um religioso português que vivia em Pernambuco desde os anos 1630 e escreveu o relato enquanto a guerra ainda corria.

O episódio tem lugar exato e fácil de achar no mapa de hoje. Os montes Guararapes ficam no município de Jaboatão dos Guararapes, na região metropolitana do Recife, a poucos quilômetros do porto que a Companhia das Índias Ocidentais, a empresa neerlandesa que administrava a conquista do Nordeste, ocupava desde 1630.

O que torna o combate documentável não é a crônica sozinha. Existem três conjuntos de papéis produzidos por lados opostos: as crônicas luso-brasileiras impressas no século 17, as cartas e atas da própria Companhia das Índias Ocidentais guardadas em Haia, e a correspondência administrativa da Coroa portuguesa recolhida em Lisboa. Quando o número diverge, o pesquisador tem com o que comparar.

Quem estava em campo do lado luso-brasileiro tinha nome, patente e tropa própria. Francisco Barreto de Menezes comandava o conjunto como mestre de campo general, o posto de chefe de todas as tropas em campanha. Abaixo dele, quatro terços, as unidades de infantaria da época, equivalentes ao que hoje se chamaria regimento, cada uma com um comandante que a história militar brasileira acabou fixando como nome de rua, de quartel e de data comemorativa.

A escolha do lugar decidiu o formato do combate antes do primeiro tiro. Entre os dois morros corre terreno baixo, encharcado em abril, e a tropa que atravessasse o brejo chegaria cansada, lenta e sem formação fechada ao pé da subida.

A seção a seguir reconstrói o dia hora a hora pelo que as crônicas de época e a documentação neerlandesa registram: quem posicionou tropa onde, quem comandava cada terço, por onde a coluna atacante entrou e para onde ela se retirou no fim da tarde.

Continue lendo ↓

 
 

I  O Episódio do Dia

Dois morros, um brejo e uma tropa que recua

O relevo segurou a coluna que vinha do Recife.

Montes Guararapes, capitania de Pernambuco, 19 de abril de 1648. Francisco Barreto de Menezes posicionou a tropa luso-brasileira no alto dos morros e deixou o terreno baixo vazio, aberto e visível, para que a coluna neerlandesa tivesse de atravessá-lo sob observação.

Do lado neerlandês, o comando era de Sigismund von Schkoppe, oficial alemão a serviço da Companhia das Índias Ocidentais, que saiu do Recife com a força de campanha para desalojar os insurgentes e garantir o abastecimento da praça. A marcha seguiu pelo litoral em direção ao sul e depois virou para o interior, em direção aos morros.

A composição da tropa que esperava no alto entrou na memória oficial brasileira justamente pela mistura. João Fernandes Vieira, senhor de engenho nascido na Madeira, comandava um terço. André Vidal de Negreiros, nascido na Paraíba, comandava outro. Henrique Dias, homem negro nascido em Pernambuco, comandava o Terço dos Henriques, formado por homens negros libertos e escravizados alforriados no serviço. Antônio Filipe Camarão, potiguar batizado com o nome cristão de Antônio, comandava a tropa indígena e tinha patente de capitão-mor dada pela Coroa portuguesa.

O que a documentação fixa sobre o dia:

·  O lugar, os montes Guararapes, no atual município de Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco
·  O comando luso-brasileiro, Francisco Barreto de Menezes como mestre de campo general
·  O comando neerlandês, Sigismund von Schkoppe, oficial a serviço da Companhia das Índias Ocidentais
·  O terreno, brejo entre dois morros, encharcado no mês de abril e sem cobertura para quem atravessa
·  O fim do combate, a retirada da coluna neerlandesa para a praça do Recife, ainda em abril de 1648

O relevo fez o trabalho que faltava em número e em pólvora: a coluna atacante chegou ao pé do morro com a formação desfeita pelo atoleiro, e a tropa que esperava no alto atirou de cima, à queima-roupa, sobre gente que subia sem linha.

Deram nos nossos com tanto ímpeto, que os inimigos, desbaratados, se recolheram para o Recife.

O Valeroso Lucideno e Triunfo da Liberdade, Frei Manuel Calado do Salvador, 1648

A retirada não encerrou a guerra. A praça do Recife continuou neerlandesa, abastecida por mar, e a força de Schkoppe voltou a sair a campo no ano seguinte, sob outro comando, para tentar de novo a mesma passagem entre os morros.

O custo humano aparece nas relações de época com números que não fecham entre si. As crônicas luso-brasileiras contam baixas neerlandesas altas e perdas próprias modestas; a papelada da Companhia das Índias Ocidentais registra cifras menores para o próprio lado. Nenhuma contagem independente sobreviveu, e por isso a bibliografia séria cita as duas versões lado a lado, sem arbitrar.

Dois dos comandantes indígenas e negros que subiram ao morro viraram nome de instituição. Henrique Dias deu nome ao terço que o sucedeu em Pernambuco por mais de um século. Antônio Filipe Camarão recebeu da Coroa o hábito da Ordem de Cristo e o título de dom, e adoeceu poucos meses depois do combate, sem chegar ao fim da guerra.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

De 1648 a 1654, do brejo à capitulação

O combate de abril de 1648 entrou numa sequência de seis anos que começou antes dele e só terminou com a entrega da praça do Recife. A insurreição pernambucana havia começado em 1645, com senhores de engenho endividados com a Companhia das Índias Ocidentais e com a administração neerlandesa já sem o governo de João Maurício de Nassau, que deixara o Brasil em 1644.

A sequência que a documentação permite montar:

·  1630: a Companhia das Índias Ocidentais toma Olinda e o Recife e instala a administração neerlandesa em Pernambuco
·  1637: João Maurício de Nassau assume o governo no Recife e permanece até 1644
·  1645: começa a insurreição pernambucana, com João Fernandes Vieira entre os cabeças
·  1648: em 19 de abril, a primeira batalha dos Guararapes termina com a retirada neerlandesa para o Recife
·  1649: em 19 de fevereiro, a segunda batalha dos Guararapes repete o resultado, e o comandante neerlandês Johan van den Brincken cai em campo
·  1654: em 26 de janeiro, a capitulação da Campina do Taborda entrega a praça do Recife às tropas luso-brasileiras
·  1661: o tratado de Haia fixa a indenização portuguesa e fecha a disputa no papel

Os dois combates nos mesmos morros explicam por que a memória militar brasileira tratou o lugar como marco. A segunda investida neerlandesa, em fevereiro de 1649, repetiu a rota, o terreno e o desenlace, e a repetição do fracasso encerrou a possibilidade de a Companhia recuperar o açúcar do interior. O que restou a ela foi a praça murada e o abastecimento por navio.

A capitulação de 1654 foi assinada na Campina do Taborda, hoje no bairro do Recife, e previu a saída das tropas e dos moradores neerlandeses com bagagem e armas. O documento está entre os papéis luso-brasileiros e neerlandeses e fixa data, cláusulas e signatários.

O que veio depois, verificável em lei, decreto e acervo:

·  O 19 de abril virou Dia do Exército Brasileiro, por adoção da própria força como marco de origem 
·  Os montes Guararapes foram transformados em Parque Histórico Nacional dos Guararapes, criado em 1971 
·  A Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, no alto do monte, guarda a memória religiosa do episódio e recebe romaria anual 
·  As crônicas de 1648 e 1654 foram reeditadas no Brasil nos séculos 19 e 20, com aparato crítico 
·  O fundo da Companhia das Índias Ocidentais, no Arquivo Nacional neerlandês, foi microfilmado e parte dele digitalizada 

A leitura do episódio mudou conforme a época. O século 19 leu os Guararapes como fundação da nacionalidade, com ênfase na tropa de três origens. A historiografia recente examina o que a versão patriótica arredondou: o interesse econômico dos senhores de engenho endividados, a condição real dos homens do Terço dos Henriques e a violência da guerra sobre a população do açúcar.

 

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III  O Documento na Íntegra

Onde a batalha se confere hoje

O episódio se confere em quatro balcões: o Arquivo Nacional neerlandês em Haia, o Arquivo Histórico Ultramarino em Lisboa, o Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano no Recife e a Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro.

No Arquivo Nacional neerlandês, em Haia: está o fundo da antiga Companhia das Índias Ocidentais, com as cartas e atas do Conselho do Recife, o registro administrativo do lado que perdeu o combate e recuou.

No Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa: estão os papéis avulsos da capitania de Pernambuco, com requerimentos, patentes e pedidos de mercê dos comandantes e dos soldados que serviram na guerra.

No Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano, no Recife: ficam os estudos locais sobre os dois combates, a topografia dos morros e a identificação dos pontos citados nas crônicas.

Na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro: estão as edições brasileiras de O Valeroso Lucideno, das Memórias Diárias da Guerra do Brasil, publicadas em Madri em 1654 sob o nome de Duarte de Albuquerque Coelho, e do Castrioto Lusitano, de 1679.

Na divergência: o efetivo das duas forças e o número de baixas variam conforme a fonte, porque cada lado contou o próprio prejuízo e o dano alheio sem verificação externa, e nenhuma lista nominal completa de mortos e feridos sobreviveu.

Ao citar o episódio, use 19 de abril de 1648 para a primeira batalha e 19 de fevereiro de 1649 para a segunda, identifique Francisco Barreto de Menezes como comandante geral e Henrique Dias, Antônio Filipe Camarão, André Vidal de Negreiros e João Fernandes Vieira como comandantes de terço, e trate 26 de janeiro de 1654 como o fim da ocupação, não 1648.

A documentação fecha o lugar, o dia, os comandos dos dois lados, o desfecho do combate e o encadeamento até a capitulação do Recife.

Fica em aberto o efetivo exato de cada força e a contagem de baixas, porque as cifras vêm de relatos interessados dos dois lados, e fica em aberto o traçado preciso da linha de ataque no brejo, porque a ocupação urbana de Jaboatão alterou o terreno antes de qualquer escavação sistemática.

Dois morros, um brejo em abril e quatro terços de origens diferentes no alto. O que sustenta o episódio são as crônicas impressas em 1648 e 1654, as atas da Companhia guardadas em Haia e os papéis da capitania recolhidos em Lisboa.

"Quanto de um país cabe no relevo de um lugar que ninguém escolheu por bonito?"

O Parque Histórico Nacional dos Guararapes fica em Jaboatão dos Guararapes e o Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano fica no Recife. Marque 19 de abril, quando o parque e o instituto costumam abrir programação e publicar material sobre os combates, para reconferir datas, nomes de comandantes e cifras de efetivo nesses dois lugares antes de citar qualquer trecho deste episódio.

 
 

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Quem comandava a tropa neerlandesa que saiu do Recife para atacar os montes Guararapes em 19 de abril de 1648?

AFrancisco Barreto de Menezes
BSigismund von Schkoppe
CJohan van den Brincken
DJoão Maurício de Nassau

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