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Planalto Central, fim de 1956. A Novacap, presidida pelo engenheiro mineiro Israel Pinheiro, demarca um terreno perto do canteiro de Brasília para abrigar o comércio da obra. O plano oficial chama a área de Núcleo Bandeirante; os primeiros moradores já falam em Cidade Livre.
A estatal tinha nascido da Lei número 2.874, de 19 de setembro de 1956, assinada pelo presidente Juscelino Kubitschek. A meta era entregar a capital em pouco menos de quatro anos, antes de terminar o mandato dele.
Num descampado sem estrada asfaltada, cada saco de cimento e cada quilo de feijão chegava de caminhão, por centenas de quilômetros de terra. Sem comércio perto, a obra parava à espera de mantimento.
Israel Pinheiro resolveu com uma isca fiscal. A Novacap cedia o lote em comodato (empréstimo gratuito do terreno, sem passar a propriedade) a quem montasse estabelecimento, e o comércio ficava isento de impostos.
O contrato tinha três condições: construir só em madeira, aceitar que o chão continuava da Novacap e desocupar tudo depois de inaugurada a capital. A cidade nascia com a data de demolição escrita no papel.
A Cidade Livre foi desenhada para durar quatro anos: a madeira servia de garantia de que nenhum dono de loja criaria raiz.
O plano piloto de Lucio Costa, vencedor do concurso de 1957, nem contava com o povoado. Para os operários, a Novacap montava acampamentos ao lado das obras; a Cidade Livre era o lugar do comércio, do banco, da pensão e do cinema.
Juscelino tinha anunciado a capital com uma frase hoje gravada na Praça dos Três Poderes:
“Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inabalável e uma confiança sem limites no seu grande destino.” (Juscelino Kubitschek, frase datada de 2/10/1956)
A solidão durou pouco. Caminhoneiros, mascates, donos de pensão e candangos (os trabalhadores vindos de fora para construir Brasília) encheram a avenida principal do povoado em poucos meses.
O comércio sem imposto atraiu também quem nada tinha a ver com a obra. Gente das cidades goianas vizinhas vinha comprar mais barato, e a Cidade Livre virou o centro de compras da região inteira.
As casas de tábua ganharam segundo andar, letreiro pintado e varanda. Igrejas, escolas e clubes surgiram no mesmo material provisório, mas com cara de endereço definitivo.
Quando 1960 chegou, o povoado tinha famílias com filhos nascidos ali e um movimento de dinheiro que nenhum acampamento de obra igualava. A licença, porém, continuava com o mesmo vencimento.
Cada comerciante sabia a data. Muitos investiram assim mesmo, apostando que uma cidade cheia de gente seria difícil de derrubar, e essa aposta definiria os anos seguintes.
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