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1930: o Graf Zeppelin amarra no mastro do Jiquiá

O dirigível alemão faz no Recife a primeira escala brasileira, abre uma linha regular com a Europa e deixa de pé a torre de amarração.

O dirigível Graf Zeppelin preso ao mastro de amarração do campo do Jiquiá, no Recife, em 1930.

O Graf Zeppelin no Jiquiá, maio de 1930

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Na manhã de 22 de maio de 1930, o Diario de Pernambuco, jornal fundado no Recife em 1825, mantinha repórteres de plantão num descampado da zona oeste da cidade, o campo do Jiquiá. Esperavam um navio que vinha pelo céu.

O navio era o LZ 127 Graf Zeppelin, um dirigível alemão com quase 237 metros de comprimento, mais extenso do que dois campos de futebol enfileirados. Dirigível é um balão alongado, com motores e leme, que voa sustentado por um gás mais leve do que o ar.

No Graf Zeppelin, esse gás era hidrogênio, inflamável, guardado em bolsas de tecido presas dentro de uma armação de alumínio. Embaixo do casco, uma gôndola levava a cabine de comando, a cozinha e os camarotes.

A multidão começou a chegar ainda de madrugada. Gente de bonde, de carroça e a pé tomou as bordas do campo, onde uma torre de ferro esperava o visitante.

A torre era um mastro de amarração: uma estrutura alta com um engate no topo, onde o nariz do dirigível se prende para o casco girar ao sabor do vento sem encostar no chão. Tinha sido erguida às pressas para a ocasião.

Quando a silhueta prateada apareceu sobre os telhados, as ruas pararam para olhar para cima. A tripulação lançou cabos, e uma equipe de solo puxou a nave devagar até o engate.

Era a primeira vez que um dirigível tocava território brasileiro. A travessia desde a Alemanha, com escala em Sevilha, na Espanha, tinha levado quatro dias; um vapor gastava perto de duas semanas no mesmo caminho.

Nos sete anos seguintes, o Recife virou parada de rotina de uma linha aérea regular entre a Alemanha e o Brasil, com passageiros, cartas e encomendas a bordo.

A linha acabou de uma hora para outra em 1937, depois do incêndio de outro dirigível, o Hindenburg, num campo de pouso em Nova Jersey. O mastro do Jiquiá ficou onde estava.

O Episódio do Dia acompanha a viagem desde a partida no sul da Alemanha e mostra por que o comandante escolheu o Recife como porta de entrada.

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I  O Episódio do Dia

Quatro dias do lago de Constança ao Jiquiá

A resposta de ontem

Onde estão hoje os restos do cacique Tibiriçá?

Na cripta da Catedral da Sé, no centro de São Paulo. Quando a igreja jesuíta veio abaixo no fim do século 19, os restos de Tibiriçá foram guardados e, depois, levados para a cripta da nova catedral, onde repousam ao lado de bispos da cidade e do regente Diogo Antônio Feijó, a poucos minutos a pé do Pátio do Colégio.

Friedrichshafen, 18 de maio de 1930. O Graf Zeppelin deixa o hangar às margens do lago de Constança, no sul da Alemanha, sob o comando de Hugo Eckener, diretor da Luftschiffbau Zeppelin (o estaleiro de dirigíveis Zeppelin).

Eckener tinha 62 anos. Formado em economia, trabalhara como jornalista antes de entrar na empresa, e em 1929 já levara a mesma nave numa volta ao mundo, bancada em parte pelo editor americano William Randolph Hearst.

A nave homenageava o conde Ferdinand von Zeppelin, militar alemão que inventou o dirigível rígido, aquele com esqueleto de metal por dentro do tecido. O conde não viu a viagem ao Brasil: tinha morrido em 1917.

Faltava a Eckener provar que o dirigível servia para uma linha comercial longa, repetida e paga. A volta ao mundo tinha sido espetáculo; agora ele precisava de calendário.

A América do Sul era a aposta. Havia colônias alemãs grandes no Sul do Brasil e na Argentina, comércio intenso de café, e nenhum avião da época cruzava o Atlântico Sul levando passageiros.

A primeira parada foi Sevilha, na Espanha, em 19 de maio. Dali a nave desceu pela costa da África, passou pelo arquipélago de Cabo Verde e atravessou o oceano rumo ao litoral de Pernambuco.

A bordo iam passageiros pagantes, jornalistas e sacos de correspondência. As cartas rendiam mais do que as passagens: colecionadores do mundo inteiro pagavam para receber um envelope que tivesse voado no dirigível.

O Recife entrou no roteiro pela geografia. A cidade fica perto da ponta do continente mais próxima da África, tinha porto movimentado, estação de telégrafo ligada à Europa por cabo submarino e serviço de previsão do tempo.

Também tinha alemães no chão. O Syndicato Condor, empresa aérea de capital alemão que operava hidroaviões no litoral brasileiro, cuidou da recepção, do combustível e da equipe que segurou as cordas.

O campo do Jiquiá ganhou a escolha por ser plano, aberto e livre de prédios altos, condição para a nave manobrar baixo sem risco de enroscar o casco.

O dirigível não pousava: descia até o mastro, prendia o nariz no engate e ficava flutuando, preso só pela proa.

No Jiquiá, a nave recebeu hidrogênio, combustível e mantimentos. Passageiros desceram para conhecer a cidade, e autoridades pernambucanas subiram para visitar a gôndola.

Em seguida, o Graf Zeppelin desceu a costa até o Rio de Janeiro, onde apareceu sobre a baía de Guanabara em 25 de maio. No Rio ainda não havia mastro, e a parada no Campo dos Afonsos durou pouco.

A nave voltou ao Recife e subiu para Lakehurst, em Nova Jersey, antes de cruzar o Atlântico Norte de volta à Alemanha. Fechou um triângulo entre três continentes.

O teste convenceu Eckener. O Atlântico Sul tinha ventos mais estáveis do que o Norte, sem as tempestades de inverno que castigavam a rota para Nova York, e a linha regular saiu do papel.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

Sete anos de céu entre Recife e Europa

A rota inaugurada no Jiquiá teve vida curta e intensa. Os marcos dela, em ordem:

• 22/05/1930: o Graf Zeppelin amarra no Jiquiá

• 1931: viagens de teste com carga postal

• 1932: a linha entra em calendário fixo

• Dezembro de 1936: abre o hangar de Santa Cruz

• 06/05/1937: o Hindenburg pega fogo

A partir de 1932, o Graf Zeppelin cruzou o Atlântico Sul em temporadas, de primavera a outono no hemisfério norte. O Recife era a primeira terra firme depois do oceano, e o mastro do Jiquiá recebia a nave a cada passagem.

Dentro da gôndola havia camarotes para 20 passageiros, um salão de refeições com toalha branca e janelas que podiam ser abertas em pleno voo. Sem o balanço dos navios, os viajantes descreviam a travessia como um passeio de hotel.

O Rio de Janeiro ganhou estrutura própria só em dezembro de 1936. Na zona oeste da cidade, em Santa Cruz, o governo inaugurou o Aeroporto Bartolomeu de Gusmão, com um hangar de aço feito para abrigar dirigíveis inteiros.

O homenageado era Bartolomeu de Gusmão, padre nascido em Santos, na capitania de São Vicente, que fez subir um pequeno balão de ar quente diante da corte de Lisboa em 1709. O hangar segue de pé, dentro da Base Aérea de Santa Cruz.

Com o hangar no Rio, o Recife deixou de ser ponto final e virou escala. A nave chegava do mar, amarrava no Jiquiá, reabastecia e seguia para o sul.

Em 1936, a linha ganhou um segundo dirigível, o LZ 129 Hindenburg, maior e mais luxuoso, com salão de piano e área para fumantes vedada contra faíscas. Ele também fez viagens ao Rio naquele ano.

Em 6 de maio de 1937, o Hindenburg chegava a Lakehurst depois de cruzar o Atlântico Norte. Durante a manobra de amarração, o casco pegou fogo e virou uma tocha em cerca de 30 segundos. Morreram 36 pessoas: 35 a bordo e um homem da equipe de solo.

Quando o Hindenburg ardeu, o Graf Zeppelin estava no ar, voltando do Brasil; foi a última viagem comercial dele.

A nave pousou em Friedrichshafen dois dias depois e nunca mais levou passageiros. O governo alemão a desmontou em 1940 e usou o alumínio da armação na indústria de guerra.

A causa exata do incêndio nunca foi provada. As investigações americana e alemã apontaram um vazamento de hidrogênio aceso por uma descarga de eletricidade estática, mas a origem da faísca segue sem confirmação, porque os destroços queimaram quase por inteiro.

O efeito sobre o público foi imediato. O filme da explosão correu os cinemas do mundo, e nenhuma empresa voltou a vender passagem de dirigível com hidrogênio.

 

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III  O Documento na Íntegra

O envelope carimbado no ar

A peça escolhida para hoje cabe num bolso: um envelope que atravessou o Atlântico no porão do Graf Zeppelin em maio de 1930, com destino ao Recife ou ao Rio de Janeiro.

Na viagem de 1930, os correios da Alemanha venderam selos especiais de 2 e 4 marcos com a inscrição “1. Südamerika Fahrt” (primeira viagem à América do Sul). Os correios brasileiros também imprimiram selos de correio aéreo próprios para a ocasião.

O envelope voado é lido em quatro camadas. Quem pega um nas mãos confere, nesta ordem:

1. O selo, que mostra quanto o remetente pagou pelo frete aéreo.

2. O carimbo de bordo, com as palavras “Luftschiff Graf Zeppelin” (dirigível Graf Zeppelin).

3. O carimbo de chegada, com a cidade e a data do desembarque.

4. O endereço, quase sempre de um colecionador.

Muitas cartas não levavam notícia alguma: o remetente pagava o frete para receber de volta o próprio envelope carimbado.

O quarto item explica o comércio. Para Eckener, o envelope era receita garantida, vendida antes da decolagem; para o colecionador, era a prova física de que uma folha de papel tinha cruzado o oceano pelo ar.

O selo alemão carrega a mesma lógica. Vendido só para a viagem, ele perdia uso depois do voo e virava peça de coleção no mesmo dia.

Hoje esses envelopes aparecem em leilões de filatelia, o colecionismo de selos, e em acervos de museus postais na Alemanha e no Brasil. Os carimbos permitem refazer a rota de cada viagem, dia por dia.

O envelope guarda a linha aérea inteira em papel. O outro vestígio do Jiquiá é de ferro, e continua no mesmo terreno.

“Por que um mastro de ferro sobreviveu a uma linha aérea inteira?”

Porque o terreno do Jiquiá virou área pública e a torre ganhou proteção como patrimônio de Pernambuco. Hoje ela é a peça central do Parque do Jiquiá, e a Prefeitura do Recife a apresenta como a única torre de amarração de dirigível ainda de pé no mundo.

A primeira amarração no Jiquiá completa 97 anos em 22/05/2027; reconfira o horário de visita na página do Parque do Jiquiá, da Prefeitura do Recife, nessa data.

 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, quanto tempo levou a travessia do Graf Zeppelin desde a Alemanha até o Recife, com escala em Sevilha?

A10 dias
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C4 dias
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