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1931: Limite estreia no Cinema Capitólio

O filme de Mário Peixoto passa uma vez para o público do Rio, some das telas e volta pelas mãos de um professor de física.

Três pessoas num barco a remo em mar aberto, cena do filme Limite, de Mário Peixoto, 1931.

Limite, de Mário Peixoto, 1931

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O convite do Chaplin Club para a sessão de 17 de maio de 1931 no Cinema Capitólio, na Cinelândia, centro do Rio de Janeiro, anunciava em letra de forma: “Limite, de Mário Peixoto”. A plateia daquela manhã de domingo sabia pouco do autor.

Mário Peixoto tinha 23 anos. Filho de família rica do interior fluminense, tinha estudado na Inglaterra, escrevia poemas e nunca tinha dirigido um filme antes daquele.

O filme não tinha diálogo nem letreiro explicando a trama. Era cinema mudo, como quase tudo o que se projetava no Brasil até então, e durava perto de duas horas.

Na tela, três pessoas à deriva num barco a remo, em mar aberto: duas mulheres e um homem. Cada um, cansado e com sede, lembra a vida que deixou em terra firme.

A câmera ficava longos minutos parada sobre uma mão, uma onda, uma cerca de arame. Havia planos filmados de cima do mastro e outros rentes à água, com a lente quase molhada.

Quem estava ali era o público dos cineclubes, grupos de sócios que se reuniam para ver e discutir filmes fora do circuito comercial. O Chaplin Club, fundado em 1928, era o principal deles na cidade.

O Capitólio ficava na mesma praça onde as grandes casas exibiam os lançamentos de Hollywood, já falados. Limite chegava ali na contramão: silencioso, lento e sem estrela conhecida no elenco.

A sessão terminou com aplauso de uns e desconforto de outros. Nenhum distribuidor quis o filme, e ele nunca entrou em cartaz em sala comercial.

Nas décadas seguintes, quase ninguém conseguiu vê-lo. A única cópia em bom estado foi apodrecendo dentro da lata, e o filme virou conversa de quem jurava ter assistido.

Ele chegou até nós graças a um físico carioca que guardou as latas em casa por anos. O Episódio do Dia volta à praia onde Limite foi filmado e mostra como um rapaz sem experiência montou a equipe.

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I  O Episódio do Dia

Um verão em Mangaratiba com câmera emprestada

Mangaratiba, 1930. Mário Peixoto chega à costa sul do estado do Rio com um roteiro escrito à mão e a ideia fixa de rodar um filme sobre gente presa num barco.

A ideia tinha nascido em Paris, no ano anterior. Numa banca, ele viu a capa da revista francesa VU com a foto de uma mulher olhando de frente e duas mãos de homem algemadas em volta do pescoço dela.

A imagem não saiu da cabeça dele. No navio de volta ao Brasil, Peixoto escreveu o roteiro inteiro, e a foto entrou no filme quase igual, como um dos primeiros planos.

Faltava quem soubesse filmar. Peixoto procurou Edgar Brasil, fotógrafo de cinema nascido em Hamburgo, na Alemanha, e criado no Rio, que já tinha trabalhado em longas da época.

Edgar Brasil topou e levou para Mangaratiba o equipamento que tinha. Os dois passaram meses entre a praia, a vila e a ilha em frente, testando ângulos que a câmera pesada mal permitia.

O elenco saiu do círculo de amigos. Olga Breno e Taciana Rei fizeram as duas mulheres do barco, Raul Schnoor fez o homem, e o próprio Peixoto aparece num papel pequeno.

Carmen Santos, atriz e produtora conhecida no Rio, entrou numa ponta. Brutus Pedreira, músico do grupo, cuidou da trilha que seria tocada ao vivo na projeção.

Para os planos de cima, Edgar Brasil amarrava a câmera no alto do mastro e a operava pendurado, com o barco balançando embaixo.

O dinheiro vinha da família de Peixoto, que bancou película, aluguel de barco, hospedagem e transporte. Ninguém da equipe recebia salário de cinema profissional.

A montagem (a escolha e a ordem dos trechos filmados) foi feita pelo próprio Peixoto, no Rio. Ele cortou o material em blocos de lembrança, sem seguir a ordem do tempo da história.

O resultado não tinha paralelo no cinema brasileiro do período. A trama quase não andava; o que avançava era o ritmo das imagens, ora parado, ora rápido como um galope.

Os sócios do Chaplin Club viram o filme pronto e decidiram exibi-lo numa sessão especial. Entre eles estava Plínio Süssekind Rocha, estudante que mais tarde viraria professor de física.

Plínio defendia que o cinema mudo era a forma mais pura da arte e que o som estragava o filme. Para ele, Limite provava a tese, e a sessão no Capitólio foi armada como manifesto.

Peixoto nunca mais terminou outro longa. Começou um segundo filme, Onde a Terra Acaba, em 1931, e abandonou as filmagens no meio por briga com a produtora Carmen Santos.

O que restou dele foi Limite, um único longa terminado, rodado numa praia com amigos e dinheiro da família. Os rolos dessa única obra seguiram com o diretor e com os sócios do cineclube depois da sessão de maio.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

Do Capitólio à mesa de restauro

A estreia foi o primeiro de uma série de passos que levaram meio século. Os marcos, em ordem:

• 17/05/1931: sessão no Capitólio

• Anos 1940: a cópia começa a se desfazer

• 1959: início do restauro na faculdade

• 1978: o filme volta completo às telas

• 1988: críticos o elegem o maior filme brasileiro

Depois do Capitólio, Limite passou em poucas sessões fechadas, para convidados. Peixoto guardou o negativo e a cópia, e o material ficou parado por anos.

O problema estava na própria película. Até os anos 1950, os filmes eram impressos em nitrato de celulose, um plástico inflamável que, com calor e umidade, amolece, gruda e vira pó.

Plínio Süssekind Rocha recolheu as latas e as levou para a casa dele. Guardou o material por anos, sem projetar, porque cada passagem pelo projetor arrancava pedaços da emulsão (a camada que guarda a imagem).

Em 1959, já professor da Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio, Plínio começou o trabalho de salvar o filme com um aluno, Saulo Pereira de Mello, estudante de física.

O restauro foi feito à mão, um fotograma (cada quadro da película) de cada vez, refotografado sobre película nova.

Os dois montaram uma mesa de trabalho improvisada dentro da faculdade. Quadro por quadro, fotografavam a imagem gasta e a transferiam para um material que não se desfazia.

O trabalho atravessou quase vinte anos. Plínio não chegou a ver tudo pronto, e Saulo concluiu as etapas finais, cuidou das cópias e dedicou a vida ao estudo do filme.

Em 1978, Limite voltou a ser exibido inteiro. Os críticos que não o conheciam encontraram um filme de 1931 com cortes e enquadramentos que o cinema só repetiria décadas depois.

Em 1988, uma votação de críticos organizada pela Cinemateca Brasileira escolheu Limite como o melhor filme brasileiro já feito. Em 2015, a Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) repetiu o resultado na lista dela de cem títulos.

Nos anos 2000, a Cinemateca Brasileira e a World Cinema Foundation, entidade criada pelo diretor americano Martin Scorsese, fizeram uma nova restauração, agora em digital.

Peixoto viveu até 1992 sem voltar a filmar. Passou os últimos anos num sítio em Angra dos Reis, escrevendo, e viu o filme ganhar fama sem nunca mais estar atrás da câmera.

 

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III  O Documento na Íntegra

As latas guardadas na casa do professor

A peça de hoje é o próprio filme: os rolos de Limite que saíram do Capitólio em 1931 e passaram anos numa casa de família no Rio.

Uma lata de filme da época guardava um rolo de película de 35 milímetros, com cerca de dez minutos de imagem. Limite inteiro ocupava uma pilha delas.

Quem abre hoje uma lata de nitrato antiga reconhece o estrago em quatro sinais, nesta ordem:

1. O cheiro ácido, parecido com vinagre forte.

2. A imagem que desbota e ganha manchas marrons.

3. As espiras do rolo grudadas umas nas outras.

4. O pó amarelo no fundo da lata, sem imagem nenhuma.

Plínio pegou o material quando ele estava entre o segundo e o terceiro sinal. Parte dos rolos já tinha trechos perdidos, e alguns planos só existiam em pedaços curtos.

Sem o restauro, o filme teria chegado ao quarto sinal e deixado de existir como imagem.

O cuidado de Plínio tinha regra simples: lata fechada, lugar seco, nenhuma projeção. Ele preferia não ver o filme a perder mais um quadro dele.

Saulo Pereira de Mello registrou o trabalho em livro. Em Limite, filme de Mário Peixoto, publicado pela Funarte em 1979, ele descreveu o filme plano a plano, com fotos dos quadros salvos.

O mesmo Saulo desfez uma lenda antiga. Durante anos circulou um elogio a Limite atribuído ao cineasta russo Serguei Eisenstein, citado como se tivesse saído numa revista inglesa.

O texto era do próprio Peixoto. Saulo encontrou o rascunho entre os papéis do diretor, que tinha inventado o elogio para dar ao filme um padrinho estrangeiro.

A cópia restaurada hoje fica na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, que guarda os materiais de preservação em depósito climatizado, longe do calor que quase apagou o filme.

“Como um filme visto por tão pouca gente virou o mais votado do país?”

Porque ele sobreviveu em imagem, e quem o viu depois do restauro pôde julgá-lo inteiro. Sem as latas na casa de Plínio, a votação de 1988 não teria filme para votar.

Limite completa 100 anos de estreia em 17/05/2031; reconfira a programação de exibições na página da Cinemateca Brasileira nessa data.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, quem guardou as latas do filme Limite em casa por anos, antes de iniciar o restauro numa faculdade do Rio?

ASaulo Pereira de Mello, aluno de física
BEdgar Brasil, fotógrafo do filme
CPlínio Süssekind Rocha, professor de física
DMário Peixoto, diretor do filme

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