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1972: o Patinho Feio roda o primeiro programa

Estudantes da Poli-USP montam um computador com peças compradas aos poucos e abrem caminho para o G-10 e a Cobra.

O computador Patinho Feio, com seu painel de chaves e lâmpadas, no laboratório da Escola Politécnica da USP em 1972.

O Patinho Feio na Poli-USP, julho de 1972

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O Jornal da USP publicou em julho de 2022 a manchete “Patinho Feio, o primeiro computador brasileiro, completa 50 anos”. A máquina da manchete ainda existe e cabe numa sala: um armário de metal, com um painel de luzes e chaves na frente.

Em 24 de julho de 1972, esse armário estava ligado no prédio de Engenharia Elétrica da Escola Politécnica da USP, na Cidade Universitária, em São Paulo. Diante dele, professores, oficiais da Marinha e autoridades do governo esperavam a demonstração.

O computador tinha sido projetado e montado ali mesmo, no Laboratório de Sistemas Digitais, por um grupo de alunos e jovens engenheiros. Cada placa foi desenhada, soldada e testada pela equipe.

Os circuitos integrados, pequenas pastilhas de silício com transistores gravados, chegavam em lotes, comprados conforme a verba do laboratório permitia. Houve semana inteira de trabalho parado à espera de componente importado.

A memória guardava 4.096 palavras de 8 bits, cerca de 4 mil letras de texto. Um celular barato de hoje guarda milhões de vezes esse volume.

Quando o primeiro programa rodou, as lâmpadas do painel piscaram na ordem prevista. Para a plateia, era a prova de um país capaz de projetar a própria máquina de calcular eletrônica, num tempo em que todo computador instalado no Brasil vinha dos Estados Unidos ou da Europa.

O apelido nasceu como piada. Segundo o relato dos próprios engenheiros, a Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, tocava na mesma época um projeto chamado Cisne Branco; a máquina da Poli, pequena e sem pretensão de beleza, virou o Patinho Feio.

Em dois anos, o laboratório já trabalhava num sucessor encomendado pela Marinha, e uma fabricante nacional de computadores, a Cobra, saía do papel.

O Episódio do Dia volta ao começo: a aula de um engenheiro americano da IBM que virou projeto de turma.

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I  O Episódio do Dia

Um curso de 1971 vira máquina na Poli

São Paulo, 1971. Glen George Langdon Jr., engenheiro da IBM americana, chega à Escola Politécnica da USP como professor visitante para dar o curso que daria origem ao Patinho Feio. O tema era arquitetura de computadores (o estudo de como as partes de uma máquina se organizam para executar instruções).

O professor Antonio Hélio Guerra Vieira, à frente do Laboratório de Sistemas Digitais, tinha articulado a vinda. Ele queria alunos com experiência de projeto real, com placa e ferro de solda na mão.

A proposta de Langdon foi direta: a turma projetaria um computador completo, do conjunto de instruções (a lista de operações básicas da máquina) até a fiação.

Entre os estudantes estava Edson Fregni, que anos depois ajudaria a fundar a Scopus, uma das primeiras fabricantes paulistas de microcomputadores.

O trabalho foi dividido por blocos. Um grupo cuidava da unidade aritmética, a parte que soma e compara números; outro, da memória; outro, do painel e da entrada de dados.

O dinheiro era curto. O laboratório dependia de verba da universidade e de órgãos de fomento à pesquisa, e os componentes chegavam em pequenas remessas.

Cada circuito integrado da época tinha só algumas portas lógicas, os interruptores eletrônicos que decidem entre 0 e 1. Uma máquina inteira exigia centenas deles, encaixados em placas e ligados por fios.

Os erros apareciam no teste, placa por placa. Um fio solto ou um chip queimado parava tudo, e o defeito tinha de ser caçado com osciloscópio, o aparelho que desenha na tela o sinal elétrico.

O Patinho Feio não copiou computador estrangeiro: o conjunto de instruções e as placas saíram das pranchetas da Poli.

Em cerca de um ano, a máquina estava montada. Era um minicomputador, categoria de computador do tamanho de um armário, menor e mais barato que as máquinas de grande porte usadas por bancos e governos.

O primeiro programa rodou na demonstração de 24 de julho de 1972. Os relatos da equipe falam de rotinas simples de teste, que moviam números na memória e acendiam as luzes do painel na sequência esperada.

O texto exato desse primeiro programa não aparece em nenhuma fonte pública conhecida, porque a listagem de 1972 não foi publicada. O que ficou documentado é o resultado: a máquina rodou diante da plateia.

A Marinha estava na sala por interesse direto. As fragatas da classe Niterói, encomendadas à Inglaterra em 1970, chegariam com computadores importados, e a Força queria engenheiros brasileiros capazes de manter e substituir aqueles sistemas.

O Patinho Feio serviu de prova. Pouco depois da demonstração, a Marinha voltou à Poli com uma encomenda maior.

Para os estudantes, o ganho ficou no currículo. Quem tinha soldado as placas do Patinho Feio sabia projetar um computador do zero, competência rara no Brasil de 1972.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

Do G-10 à fábrica da Cobra

A demonstração de julho de 1972 abriu uma sequência de passos. Os marcos, em ordem:

• 1971: curso de Langdon na Poli

• 24/07/1972: o primeiro programa roda

• 1972: começa o projeto G-10

• 1974: nasce a Cobra

• 1984: sai a Lei de Informática

O G-10 foi a encomenda seguinte. A Marinha e o BNDE, o banco federal de desenvolvimento, financiaram um computador nacional maior, pensado para uso militar e comercial.

O projeto foi dividido entre duas universidades. A USP ficou com o hardware, as placas e os circuitos. A Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, a PUC-Rio, ficou com o software, os programas que fazem a máquina funcionar.

A origem exata da sigla G-10 não aparece explicada nas fontes públicas do projeto consultadas aqui; o nome ficou como rótulo de trabalho entre as equipes de São Paulo e do Rio.

No mesmo ano de 1972, o governo criou a Capre, Comissão de Coordenação das Atividades de Processamento Eletrônico, para controlar a compra de computadores pelo setor público.

Faltava quem fabricasse em série. Em 1974 nasceu a Cobra, sigla de Computadores e Sistemas Brasileiros S.A., com participação do BNDE, de empresas privadas brasileiras e da britânica Ferranti, fornecedora de sistemas para as fragatas.

A Cobra foi a primeira fabricante de computadores de controle nacional no país.

Os primeiros produtos da empresa saíram de licenças estrangeiras. O Cobra 500, lançado no começo dos anos 1980, foi o primeiro modelo com projeto brasileiro, herdeiro do trabalho do G-10.

Muitos engenheiros formados no Laboratório de Sistemas Digitais foram trabalhar na Cobra e nas fabricantes privadas surgidas no fim dos anos 1970.

A política ganhou forma de lei em 1984. A Lei 7.232, a Lei de Informática, reservou o mercado de minicomputadores e microcomputadores a empresas de capital nacional.

A reserva de mercado terminou em 1992, com a abertura às importações. A Cobra seguiu viva com outro dono: o Banco do Brasil assumiu o controle, e em 2013 ela passou a se chamar BB Tecnologia e Serviços.

O Patinho Feio ficou na Poli. Depois da demonstração, serviu de máquina de ensino para novas turmas do laboratório.

Alunos que nunca tinham visto um computador por dentro aprendiam ali a ler o painel, trocar placas e escrever programas em binário, o mesmo treino da turma de 1971.

 

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III  O Documento na Íntegra

O painel de chaves e lâmpadas

A peça escolhida para hoje é o painel frontal do Patinho Feio, a face do armário onde ficam as fileiras de chaves e lâmpadas. Por ali a equipe conversava com a máquina em 1972.

Não havia teclado nem tela. Cada lâmpada mostrava um bit, o dígito binário de valor 0 ou 1: acesa para 1, apagada para 0.

Uma fileira de oito chaves correspondia a uma palavra de 8 bits, o tamanho de cada gaveta da memória. Outra fileira indicava o endereço, o número da gaveta onde a palavra seria guardada.

Carregar um programa pelo painel seguia uma rotina fixa:

1. Posicionar as chaves de endereço no número da gaveta.

2. Posicionar as oito chaves de dado com a instrução em binário.

3. Acionar a chave de depósito para gravar a palavra.

4. Repetir o ciclo para cada instrução, gaveta por gaveta.

5. Voltar ao endereço inicial e mandar executar.

Um programa de cem instruções pedia cem ciclos de chaves, e um único bit errado trocava a instrução inteira.

Para programas maiores, a equipe recorria à fita de papel perfurada, lida por uma leitora ligada ao computador. Os furos na fita repetiam, em linha, os mesmos zeros e uns das chaves.

A fita poupava horas de chave, mas cobrava cuidado próprio. Um furo fora do lugar tinha o mesmo efeito de uma chave errada, e o rolo rasgado obrigava a perfurar tudo de novo.

As lâmpadas também serviam de depurador, a ferramenta de achar erro no programa. Rodando instrução por instrução, o engenheiro via em qual passo o valor da memória saía do esperado.

“Por que a plateia de 1972 acreditou só pelas luzes?”

Porque quem estava na sala sabia ler o painel. As luzes corriam na ordem prevista pelo programa, e cada padrão aceso mostrava o número guardado na memória naquele instante.

O computador original está preservado na Escola Politécnica da USP, no prédio da Engenharia Elétrica, e aparece em exposições sobre a história da computação no país.

O Patinho Feio completa 55 anos em 24/07/2027; reconfira o horário de visita ao acervo na página da Escola Politécnica da USP nessa data.

 
 
Quiz da edição

Quantas palavras de 8 bits a memória do Patinho Feio conseguia armazenar?

A65.536
B1.024
C4.096
D16.384

Resultado da última edição: 100% acertaram.

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