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Altamira, 9 de outubro de 1970. Na margem do rio Xingu, uma castanheira-do-pará de grande porte foi escolhida para cair diante do presidente Médici, de ministros e de jornalistas trazidos de Brasília.
A castanheira é uma das árvores mais altas da floresta amazônica. Pode passar de 40 metros, e o tronco de um exemplar adulto exige vários homens de braços dados para ser abraçado.
A escolha tinha peso simbólico. A castanha dessa árvore sustentava havia décadas a economia de cidades como Altamira e Marabá, com coletores entrando na mata na época da safra.
A derrubada foi feita com motosserra, diante da comitiva. Quando o tronco tombou, abriu-se uma clareira no ponto que o governo marcou como início oficial das obras.
No toco que ficou, foi pregada uma placa de bronze. O texto falava em início da construção da Transamazônica e em conquista daquele mundo verde, com a data e o nome da cidade.
Médici discursou no local. A ideia central repetia a propaganda do Programa de Integração Nacional: ligar o Nordeste seco à Amazônia, levar gente para a floresta e ocupar a fronteira.
O lema que circulou nos jornais da época resumia o plano: terra sem homens para homens sem terra. A frase ignorava os povos que viviam na rota, como os Parakanã e os Arara, contatados às pressas pelas frentes da Funai durante as obras.
A cerimônia de Altamira inaugurou uma obra sem o projeto de engenharia completo de todo o traçado.
Nos meses seguintes, as empreiteiras abriram a pista em frentes simultâneas. Primeiro vinha a derrubada da mata, depois o destocamento, a remoção das raízes, e só então a terraplenagem.
O trabalho seguia o calendário das chuvas. Entre dezembro e maio, a água transformava a terra recém-aberta em lama, e máquinas pesadas ficavam atoladas por semanas.
Os acampamentos dependiam de avião para comida, remédio e peças. A malária derrubava trabalhadores em série, e muitos voltavam para casa antes do fim do contrato.
Ao lado da pista, o Incra demarcava lotes de 100 hectares e montava agrovilas, pequenos núcleos com casas, escola e posto de saúde, planejados a cada poucos quilômetros.
As primeiras famílias chegaram ainda em 1971, muitas vindas do Ceará, do Rio Grande do Norte e da Paraíba, além de colonos do Sul do país.
Cada família recebia, no papel, casa na agrovila, lote para plantar e crédito para a primeira safra. Na prática, muitas chegaram antes da casa pronta e dormiram meses em barracos de lona à beira da pista.
Em menos de dois anos, a primeira grande etapa estava pronta para receber carros e caminhões, sem asfalto na maior parte do caminho.
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