A resposta de ontem Qual estrela fica sozinha acima da faixa branca? É Spica, a Espiga, a estrela mais brilhante da constelação de Virgem. No desenho de 1889 ela já ocupava sozinha o lado de cima da faixa branca e representava o Pará, posição e estado confirmados pela Lei 8.421, de 11 de maio de 1992, a lei das 27 estrelas. |
São Paulo, 1929. Giuseppe Martinelli, nascido em 1870 em Lucca, na Toscana, termina o edifício com o próprio sobrenome e se muda para o alto dele. Tem 59 anos e uma fortuna inteira enterrada no concreto.
Martinelli desembarcou no Brasil em 1889 com quase nada. Trabalhou no comércio, abriu uma casa importadora e, com o tempo, montou uma companhia de navegação, o Lloyd Nacional, que levava carga pela costa brasileira.
Nos anos 1920 era um dos homens mais ricos da colônia italiana paulistana. Queria um prédio que mostrasse essa fortuna e que servisse de escritório, hotel e comércio no mesmo endereço.
O terreno escolhido ficava no ponto mais nobre do centro, onde a colina descia para o vale do Anhangabaú. Dali, um prédio alto seria visto de quase toda a cidade, e Martinelli contava com o efeito.
O projeto ficou com o arquiteto húngaro Vilmos Fillinger, que trabalhava em São Paulo. A fachada seguiu o estilo eclético (mistura de elementos de épocas diferentes), com cornijas, colunas e ornamentos inspirados nos palácios europeus.
A primeira licença da prefeitura autorizava 12 andares. Martinelli foi pedindo mais à medida em que a obra subia, e por vezes subiu antes de a autorização chegar.
O prédio cresceu andar por andar sobre licenças pedidas no caminho, e a cidade acompanhou cada bloco novo com medo.
Em 1928 a dúvida chegou ao poder público. A prefeitura nomeou técnicos para examinar a estrutura, e a obra chegou a ser embargada (parada por ordem oficial) enquanto se discutia se as fundações aguentavam o peso.
Os técnicos liberaram o prédio com a altura que ele já tinha. A estrutura de concreto armado tinha sido calculada com folga, e as fundações iam fundo no terreno da colina central.
O parecer técnico, porém, não acalmou a rua. Nos bondes e nos cafés, o prédio seguia sendo o gigante prestes a desabar sobre a São João.
Corria pela cidade a aposta de quanto tempo o gigante duraria. Os mais pessimistas falavam em semanas; os otimistas, em poucos anos.
Martinelli respondeu com o próprio corpo. Mandou erguer na cobertura um palacete, uma casa completa com salas, quartos e terraço, e mudou para lá com a mulher e os filhos.
O recado era simples de entender: ninguém instala a família num prédio no qual não confia. A mudança valia mais do que qualquer cálculo publicado no jornal.
O gesto funcionou. Com o dono morando lá em cima, as salas foram alugadas, o hotel abriu e os paulistanos passaram a subir ao terraço para ver a cidade de cima pela primeira vez.
O terraço virou passeio de domingo. Famílias pagavam para subir de elevador e olhar os telhados, as chaminés das fábricas do Brás e a várzea do Tietê ao longe.
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