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Mangaratiba, 1930. Mário Peixoto chega à costa sul do estado do Rio com um roteiro escrito à mão e a ideia fixa de rodar um filme sobre gente presa num barco.
A ideia tinha nascido em Paris, no ano anterior. Numa banca, ele viu a capa da revista francesa VU com a foto de uma mulher olhando de frente e duas mãos de homem algemadas em volta do pescoço dela.
A imagem não saiu da cabeça dele. No navio de volta ao Brasil, Peixoto escreveu o roteiro inteiro, e a foto entrou no filme quase igual, como um dos primeiros planos.
Faltava quem soubesse filmar. Peixoto procurou Edgar Brasil, fotógrafo de cinema nascido em Hamburgo, na Alemanha, e criado no Rio, que já tinha trabalhado em longas da época.
Edgar Brasil topou e levou para Mangaratiba o equipamento que tinha. Os dois passaram meses entre a praia, a vila e a ilha em frente, testando ângulos que a câmera pesada mal permitia.
O elenco saiu do círculo de amigos. Olga Breno e Taciana Rei fizeram as duas mulheres do barco, Raul Schnoor fez o homem, e o próprio Peixoto aparece num papel pequeno.
Carmen Santos, atriz e produtora conhecida no Rio, entrou numa ponta. Brutus Pedreira, músico do grupo, cuidou da trilha que seria tocada ao vivo na projeção.
Para os planos de cima, Edgar Brasil amarrava a câmera no alto do mastro e a operava pendurado, com o barco balançando embaixo.
O dinheiro vinha da família de Peixoto, que bancou película, aluguel de barco, hospedagem e transporte. Ninguém da equipe recebia salário de cinema profissional.
A montagem (a escolha e a ordem dos trechos filmados) foi feita pelo próprio Peixoto, no Rio. Ele cortou o material em blocos de lembrança, sem seguir a ordem do tempo da história.
O resultado não tinha paralelo no cinema brasileiro do período. A trama quase não andava; o que avançava era o ritmo das imagens, ora parado, ora rápido como um galope.
Os sócios do Chaplin Club viram o filme pronto e decidiram exibi-lo numa sessão especial. Entre eles estava Plínio Süssekind Rocha, estudante que mais tarde viraria professor de física.
Plínio defendia que o cinema mudo era a forma mais pura da arte e que o som estragava o filme. Para ele, Limite provava a tese, e a sessão no Capitólio foi armada como manifesto.
Peixoto nunca mais terminou outro longa. Começou um segundo filme, Onde a Terra Acaba, em 1931, e abandonou as filmagens no meio por briga com a produtora Carmen Santos.
O que restou dele foi Limite, um único longa terminado, rodado numa praia com amigos e dinheiro da família. Os rolos dessa única obra seguiram com o diretor e com os sócios do cineclube depois da sessão de maio.
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