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1929: Giuseppe Martinelli vai morar no topo dos seus 30 andares

No centro paulistano, um imigrante de Lucca ergue o prédio mais alto da América do Sul e muda a família para a cobertura para provar a obra.

Edifício Martinelli em construção no centro paulistano, com 30 andares, em 1929.

O Edifício Martinelli no centro, 1929

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A Prefeitura paulistana resume o prédio numa linha, na página oficial dedicada a ele: “o primeiro arranha-céu da América Latina”. A frase cabe numa placa de turismo, mas esconde a briga que o edifício provocou enquanto subia.

O prédio fica na esquina da avenida São João com a rua São Bento e a rua Líbero Badaró, no centro velho da capital paulista. A obra começou em 1924 e durou cinco anos.

Nesse tempo, o paulistano viu nascer um bloco de concreto armado (concreto com barras de aço dentro) maior do que qualquer torre de igreja da cidade. Para muita gente, era alto demais para ficar de pé.

O dono da obra não era engenheiro. Era um comerciante italiano, imigrante pobre que chegara ao Brasil aos 19 anos e enriquecera com importação e navios.

O projeto previa 12 andares. Depois virou 20, depois 25, e a cada mudança a fachada ganhava outro bloco de janelas sobre a cidade baixa.

A prefeitura desconfiou. Engenheiros municipais questionaram os cálculos, a imprensa publicou charges e vizinhos passaram a evitar a calçada da obra.

O medo tinha alguma base. Nenhum edifício brasileiro tinha passado daquela altura, e o concreto armado ainda era técnica nova no país, conhecida de poucos construtores.

Os jornais contavam os andares em voz alta. Cada laje nova virava notícia, e cada notícia trazia a mesma dúvida sobre o chão aguentar.

Em 1929 o prédio chegou aos 30 andares e passou dos 100 metros. Era o mais alto da América do Sul.

Faltava convencer a cidade. O dono resolveu a questão sem laudo e sem discurso: mandou construir uma casa no topo, levou a família e foi morar lá.

O Episódio do Dia conta quem era esse homem, como o prédio cresceu além da licença e por qual motivo a mudança para a cobertura encerrou a discussão.

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I  O Episódio do Dia

Um comerciante de Lucca no céu da cidade

A resposta de ontem

Qual estrela fica sozinha acima da faixa branca?

É Spica, a Espiga, a estrela mais brilhante da constelação de Virgem. No desenho de 1889 ela já ocupava sozinha o lado de cima da faixa branca e representava o Pará, posição e estado confirmados pela Lei 8.421, de 11 de maio de 1992, a lei das 27 estrelas.

São Paulo, 1929. Giuseppe Martinelli, nascido em 1870 em Lucca, na Toscana, termina o edifício com o próprio sobrenome e se muda para o alto dele. Tem 59 anos e uma fortuna inteira enterrada no concreto.

Martinelli desembarcou no Brasil em 1889 com quase nada. Trabalhou no comércio, abriu uma casa importadora e, com o tempo, montou uma companhia de navegação, o Lloyd Nacional, que levava carga pela costa brasileira.

Nos anos 1920 era um dos homens mais ricos da colônia italiana paulistana. Queria um prédio que mostrasse essa fortuna e que servisse de escritório, hotel e comércio no mesmo endereço.

O terreno escolhido ficava no ponto mais nobre do centro, onde a colina descia para o vale do Anhangabaú. Dali, um prédio alto seria visto de quase toda a cidade, e Martinelli contava com o efeito.

O projeto ficou com o arquiteto húngaro Vilmos Fillinger, que trabalhava em São Paulo. A fachada seguiu o estilo eclético (mistura de elementos de épocas diferentes), com cornijas, colunas e ornamentos inspirados nos palácios europeus.

A primeira licença da prefeitura autorizava 12 andares. Martinelli foi pedindo mais à medida em que a obra subia, e por vezes subiu antes de a autorização chegar.

O prédio cresceu andar por andar sobre licenças pedidas no caminho, e a cidade acompanhou cada bloco novo com medo.

Em 1928 a dúvida chegou ao poder público. A prefeitura nomeou técnicos para examinar a estrutura, e a obra chegou a ser embargada (parada por ordem oficial) enquanto se discutia se as fundações aguentavam o peso.

Os técnicos liberaram o prédio com a altura que ele já tinha. A estrutura de concreto armado tinha sido calculada com folga, e as fundações iam fundo no terreno da colina central.

O parecer técnico, porém, não acalmou a rua. Nos bondes e nos cafés, o prédio seguia sendo o gigante prestes a desabar sobre a São João.

Corria pela cidade a aposta de quanto tempo o gigante duraria. Os mais pessimistas falavam em semanas; os otimistas, em poucos anos.

Martinelli respondeu com o próprio corpo. Mandou erguer na cobertura um palacete, uma casa completa com salas, quartos e terraço, e mudou para lá com a mulher e os filhos.

O recado era simples de entender: ninguém instala a família num prédio no qual não confia. A mudança valia mais do que qualquer cálculo publicado no jornal.

O gesto funcionou. Com o dono morando lá em cima, as salas foram alugadas, o hotel abriu e os paulistanos passaram a subir ao terraço para ver a cidade de cima pela primeira vez.

O terraço virou passeio de domingo. Famílias pagavam para subir de elevador e olhar os telhados, as chaminés das fábricas do Brás e a várzea do Tietê ao longe.

 
 

II  Neste Dia no Brasil

Do palacete na cobertura ao prédio tomado

A vida do Edifício Martinelli cabe em poucas datas, todas ligadas a Giuseppe Martinelli:

• 1870: nasce em Lucca

• 1889: chega ao Brasil

• 1924: começa a obra

• 1929: 30 andares, mudança para o topo

• 1934: vende o prédio

• 1975: a prefeitura desapropria

O ano da glória também foi o da queda. Em outubro de 1929 a bolsa de Nova York quebrou, o preço do café despencou e os negócios de Martinelli entraram em crise.

Os navios pararam de dar lucro, as dívidas do prédio continuaram, e o comerciante não conseguiu segurar o edifício por muito tempo. Em 1934 vendeu o arranha-céu e deixou o palacete da cobertura.

O prédio continuou sendo o mais alto da cidade por quase duas décadas. Só em 1947 o Edifício Altino Arantes, sede do Banco do Estado, passou dele no horizonte paulistano.

Nos anos 1950 o Martinelli deixou de ser endereço de prestígio e virou moradia improvisada, dividida sala por sala.

O centro velho perdeu escritórios para a avenida Paulista e outros bairros.

Bancos e empresas trocaram os salões ornamentados por prédios novos, de vidro e linhas retas, e os conjuntos do Martinelli ficaram vazios. Os donos dos conjuntos alugavam e sublocavam as salas sem manutenção, e o edifício virou um cortiço vertical (prédio onde famílias pobres dividem cômodos apertados).

Os elevadores quebravam, a fiação ficava exposta e o lixo se acumulava nos poços de ventilação. O prédio ganhou fama de lugar perigoso, com crimes noticiados pela imprensa policial.

Mesmo assim, o prédio nunca caiu. A estrutura calculada nos anos 1920 atravessou décadas de abandono sem rachadura grave, e a dúvida de 1928 ficou respondida pelo tempo.

Em 1975 o prefeito Olavo Setúbal decidiu intervir. A prefeitura desapropriou (tomou para o poder público, mediante indenização) o edifício e retirou os moradores.

A restauração ocupou o fim dos anos 1970. Operários limparam a fachada, refizeram instalações e recuperaram os salões, e o prédio passou a abrigar secretarias e empresas municipais.

A volta dos servidores públicos trouxe de novo movimento aos corredores. O centro velho ganhou um ponto de referência recuperado, e o terraço voltou a receber gente interessada na vista.

Martinelli não viu essa volta. Viveu no Rio até 1946, longe do prédio, e nunca recuperou a fortuna dos anos 1920.

 

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III  O Documento na Íntegra

A casa no alto e a fachada recuperada

O documento desta edição é o próprio edifício, lido andar por andar, como Giuseppe Martinelli o deixou e como a prefeitura o devolveu à cidade.

No térreo ficavam lojas e a entrada principal. Nos andares de baixo e do meio, salas de escritório, o hotel e salões de festa ocupavam o miolo do prédio.

No alto, a cobertura guardava o palacete da família, com cômodos de pé-direito (altura entre o piso e o teto) generoso e terraço aberto para os quatro lados da cidade.

A fachada conta a mesma história em ornamento. Repare nos detalhes que sobreviveram ao abandono:

1. As cornijas (faixas salientes no alto das paredes) marcam a divisão dos blocos.

2. As janelas mudam de desenho conforme a altura sobe.

3. A cor rosada da fachada voltou com a restauração.

4. O topo escalonado esconde a antiga casa do dono.

O palacete da cobertura funcionou como prova de engenharia: o dono pôs a própria família onde a cidade via perigo.

A restauração dos anos 1970 tratou o prédio como patrimônio. A fachada foi lavada e repintada, e as partes ornamentais quebradas foram refeitas a partir de fotografias antigas.

O trabalho exigiu escolhas. As divisórias de madeira e os puxadinhos dos tempos de cortiço saíram, e as plantas originais orientaram onde cada parede voltava a ficar.

Hoje o terraço recebe visitas guiadas. Do alto, o visitante vê o vale do Anhangabaú, o Viaduto do Chá e o Edifício Altino Arantes, o prédio de 1947 que tirou do Martinelli o título de mais alto.

O nome do dono continua na fachada, embora ele tenha perdido o prédio cinco anos depois de terminá-lo. A cidade guardou o sobrenome e esqueceu, em boa parte, o comerciante que o carregava.

Quem sobe hoje ao terraço pisa no mesmo chão do palacete de 1929. A vista mudou, com centenas de prédios mais altos em volta, mas o ponto de partida do horizonte paulistano segue ali.

“Por que Martinelli foi morar no topo do prédio?”

Porque o parecer técnico da prefeitura não bastou para acalmar o público. Ao instalar a mulher e os filhos na cobertura, ele mostrou na prática que confiava na estrutura que tinha pago.

As visitas ao terraço do Edifício Martinelli seguem agenda própria da prefeitura; reconfira horários e inscrições em 1º de novembro de 2026, na página oficial do edifício no portal da cidade.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Para quem Giuseppe Martinelli vendeu o próprio arranha-céu em 1934?

 
 
Quiz da edição

Por que a Colônia Cecília, fundada por Giovanni Rossi em Palmeira em 1890, recebeu esse nome?

AEra o nome da esposa de Giovanni Rossi
BEra o nome da heroína de um romance utópico que o próprio Rossi escrevera
CEra uma homenagem a uma santa padroeira de Palmeira
DSaiu de uma votação em assembleia entre os colonos

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